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Os dados primários foram submetidos a análise de interação territorial (FIG. 1) complementada por análise lingüística de discurso (Faria; Linhares, 1993; Fiorin, 1995, 2003; Maingueneau, 1997; Minayo, 2000; Orlandi, 2000; Carrieri, 2001; Brandão, 2002; Faria, 2002), com foco nos discursos sobre territorialidade agrupados pelas perspectivas dos indivíduos.

Pela análise territorial, complementada pela análise lingüística de discurso, teve-se como objetivo compreender criticamente o sentido das comunicações (entrevistas), seu conteúdo manifesto ou latente, as significações explícitas ou ocultas, as condições de produção. Também deu-se ênfase nos aspectos valorizados pelos entrevistados e na presença de recorrências, intensidade e freqüência de alguns temas.

O trabalho como um todo foi alicerçado no estudo das relações territoriais entre os membros da adquirente e da adquirida, que emergiram no momento em que aquela propôs mudanças nos papéis e nas práticas da adquirida. Nesse sentido, foram trabalhadas as percepções e reações dos indivíduos - das duas empresas - às mudanças propostas pela adquirente. Essas percepções e reações como objeto de análise foram capturadas pelo conteúdo das entrevistas gravadas e transcritas na íntegra.

Com a análise, sintetiza-se a dinâmica da territorialidade segundo a literatura, para depois traduzi-la e extraí-la dos discursos sobre territorialidade detectados nas práticas sociais presentes nas atividades integrativas das empresas. Assim, a exposição espelha as múltiplas

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perspectivas das relações territoriais no interior das quais se alocam discursos de territorialidade, desdobrados em categorias temáticas recortadas na intersecção da base teórica com as vivências individuais reclusas no teor das entrevistas. O recorte que constitui o corpus limita-se a analisar personagens, discursos e temas (extraídos das entrevistas), segundo qualidades, características e diversidades suficientes para mapear as empresas sem, contudo, exaurir discursos e temas em sua complexidade, riqueza, amplitude e profundidade, já que a pesquisa qualitativa se preocupa mais em detectar qualidades presentes nas organizações do que em conferir-lhes significância estatística. A análise orientou-se pela congruência entre a base teórica e a base empírica e pela adequação aos objetivos de pesquisa. A eleição dos discursos sobre territorialidade foi alinhada aos objetivos de pesquisa e à estrutura das entrevistas.

A inserção da técnica de análise lingüística de discurso em estudos organizacionais é recomenda por vários autores, entre eles, Boje (1995), Watson (1995), Holmer-Narsden (1996), Barry e Elmes (1997), Jones (1998) e Reed (1998) e que foi aplicada com sucesso no meio acadêmico brasileiro por Carrieri (2001). Esse múltiplo testemunho reforça a pertinência da "utilização de procedimentos de análise de discurso, advindos da lingüística, na produção de conhecimento" (Faria; Linhares, 1993), em outras áreas, incluindo a administração, especialmente no caso de abordagens interdisciplinares. Essa ferramenta permite explorar a riqueza do discurso subjacente ao teor das entrevistas "como jogo estratégico de ação e reação, de pergunta e resposta, de dominação e de esquiva e também como luta" (Foucault, 1994, p. 6) lembrando que, em qualquer circunstância, a "vida social torna-se uma luta por prestígio e status, ou melhor, ela se torna um signo dessa luta" (LECHTE, 2002, p. 142). Os elementos territoriais presentes na complexidade das relações também endossam o aproveitamento da análise de discurso e a aproximam da análise territorial, pela sua natureza

dependências, como também, as “revistas de segurança” dos veículos que saíam das usinas.

estrutural. Assim, a "lingüística é importante para pensar o problema das relações e posições em função das quais surge o sentido..." (Godino-Cabas, 1982, p. 71), já que todo sentido é sempre relacional.

