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No conjunto as narrativas nos evidenciam que no imaginário dos entrevistados a instituição não é o lugar de estar. Com suas falas os idosos nos esclarecem sobre seu desejo de estar em Casa e de nela permanecer até a morte, que muitos esperam ser súbita - querem dali partir para “uma melhor” sem a necessidade dos cuidados de outrem – família ou instituição.

As seguranças proporcionadas pela conquista deste espaço são tanto afetivas e psíquicas quanto físicas, materiais e sociais. Assim como nas musicas em que a Casa cantada

é projetada a partir de relações afetivas, é fortaleza guardiã dos sentimentos e daquilo que realmente tem valor (amigos, livros, discos, amor e self) e se transforma em Lar ao agregar elementos naturais à companhia de alguém que se ama, ou ao promover a interação com o mundo, a Casa real de nossos colaboradores também é fortaleza - projetada a partir de necessidades materiais e de vulnerabilidades sociais - guardiã da paz e da tranqüilidade. O calor do Lar é concha que protege do mundo externo, lugar do aconchego e da proteção divina.

Como nos mostrou DaMatta o espaço da Casa é o universo privado da família, parentes, compadres e amigos; lugar privilegiado do aconchego, do repouso e da hospitalidade; espaço das ações que podem ser condenadas na rua e do tempo dos finais de semana – tempo interno, de lazer e para ser vivido em família.

Nas narrativas dos idosos são claras essas idealizações. Dona Maria Rosa sonhava em ter Casa e família: “Eu sempre fui assim: eu queria ter uma família. Eu queria assim, ter minha casa. Eu sempre falava: “o dia que eu tiver a minha casa eu junto a minha família pra almoçar na minha casa”.

E qual o tamanho de sua frustração por agora ter Casa, mas não conseguir reunir a família: “[...] essas coisas não acontecem. Os meus parentes quase não vêm aqui. O pessoal ai mesmo fala “credo Maria os seus parentes não vem na sua casa”. Eu falo, “eles não vêm mesmo”. Só essas legítimas. Elas vêm sempre aqui, mas os outros não”.

Mas esta triste constatação não diminui o valor e a importância de sua Casa, nem o apreço que tem por ela: “Eu adoro, adoro minha casa, adoro o lugar que moro...” A percepção de Lar de Dona Maria Rosa, assim como o Lar idealizado por Arnaldo Antunes, se relaciona plenamente com lareira, local da cozinha onde se ascende o fogo que com suas chamas iluminam, aquecem e transformam os alimentos (Fellipe: 2010) e promove relações afetivas: “Ah, eu gosto da minha cozinha. Eu adoro cozinhar, fazer coisas diferentes, copiar receitas... [...] Quando eu quero fazer uma coisa assim, que eu não posso comer muito, eu faço e divido com o pessoal - levo um potinho na casa de um e fico só com um pouquinho pra mim. Eu já divido com os outros”.

Para Seu Adelino a percepção da Casa se relaciona com riquezas como segurança, sossego, tranqüilidade, paz e uma “vida de regalo”: “Minha vida mudou bastante eu estou na casa de Deus. Agora eu tenho a Casa, já tô mais sossegado, mais aliviado [...]A riqueza maior foi a saúde, que Deus deu pra comer, e agora deu a casa aqui, porque foi feito o papel”. Livrar-se dos alugueis torna a necessidade de trabalhar menos preponderante e lhe possibilita

Página  |  157   desfrutar de uma vida mais tranqüila, com tempo de sobra para o lazer: “Hoje não tenho necessidade de trabalhar. É pescar, fiz um covo feio que nem eu mesmo. Mas o feio tem direito de ir no rio pescar”.

Seu Antonio fala do aconchego e calor do seu Lar. Quando se ausenta não vê a hora de retornar para Casa: “[...] dei graças quando cheguei aqui, abri a porta e entrei pra dentro, quando recebi o calor da minha casa”. Sente orgulho de possuir este espaço: “Quando converso com as pessoas conto com muito orgulho que moro aqui, todo mundo acha que aqui é uma maravilha. E aqui é muito adequado para os idosos”.

Para Seu Irineu, que passou toda a vida no mesmo lugar, a Casa é sua maior referência no mundo - o que tem grande significado quando se considera que o mundo de um caminhoneiro é imenso. Enquanto pilotou caminhão, sua Casa foi o porto seguro onde mulher e filho estavam sempre à sua espera. O contraponto com as estradas – lugar de passagem onde viveu a maior parte de sua vida - é o território da Casa, ponto certo de chegada: “A gente acostuma num lugar, eu acostumei porque, quando trabalhava com caminhão, sabia que toda semana, pelo menos um dia na semana, passava lá”.

