No capítulo 3 deste trabalho, foi mencionado o modo como Vygotsky (1989: 109) concebe as relações entre o pensamento e a palavra. Para ele, a estrutura da fala não é um
mero reflexo do pensamento; este passa por muitas transformações até se expressar como fala exteriorizada, tanto no percurso do desenvolvimento, quanto no processo vivo da mente que pensa. Na mente madura, a relação entre o pensamento e a palavra se processa em um movimento de vai-e-vem, que pode ser compreendido como um desenvolvimento funcional orientado para a solução de um problema.
No percurso do pensamento até a palavra exteriorizada, Vygotsky assinala que, embora formem uma unidade complexa, as dimensões interior (plano semântico-significativo) e exterior (plano fonético-formal) da fala têm cada uma suas próprias leis de funcionamento. Para o autor, “a relação entre o pensamento e palavra não pode ser compreendida em toda a sua complexidade sem uma clara compreensão da natureza psicológica da fala interior” (1989: 112).
No capítulo Pensamento e palavra, Vygotsky apresenta as conclusões de suas investigações a respeito do fenômeno da fala interior, situando-a para além do plano semântico. O autor afirma que o fenômeno da fala interior não pode ser reduzido à memória verbal ou à fala exterior truncada ou ainda à fala subvocal, nem definida como “tudo o que antecede o ato motor de falar, inclusive os motivos da fala”. Argumentando que as concepções já propostas são ou excessivamente limitadas ou por demais amplas, considera que, embora a memória e o “pronunciar silencioso” de palavras façam parte da fala interior, não correspondem à natureza total desse fenômeno. Por outro lado, rejeita as definições muito amplas, como a apresentada acima, por considerar que não se trataria “de forma alguma de fala, mas antes de uma atividade intelectual afetivo-volitiva, uma vez que inclui os motivos da fala e o pensamento expresso em palavras” (VYGOTSKY, 1989: 113).
Definindo a fala interior como fala para si mesmo, e a fala exterior como fala para os outros, afirma que essa diferença funcional afeta a estrutura dos dois tipos de fala e acrescenta que a primeira não é o antecedente da segunda, nem a sua reprodução na memória, mas, em certo sentido, o contrário da fala exterior. “Esta última consiste na tradução do pensamento em palavras, na sua materialização e objetificação. Com a fala interior, inverte-se o processo: a fala interioriza-se em pensamento” (VYGOTSKY, 1989: 113).
Na perspectiva de Vygotsky, a fala egocêntrica da criança precede a fala interior como um fenômeno de transição das funções interpsíquicas para as intrapsíquicas: a fala interior desenvolve-se a partir da fala egocêntrica e a substitui quando a criança atinge um nível de individualização e abstração que lhe permite interiorizar a palavra, tornando-se capaz de pensar as palavras ao invés de pronunciá-las. Segundo o autor, comparada à fala exterior, a
fala interior se caracteriza por uma sintaxe especial, aparentemente desconexa e incompleta (1989:119). Nela se observa a tendência à abreviação, à condensação e ao que o autor denomina de “influxo de sentido” (VYGOTSKY, 1989: 128).
A abreviação consiste em reduzir o enunciado a seu elemento essencial, no caso, ao predicado, omitindo o sujeito, uma vez que o indivíduo sabe qual é o tópico ou objeto de seu pensamento. Em outra passagem, para mostrar que nem sempre o plano semântico e o formal coincidem na fala exterior, Vygotsky discute a diferença entre o que denomina sujeito e predicado psicológicos e sujeito e predicado formais. Afirmando que “qualquer parte de uma frase pode tornar-se o predicado psicológico, a parte que carrega a ênfase temática”, Vygotsky (1989: 109-110), em outros termos, parece referir-se ao que a lingüística textual (Halliday apud KOCH, 1993:22) identifica, no plano temático, como tema (ou tópico) e rema (ou comentário) e, no plano informacional, como dado e novo. A possibilidade de aproximação parece confirmar-se pela explicação apresentada por Koch, ao se referir ao trabalho de Halliday:
Duas estruturas fornecem ao falante a possibilidade de construção do texto; a temática e a
informacional. Numa, desempenham papel principal o tema e o rema; na outra, o dado e o novo.
