Em outro trabalho chamado “Mulher negra, homem branco”, pu- blicado pela editora Pallas em 2004, utilizo o conto “O Patinho Feio” para discutir algumas questões referentes àqueles que são considera- dos diferentes. Agora, me aproprio de alguns trechos desse livro para ilustrar minhas idéias.
O conto “O Patinho Feio”, de Hans Christian Andersen, narra a histó- ria de uma pata que chocou vários ovos e, entre eles, o último a eclodir foi o de uma criatura feia e desengonçada. Como era diferente dos de- mais patinhos, foi rejeitado por eles que acreditavam que, por sua feiúra, ele mereceria isso. A mãe, cansada de defender o patinho contra tudo e contra todos, disse que preferia que ele fosse embora. O patinho parte pelo mundo. Em sua jornada, é assustado por caçadores, perseguido por uma galinha e um gato em uma casa velha; observa aves lindas no céu, mas não as reconhece como iguais; fi ca preso no gelo de um lago e quase morre. Ele é salvo por um lavrador que o leva para casa, onde é maltrata- do novamente, agora, pelos fi lhos do homem e por sua mulher (não antes de fazer uma série de trapalhadas). Ele foge mais uma vez e, ao fi nal, em um lago observa a sua imagem descobrindo-se um cisne e é acolhido pe- los outros cisnes que se aproximam dele.
“O Patinho Feio” é a história daquele que é rejeitado pelos seus irmãos de origem. Ele busca a aceitação em um grupo no qual não é aceito, sente- se sem lugar no mundo, sem espaço, deprime-se e quase morre.
O conto do patinho feio pode ser visto como o processo de individua- ção, desde a descoberta de que era diferente e era rejeitado por isso até a percepção de seu verdadeiro eu e do amor de si que possibilitaram a rela- ção com o outro, a interdependência.
Segundo a analista Clarice Pinkola Estés:
“‘O Patinho Feio’, publicada pela primeira vez em 1845, trata do arquétipo do ser incomum e desvalido, uma história perfeita e similar à da Mulher Selvagem. Durante os dois últimos séculos, ‘O Patinho Feio’ foi uma das poucas histórias a incentivar sucessivas gerações de ‘gente diferente’ a agüentar até encontrar sua turma.
Trata-se de uma história básica em termos psicológicos e espirituais. Uma história básica é aquela que contém uma verdade tão fundamental para o desenvolvimento humano que, sem a incorporação desse fato, o avanço se torna duvidoso e ninguém consegue prosperar sob o aspecto psicológico enquanto não perceber essa verdade.” (ESTÉS, Clarice Pinkola. Mulheres que correm com os lobos. 5a. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1995, p. 211.)
Na história do patinho feio, podemos ler o seguinte:
“E assim ela [a mãe pata] o apresentou às outras criaturas do quintal da fazenda, mas, antes que percebesse, outro pato atravessou o quintal a toda e bicou o patinho feio bem no pescoço.
- Pare com isso! - gritou a mãe pata.
- Ora, ele é tão feio e esquisito. Ele precisa que o maltratem - retrucou o valentão.
- Oh, mais uma ninhada! Como se já não tivéssemos bocas demais a alimentar! - exclamou a pata rainha com o trapo vermelho na perna. - E aquele lá, grandão e feio? Bem, aquilo sem dúvida é um engano.
- Ele não é um engano - disse a mãe pata. - Ele vai ser muito forte. Foi só que ele fi cou tempo demais dentro do ovo e ainda está meio deformado. Mas ele vai se recuperar.” (ESTÉS, Clarice Pinkola. Mulheres que correm com os lobos. 5a. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1995, p. 212. Os grifos são meus)
No conto, o que determinava os maus-tratos aos quais o patinho deveria ser submetido era sua estranheza física: esquisito, grandão, deformado. O que incomodava os outros?
