Em conversas com o grupo de orientação87, em busca de algum contexto escolar para ser estudado, um professor de Matemática de uma escola da Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte foi indicado para ter as suas aulas observadas. Após essa indicação, uma conversa88 com esse professor foi agendada e, nesse encontro, expus os objetivos da investigação e a maneira pela qual se dariam as observações de aulas: sem intervenções e com um caderno de campo para realizar as anotações. O professor João89 mostrou-se muito receptivo e aberto aos propósitos da investigação e colocou suas turmas à disposição para que tais observações pudessem acontecer.
Ficou estabelecido que a coleta de dados aconteceria em suas turmas que, por sua vez, pertenciam ao ensino noturno da Educação de Jovens e Adultos – EJA – de uma escola da Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte, MG. A EJA não foi um pré-requisito para a escolha dos ambientes a serem observados e, portanto, não se constitui como objeto de estudo desta investigação. Partindo dessas premissas, configuram-se os contextos nos quais estavam mergulhados os ambientes escolhidos para serem observados e, conseqüentemente, a escola que, naquele momento, passou a fazer parte desta investigação.
Essa escola pertence à Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte, que possui como eixo orientador um projeto denominado Escola Plural. Esse projeto atribui características
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Na apresentação desta dissertação, menciono a metodologia utilizada pela professora Jussara para orientar seus alunos. Para isso, são realizadas reuniões semanais com todos os mestrandos e doutorandos, que discutem e opinam sobre os textos dos demais colegas. A essas reuniões, estou denominando grupo de orientação.
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Essa conversa aconteceu no dia 08 de março de 2007. 89
diferenciadas para o encaminhamento pedagógico das instituições municipais de ensino e foi implementado a partir de 1995 nas escolas dessa rede, representando uma
expressão da reordenação da própria instituição escolar, em termos da (re)organização dos tempos e dos espaços escolares, de novas relações com o conhecimento, de novas concepções e práticas avaliativas, de construção de identidades profissionais correlatas às novas funções exercidas pela escola. (CASTRO, 2000, p.10)
A Escola Plural provocou mudanças na estrutura das instituições escolares no nível fundamental de ensino e abriu espaço para a implementação do Projeto de Educação de Jovens e Adultos - EJA. Em novembro de 2000, a Secretaria Municipal de Educação encaminhou ao Conselho Municipal de Educação a solicitação de regulamentação da Educação de Jovens e Adultos nas escolas municipais de Belo Horizonte (SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO - BH, 2002). Desde então, as escolas municipais iniciaram a construção coletiva da proposta pedagógica do Projeto de EJA.
Na escola em que foi realizada a investigação, o trabalho de construção coletiva para a proposta pedagógica do Projeto de EJA é um processo contínuo e conta com o amparo da equipe de professores desse nível de ensino, da direção e demais funcionários da escola. Essa experiência com a educação de jovens e adultos vem sendo acumulada desde o início do processo de implementação dessa modalidade de ensino pela prefeitura de Belo Horizonte em 2000, culminando em uma rotina escolar diferente daquela com a qual professores e alunos estão acostumados.
As aulas regulares acontecem de segunda a quinta-feira, no período de 19h às 22h20. Nesses mesmos dias, entre 18h e 19h, os professores se reúnem para planejar o desenvolvimento de projetos ou palestras para os alunos. Na sexta-feira, professores e diretores fazem uma reunião geral que se inicia às 18h e finaliza às 22h20.
Pela leitura do projeto pedagógico que a escola possui para a EJA, que foi aprovado pela Prefeitura de Belo Horizonte em 2004, percebe-se que não somente uma integração entre a equipe de professores é uma das principais preocupações do grupo, mas também uma maior diversidade de atividades a serem desenvolvidas com os alunos. Tais preocupações podem ser evidenciadas no seguinte trecho do projeto:
Organizamos o trabalho na perspectiva da diversidade de linguagens e temos avançado em projetos interdisciplinares com momentos coletivos, nos quais todos os professores envolvem-se na mesma atividade, em duplas, trios ou
separadamente, conforme o movimento que tais professores conseguem estabelecer. Nesse momento praticamos um dos pontos fundamentais que orientam nossa proposta pedagógica que é a flexibilidade na organização das turmas (SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO - BH, 2004, p. 06).
Na primeira visita à escola para conversar com o professor João, deparei-me, primeiramente, com a sua postura receptiva e aberta e, em seguida, com a flexibilização da organização curricular frente à Proposta Pedagógica da escola, mencionada na citação anterior e legitimada por uma regulamentação municipal. Já na primeira conversa com esse professor, percebi que estava diante de um profissional que buscava não somente abrir as portas de suas turmas para uma pesquisadora, mas também novos conhecimentos que pudessem ser utilizados em suas aulas de Matemática.
Tendo concluído sua formação em Matemática no ano de 1990, João começou a lecionar em escolas de Belo Horizonte, em 1991. Seu trabalho na escola em que foram realizadas as observações iniciou-se em 2000, paralelamente à implementação do projeto de EJA.
Segundo o professor, ainda falta incentivo aos alunos desse nível de ensino, o que ocasiona tanto um certo esvaziamento das salas de aula ao longo do ano letivo quanto uma alta rotatividade de alunos em cada uma dessas salas.
As informações anteriores configuram o contexto em que se inserem os ambientes observados. Isso posto, acredito ser pertinente um retorno ao objeto desta investigação: a busca por conexões entre Etnomatemática e Educação Matemática Crítica. Nos capítulos 2, 3 e 4, tal busca se efetivou a partir do estudo teórico dessas perspectivas e, neste, pretendo detectar e descrever situações de aulas de Matemática que revelem possibilidades de concretização de tais conexões.
Com os olhos voltados para esse objeto de pesquisa, as observações de aula foram encaminhadas e, para relatar como aconteceram essas observações, passo à caracterização dos ambientes escolhidos para serem observados.