Tanto uma como outra têm natureza claramente enunciativa e discursiva, já que permitem evidenciar as intenções do falante e constituir seqüências de sentido preciso e adequado às necessidades de comunicação.
KOCH, 1993: p. 22
No domínio da frase, o tema ou tópico corresponde ao elemento conhecido; o rema ou comentário, à informação nova, ao que se diz sobre o tema. Nem sempre o tópico e o comentário de uma frase correspondem ao sujeito e ao predicado formais. Portanto, interpretando o pensamento do autor, na fala interior, os enunciados tenderiam a limitar-se aos comentários. Nas situações de interação oral face-a-face, quando os interlocutores compartilham o contexto, a situação comunicativa e têm intimidade um com o outro e com o objeto do discurso, esses mesmos traços tendem a se manifestar. A situação comunicativa compartilhada permite que se reduzam as frases a seus elementos mínimos, pois o sentido é facilmente completado pelos interlocutores e, diante de qualquer dificuldade de interpretação, o informante está ali mesmo, ao alcance da voz.
Outra característica da fala interior seria a tendência à aglutinação ou condensação, explicável pela proximidade desse plano de fala com o pensamento, que tende para a totalidade e para a prevalência do sentido sobre o significado. Abreviação e aglutinação seriam traços derivados da situação de proximidade máxima entre os interlocutores do diálogo: um eu que fala consigo mesmo.
A terceira peculiaridade, designada como “influxo de sentido”, é assim caracterizada por Vygotsky:
Os sentidos de diferentes palavras fluem um dentro do outro — literalmente “influenciam-se” —, de modo que os primeiros estão contidos nos últimos, e os modificam. Assim, uma palavra que aparece muitas vezes num livro ou num poema às vezes absorve todas as variedades de sentido nela contidas, tornando-se, de certa forma, equivalente à própria obra. O título de uma obra literária exprime o seu conteúdo e completa o seu sentido, num grau muito superior do que o nome de uma pintura ou de uma peça musical. Títulos como Dom Quixote, Hamlet e Ana Karenina ilustram isso muito bem: todo o sentido de uma obra está contido em um nome.
VYGOTSKY, 1989: 126.
É digno de nota que o autor busque exemplos na literatura, ou seja, em gêneros escritos secundários, para explicitar o que chama de “influxo de sentido”. Se nossa interpretação estiver correta, esse fenômeno não se manifestaria na fala oral exteriorizada, nem mesmo em situações de extrema intimidade entre os interlocutores, pelo fato de que as palavras ditas não permanecem na memória do ouvinte por muito tempo. Não há, como no texto escrito, uma materialidade visível, uma inteireza e acabamento no enunciado, que permita a ocorrência do fenômeno do influxo do sentido, pelo menos em igual grau e extensão. Para o que interessa neste capítulo, essa suposição é importante porque permitiria que certos traços dos textos escritos fossem interpretados como uma transposição direta da fala interior, o plano mais interiorizado da linguagem, para a escrita em gêneros secundários, dimensão de máxima exteriorização. Considero que certas ocorrências da escrita poderiam ser mais bem compreendidas como uma espécie de transbordamento do eixo paradgmático (dimensão semântica, que tende para a totalidade e condensação) sobre o sintagmático (dimensão formal, que tende para a separação, a distinção e a hierarquização de elementos discretos).
Segundo Vygotsky, a aquisição da escrita coincide com a fase de desenvolvimento (seis, sete anos) em que a fala egocêntrica entra em declínio e desaparece, transformando-se em fala interior, considerada culminância de um processo de desenvolvimento em direção à interiorização e à abstração. Se a fala interior é produto de uma evolução no sentido da interiorização e da abstração, a fala exterior escrita poderia ser considerada como produto de uma evolução no sentido da exteriorização e de maior abstração. Nessa perspectiva, quanto mais acesso consciente o sujeito tiver à sua fala interior, maior será sua capacidade de negociar sentidos na conversa consigo mesmo e, portanto, maior a sua possibilidade de reflexão metalingüística e proficiência escrita.