Harmonia signifi ca junção das partes. Não junção de partes necessaria- mente iguais, idênticas, mas de partes que, somadas, gerariam um equilí- brio e se completariam. Assim, um grupo ou uma sociedade harmoniosos não seriam aqueles em que todos os seus indivíduos fossem iguais, mas aqueles nos quais todos reconhecessem que juntos teriam o equilíbrio. Vi- mos como essa idéia estava presente entre os gregos.
No conto de Andersen, o patinho feio perturbava a ordem do quintal da fazenda e quebrava a harmonia e o equilíbrio porque era tomado como deformado, estranho, esquisito: o exótico.
Olhar algo ou alguém como exótico seria uma forma de lidarmos com aquilo que instintivamente consideramos desarmônico e estranho sem colo- car em risco a nossa própria harmonia e equilíbrio. Também é uma forma de estabelecer diferenças, já que haverá um a olhar o outro como exótico e a se excluir desse exotismo e da possibilidade de ser observado dessa forma.
A desarmonia não implica somente a feiúra, mas a estranheza, a esquisi- tice, o engano. Há esta tensão no conto “Patinho Feio”: ele não era realmente feio, mas somente não combinava com os outros. Não fazia com que sua pre- sença gerasse um sentimento de equilíbrio. Percebemos que o patinho gerava incômodo por ser esquisito. Mas, simultaneamente, era necessário para que os outros patinhos pudessem dar vazão a seus instintos mais baixos, pudes- sem exteriorizar as suas próprias esquisitices: era a pata rainha queixando-se de suas responsabilidades e sendo avarenta; o patinho valentão exercendo o seu sadismo ao dizer que o patinho feio precisava que ele o maltratasse; a mãe do patinho podendo revelar a sua ambigüidade enquanto um ser que somente podia acolher os patinhos que não lhe gerassem problemas, que lhe dessem orgulho, que dessem certo na vida, e mostrando que não poderia aco- lher ou suportar a exposição e a diferença de um dos seus fi lhotes.
O patinho feio traz desequilíbrio ao quintal da fazenda ao “gerar”, com sua presença, a liberação dos sentimentos que os outros patos certamente não gostariam de possuir, mas possuíam. Por isso, ele incomodava, mas, ao mesmo tempo, era necessário porque, ao ser receptáculo dessas emoções, permitia que o grupo dos “patinhos bonitos” permanecesse coeso e harmô- nico: era ele quem gerava problemas, era ele quem recebia o ônus pelos distúrbios como se, querendo pertencer àquele espaço, ele justifi casse a sua própria exclusão (já que não era um pato). E, por mais perfeito que ele quisesse ser, jamais poderia alcançar a perfeição de ser um pato bonito.
No momento em que ele decide sair do quintal é como se dissesse: “Basta! Eu não quero mais participar de um enredo no qual meu papel é ser o espelho do pior de cada um de vocês; é o de ser, por isso, o receptáculo de sua ira! Eu quero a felicidade, eu quero ser aceito como eu sou!”. Mas o que ele seria?
O patinho decide sair do quintal. Mas decide porque sua mãe diz que não o suportava mais ali; não agüentava mais o que ele trazia. Ele poderia fi car se não tivesse dentro de si a coragem para correr outros riscos. Ele, por si próprio, não se considerava estranho, mas havia algo nele que inco- modava os outros e era impossível para ele ser de outra forma. E foi esse algo que era de sua natureza que lhe deu o impulso para ir embora. O pa- tinho feio não tinha ciência de quem era, do que sua presença gerava nos outros, por isso se sentia triste, culpado, deprimido, solitário.
O que fazia feio o patinho feio era que todos projetavam nele suas pró- prias feiúras porque ele, instintivamente, sem saber ao certo como ou por quê, desafi ava, gerava incômodo.
Não é difícil associar a história do patinho feio com o que acontece diariamente com muitas crianças em nossas escolas! Hoje, poderíamos dizer que o patinho foi vítima de bullying, a palavra inglesa criada para designar os maus-tratos, as humilhações, as intimidações, as gozações, as tiranias, as perseguições e as ofensas de que muitas crianças são ví- timas em função de suas diferenças.