Em sua narrativa Casa e casamento se imbricam dando sentido ao seu lugar de estar no mundo. Como nos sugeriu DaMatta; “de casa vêm também casamento, casadouro e casal, expressões que denotam um ato relacional, plenamente coerente com o espaço da moradia e da residência” (DaMatta: 1997: 54). Por temor de abalar suas relações familiares sentiu quando teve que se mudar pra Vila: “Francamente, o dia que eu me mudei, eu não sei, parece que eu saí do ar. Falar a verdade eu até chorei”.

Deixar pra trás o filho e os netos não foi tarefa fácil de realizar, a idéia de perder o contato com pessoas tão querida lhe assombrava: “Quando eu sai de lá eu pensava: “poxa vida agora quero ver eu sair daqui, ficar longe dos meus netos, da minha família, do filho, da nora, ficar longe deles vai ser difícil”. Eu não esperava que seria assim, que eles viriam me visitar sempre. Toda semana, pelo menos duas vezes, ele vem. Ele vem, minha nora vem, os netos, todos estão sempre por aqui”.

A certeza de que a mudança não abalaria os vínculos familiares deixou o processo mais ameno e proporcionou outras reflexões: “Sei que foi difícil pra mim no começo, mas depois eu fui pegando o jeito, agora acostumei. [...] e analisando bem, eu pensei comigo: “é uma coisa que, eu sei que tá garantido aqui pra mim até o dia que morrer, porque depois que morrer, o caminho certo é o cemitério”.

Para Dona Geni a conquista da Casa pôs fim a uma vida de instabilidade e inseguranças proporcionando autonomia financeira. Sua percepção de Casa passa também pela idéia de porto seguro. Lugar de paz e de proteção divina: “Aqui eu sei que é do governo, é emprestado e quando eu morrer passa pra outra pessoa idosa, mas mesmo assim estou no céu!”.

Também para Seu Abel a autonomia financeira proporcionada pelo novo lar é fator de segurança e tranqüilidade: “Não tem lugar melhor no mundo do que aqui viu! [...] Aqui é muito tranqüilo, graças à Deus!”

Dona Maria Rosa que antes, com muita dificuldade pagava o aluguel de uma Casa muito embolorada, que não batia sol e que lhe causava problemas de saúde aponta para o alivio em se livrar do aluguel e, mesmo com a baixa aposentadoria, agora viver melhor: “[...] eu passei a viver bemmmm mesmo depois que eu mudei aqui. Da minha vida inteira aqui é o lugar que eu vivo melhor. Ah, nossa, não tem nem comparação, com os outros lugares”. A segurança em saber que agora não corre o risco de ser despejada nem de ter que ficar sem comida pra arcar com os custos do aluguel é fator de tranqüilidade: “É que aqui eu sei que só vou sair daqui pra últimas moradas. E, se ficar dependente, vou pra um asilo ou, na casa de familiar”.

Para Dona Zélia a segurança da Casa, é física, sua Casa a protege da força da natureza: o telhado não pinga na chuva, as paredes não mofam e o espaço é arejado. E também lhe proporciona relações afetivas com a vizinhança, o que a faz se sentir mais segura: “[...] Por essa e por outras aqui é melhor. Aqui me sinto muito segura”.

Para Dona Maria Duffet a Casa idealizada, desejada e alcançada é relicário imenso, guardião das histórias impressas em seus objetos. Assim como a Casa idealizada e cantada por Elis Regina a Casa de Dona Maria Duffet é fortaleza que protege seus bens mais valiosos e a faz encontrar a paz e a tranqüilidade do Lar - sua conquista pôs fim a uma trajetória de constantes mudanças e necessidade de se desfazer dos preciosos bens que ainda lhe restaram.

Nenhum dos idosos entrevistados pensa em sair do Programa. A própria Dona Maria Duffet reforça, inúmeras vezes, que não tem intenção de se mudar dali, mesmo com a possibilidade de rever o seu dinheiro e assim ter condições de adquirir uma Casa própria: “Mas se eu chegar a pegar esse dinheiro (poupança retirada no Plano Bresser – Collor) pretendo ajudar alguma obra de caridade. Tirar o suficiente pra viver, pagar uma faxineira boa, de confiança, pra vir toda semana fazer uma faxina, mudar alguma coisa aqui dentro, pra

Página  |  159   conforto da gente e o resto... Mas mudar daqui não penso não. Estou muito bem, graças à Deus”.

Para Seu Irineu é certo que sua desvinculação do Programa se dará apenas pela morte: “[...] o dia que a gente faltar, o meu filho com a minha nora, podem tirar toda a mudança, tudo o que tiver aqui dentro, só deixar a casa vazia”. Por esta certeza ele esta sossegado e não tem mais nada que possa querer na vida “[...] porque eu penso que aqui tem tudo que eu quero, a minha mulher sabe fazer tudo, ela, como cozinheira, nossa! Tudo que eu gosto ela faz. Cama pra dormir tem, eu posso dormir o dia inteiro, se eu quiser descansar. O que mais eu vou querer?”