O processo de junção das empresas enseja relações territoriais complexas que, pela sua natureza, implicam a presença do outro. Nesse sentido, é pertinente notar que o "centro da relação não está [...] nem no eu nem no tu, mas no espaço discursivo criado entre ambos. O sujeito só se completa na interação com o outro" (BRANDÃO, 2002, p. 46). Reforça a autora que, no "processo da enunciação, ao instituir-se um eu, institui-se necessariamente um tu" (p. 47). No âmbito da territorialidade, a interação é estruturada-se por um indivíduo em relação com o outro, com a mediação de um território, de tal forma que o centro da relação não está, nem no indivíduo nem no outro, mas na relação territorial como espaço interativo. Nesse espaço, o indivíduo só se constitui, se identifica e se completa na interação com o outro e com a mediação dos interesses de ambos em relação a um mesmo território. Logo, também no processo territorial, aos instituir-se o eu (indivíduo) institui-se necessariamente um tu (outro).

Se, de acordo com a mesma autora, para a análise de discurso, o sujeito vai perdendo a polaridade centrada, ora no eu e ora no tu, ao mesmo tempo em que se enriquece com uma relação dinâmica entre identidade (eu) e o outro (tu), na territorialidade essa mesma dinâmica, além do indivíduo e do outro, inclui o território, como mediador da relação. A construção da identidade ocorre na relação territorial, cujo palco privilegiado é o território que, além de ser elemento central na estrutura da interação, é também o referente que centraliza os interesses de ambos; com isso, ele enseja e caracteriza a natureza tipicamente territorial contida na relação identidade (eu) versus outro (tu). Ainda, se na análise de discurso a identidade é construída na interação com o outro e o espaço dessa interação é o texto, na territorialidade a identidade também é construída na interação com o outro, sendo o espaço privilegiado dessa interação uma relação de disputa, simultaneamente, por e sobre um território.

O que permite aproximar a análise territorial da análise de discurso é o fato de ambas estarem construídas sobre um espaço de relações. Logo, a utilização instrumental e complementar dessas duas abordagens é apropriada, já que uma

estrutura é um plano, segundo o qual um dado objeto é construído, e que esse plano é revelado pela análise interna da totalidade, quando então se mostram os elementos que o compõem, as relações entre eles e a disposição dessas relações. Assim, [a] estrutura diz respeito a quaisquer objetos do mundo natural ou social (FIORIN, 1995, p. 80).

Segundo o mesmo autor, a noção de estrutura remete à idéia de conjunto, de sistema formado de fenômenos interligados, de tal forma que "cada um depende dos outros e só pode ser o que ele é e por sua relação com eles" (p. 80), sabendo que "objetos e indivíduos estão internamente ligados quando suas identidades dependem da condição de estarem em relação com os demais componentes da estrutura" (SAYER, 1984). A lógica da presença do “outro”, fundamental na constituição da relação territorial, é imanente à estrutura social e uma estrutura é sempre o relacionamento entre "outros" (COOPER, 1983, p. 202). Esclarece o autor que o

outro é uma estrutura – não simplesmente outra pessoa ou coisa – que caracteriza a organização social. A essência da estrutura ou organização está no fato de que dois elementos são mediados por um terceiro e que a relação entre os três é caracterizada por um processo que se alterna entre divisão e combinação (p. 213).

Nessa perspectiva,

o social é o processo de distinção ou mediação que ocorre entre dois indivíduos, sendo a natureza desse processo expressa como a combinação de duas partes num todo e a divisão do todo em duas partes menores. Isso define um modelo paradoxal de mediação segundo o qual a unidade ou totalidade somente pode emergir por meio da divisão ou diferença (p. 213, grifos do autor).