Seu Abel nem teria porque se mudar, pois esta no melhor lugar do mundo: “Aqui é muito tranqüilo, graças à Deus! Graças à Deus! Eu me relaciono bem com todos os vizinhos, com todos eles. É muito bom demais”.

E seu Antonio também reforça a segurança que sente por saber que dali não precisará se mudar mais: “Essa casa não é minha, mas até a gente apitar na curva, como diz o ditado do pessoal, posso viver aqui, a gente fica tranqüilo”. Apenas ele, entre todos os entrevistados, se pudesse, estaria em outro lugar. Seu sonho é em ter um sitio: “[...] o que eu queria mesmo era estar no sitio. Aqui esta mil maravilhas para mim, mas eu queria estar num sitio plantando e criando alguma coisa”.

E Dona Maria Rosa, que teve toda a sua narrativa colorida por sua relação com a Casa, finaliza: “Da minha vida inteira aqui é o lugar que eu vivo melhor. Ah, nossa, não tem nem comparação, com os outros lugares”.

As seguranças proporcionadas pela Casa permitem aos nossos colaboradores projetar o futuro – se antes não sobrava tempo pra pensar além das necessidades imediatas, hoje, no aconchego e tranqüilidade do lar, é possível querer mais que as condições necessárias para sobreviver.

Seu Antonio quer, no futuro, encontrar uma companheira, desfrutar da herança de seu avó, comprar um sitiozinho e ter uma plantação.

Dona Geni embora ache que velho não tem futuro, espera, ainda fazer muita coisa na vida. Com o dinheiro que agora sobra: “comer bem, andar bem limpinha. Futuro a gente não tem mais porque já é velho, como é que a pessoa vai ter futuro? O que tiver que fazer é pra comer, pra beber, se vestir, ir pra uma igreja, fazer uma visita. Isso é que eu espero!

Seu Irineu espera viver mais pra poder desfrutar da esperada aposentadoria – que deve chegar quando completar 65 anos de idade: “[...] o meu sonho é, depois que aposentar, viver

mais oito ou dez anos pra desfrutar um pouco da aposentadoria. Eu acho que chego nisso[...] Então, eu acredito que, controlando o diabetes e tomando meus remédios certo, é capaz que eu dure mais um tempinho, mas não dá pra calcular porque o corpo é que nem uma máquina. Você vai indo prá rua e, de repente, ‘puf’”.

Seu Abel, com humor, espera ganhar na loteria: “Meu futuro? Só se acertar na mega sena, porque de aposentadoria não vai passar disso aqui. É isso aqui o resto da vida, é ou não é?”.

Dona Maria Rosa é a personagem que melhor ilustra nosso enredo das percepções e seguranças que uma Casa pode proporcionar à pessoa que envelhece. Dona de uma história marcada por sofrimento e instabilidade, ela experimenta, na velhice, a felicidade que antes não conhecia e gosto pela vida: “Tudo que eu falava antigamente, que eu não queria mais viver, hoje eu falo, “eu amo viver, que coisa mais gostosa”. Sim, já fiquei cansada da vida - no tempo que eu sofria. Mas hoje, eu adoro viver, nossa, eu amo viver”.

Com a vida cheia de novas possibilidades, “[...] nem tenho tempo de pensar na solidão. Não tenho mesmo!” Todo dia eu arrumo uma coisa pra fazer, e todo dia eu sou a mesma coisa”.

Essa idosa que já desejou a morte, acreditando ser essa a saída para por fim ao seu sofrimento, hoje nos dá a receita de sua felicidade: “[...] que vantagem tem você ficar brava? Tem dois tempos, um de ficar brava e outro de ficar boa. Então porque já não anda boa o tempo inteiro?” Mas não é mais fácil? Vai ter que ficar brava? Você vai sofrer. Você não vai ter que ficar boa depois? Então porque já não andar o tempo inteiro bem com a vida? Eu adoro viver aqui, que delicia!”

O que pode querer da vida agora é desfrutar de tudo de bom que lhe esta reservado: “O que eu quero da vida é passear bastante. Eu já falei que a partir do ano que vem eu vou economizar um pouco pra passear mais”.

Nas canções e nas narrativas percebemos que a noção de Casa é estritamente vinculada à segurança dos afetos, mas, da arte para a realidade, as narrativas nos mostram que esta segurança se amplia para a proteção social. A Casa é a grande guardiã das emoções, da individualidade e da subjetividade de seus moradores. Lugar da intimidade protegida, a partir do qual as pessoas se projetam no mundo e o apreendem, a Casa é o lugar privilegiado para construir a si mesmo e a relação com os outros, é lugar de ser, mas, é também lugar de ter tranquilidade, conforto, segurança de acolhida, paz e uma velhice mais protegida e com qualidade de vida.

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