Na transposição dessas idéias para o presente estudo sobre territorialidade, pressupõe- se como estrutura a atribuição de uma inteligibilidade ao objeto (comportamento territorial)

decorrente de um corte que permite identificar nele um conjunto nuclear de relações constituintes e identificatórias (com princípio, meio e fim) evidentes na organização interna dos seus elementos essenciais. Sendo pelo menos dois os indivíduos, a linguagem é o elemento fundamental que tanto os constitui como sujeitos como também organiza o vínculo entre ambos. A linguagem, como portadora da comunicação, possibilita o vínculo entre os indivíduos e deles com o território, ao mesmo tempo em que define a posição de cada um em relação a esse mesmo território. Nesse sentido, a estrutura da interação territorial se constitui no momento em que um indivíduo declara a sua posição e estabelece uma relação dirigida simultaneamente a seu oponente e a um território disputado por ambos. Ao declarar o seu lugar social perante o outro, o indivíduo estabelece a comunicação sujeita a toda a sorte de emissões, ruídos, falhas, recepções e confusões, patrocinadas por instâncias não conscientes das pessoas, já que

tudo acontece dentro da dimensão do diálogo. E nela, quem escuta determina a quem falou. Se alguém pensava estar dizendo uma coisa e suas palavras manifestaram outra, ficará sabendo o que foi que realmente disse, a partir de como suas palavras lhe são devolvidas (CESAROTTO; LEITE, 1984, p. 48).

Muitas situações de desconforto entre entrevistados das duas empresas, e que foram produzidas pelo "uso da palavra", somente assumiram a sua verdadeira natureza territorial quando os elementos subjacentes à superfície das entrevistas foram revelados pela técnica da análise lingüística do discurso. Numa visão lacaniana o mundo humano seria o mundo da linguagem. Daí a importância do estudo lingüístico da palavra para este trabalho, considerando que lingüistas e psicanalistas convergem no entendimento de que a escolha lexical como "produção psíquica é sobredeterminada" e como "palavra é endereçada ao outro" (CESAROTTO; LEITE, 1984, p. 75). Segundo os autores, o “desencontro” instaura a territorialidade porque "quem fala nem sempre sabe o que diz, ou quando diz o que quer dizer, não sabe o que está falando" (p. 75). Nesse sentido, entendem que os efeitos (neste estudo, o

desconforto entre entrevistados das duas empresas, produzido por palavras) sempre contém causas e que, por menos evidentes que sejam, é tarefa da análise (lingüística) mostrá-las em ação na produção de relações territoriais no processo de (des)integração. A força inarredável da interatividade imanente das palavras é importante na medida em que este estudo se apóia essencialmente na percepção dos indivíduos extraída das entrevistas, ou seja, das palavras que contam a história subjetiva contextualizada pela dinâmica estrutural do processo de aquisição. Nessa moldura, a palavra proferida nunca é um ato isolado, mas um fato social inevitavelmente marcado pela presença do outro constituído no discurso. Assim, essa

orientação da palavra em função do interlocutor tem uma importância muito grande. Na realidade, toda palavra comporta duas faces. Ela é determinada tanto pelo fato de que procede de alguém, como pelo fato de que se dirigia para alguém. Ela constitui justamente o produto da interação do locutor e do ouvinte. Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade. A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apóia sobre mim numa extremidade, na outra apóia-se sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor (BAKHTIN, 1992, p. 113, grifos do autor).

Para operacionalizar a análise lingüística de discurso na busca dos significados latentes nas entrevistas, serão adotadas as estratégias de persuasão já trabalhadas por Faria e Linhares (1993); Carrieri (2001) e Faria (2002), com destaque para: (a) a seleção lexical (vocabulário) dos entrevistados; (b) o conteúdo semântico das afirmações explícitas e implícitas; (c) a construção de personagens discursivas; e, (d) o silenciamento (o que não é dito, omitido). Também serão exploradas as oposições, ambigüidades, o distanciamento, a formação discursiva e outras figuras de produção de sentido (Faria; Linhares, 1993; Fiorin, 1995, 2003; Maingueneau, 1997; Minayo, 2000; Orlandi, 2000; Carrieri, 2001; Brandão, 2002; Faria, 2002). Na análise, os fragmentos discursivos serão identificados e referenciados por um

número seqüencialTP 9

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anotado no início da transcrição, além da menção ao número e parte da entrevista de origem, ao final da citaçãoTP

10 PT . TP 9 PT