De início, uma pré-análise quantitativa foi aplicada ao universo dos 698 artigos apresentados nos GTs das cinco edições do ENANCIB estudadas. Por meio de recursos de busca automática, foram identificados os artigos com ocorrências dos termos interdisciplinaridade e transdisciplinaridade e derivados, envolvendo substantivos, adjetivos (singular e plural) e advérbios — caso mais raro.
Na fase de levantamento de dados, por uma questão de completude, foi averiguada também a presença de variantes em língua portuguesa, contemplando aquelas percebidas como mais importantes, tais como interdisciplinariedade
(decorrente de influência do vocábulo em espanhol), e os casos de grafias anômalas identificados em processo, tais como interdiciplinaridade e transdiciplinaridade. Ademais, foram verificados termos em três línguas estrangeiras: inglês, francês e espanhol, que se apresentaram em quantidades pouco expressivas.
Os dados sobre os artigos identificados foram organizados em planilhas eletrônicas, por edição e por GT do ENANCIB, discriminando detalhadamente o número de termo em cada campo de ocorrência: título, resumo/abstract, palavras- chave, corpo do texto, referências. Com base nessas planilhas, foram realizadas as diversas análises quantitativas apresentadas no capítulo 5 da tese.
Essas análises quantitativas tomaram por base as frequências de ocorrência dos termos INTER e TRANS nos artigos identificados. Os levantamentos foram grandemente facilitados pela disponibilidade em formato digital, o que possibilitou tanto produzir descrições panorâmicas quanto identificar em quais textos nossos temas de investigação foram abordados com maior intensidade. Essa identificação foi realizada a partir da seguinte consideração: no gênero textual artigo
científico, utiliza-se, em geral, a linguagem denotativa. Nesse caso, a discussão de
determinado assunto implica a presença explícita de termos que o denominam e que a ele se referem — envolvendo tipicamente os substantivos e, por vezes, também adjetivos e advérbios. Assim sendo, é razoável considerar que um esforço de aprofundamento ou alargamento da discussão implique um uso reiterado — e, portanto, mais frequente — desses termos. Tal efeito foi mensurado por meio da frequência de ocorrência. Desse modo, por exemplo, frente a dois artigos de 15 páginas cada, se um deles apresentar 20 ocorrências de termos referentes a um tema, enquanto o outro apresenta 3 ocorrências, consideramos a maior frequência do primeiro artigo como indicador da maior chance de ele apresentar uma abordagem mais intensa desse tema do que o segundo.
Tal raciocínio está na base da proposta de usar a frequência de ocorrência dos termos interdisciplinaridade, transdisciplinaridade e derivados como indicador quantitativo na mensuração do potencial de os artigos do ENANCIB apresentarem abordagens significativas desses temas. O número de ocorrências de cada um desses conjuntos de termos serviu de critério quantitativo para balizar o grau de expectativa dirigido ao conteúdo dos artigos. Ao lidarmos com um universo de algumas centenas de artigos, esse expediente mostrou-se importante para
aumentar a eficácia do esforço de compreensão qualitativa do contexto formado pela produção e pela atuação dos pesquisadores ligados aos temas de nosso interesse.
Um primeiro levantamento levou a eliminar 383 do total de 689 artigos, por não apresentarem nenhuma ocorrência dos termos ligados ao tema de investigação. Assim, o corpus empírico ficou constituído pelos 306 artigos que apresentaram ocorrências dos termos INTER e/ou TRANS, com frequências diversas. A fim de evitar um detalhamento excessivo e potencialmente inócuo da apresentação dos dados, na análise quantitativa desse corpus, optamos por caracterizar as ocorrências por meio de faixas de frequência. Assim, para cada conjunto de termos, os dados sobre os artigos foram agrupados da seguinte forma, para fins de análise e apresentação: faixa 1-5: de 1 a 5 ocorrências; faixa 6-10: de 6 a 10 ocorrências; faixa 10+: acima de 10 ocorrências.
As faixas de frequência constituíram um recurso metodológico eficaz na organização do corpus empírico, possibilitando o agrupamento de artigos cujas intensidades de abordagem dos temas em investigação eram supostamente próximas. Desse modo, consideramos que os artigos classificados na faixa 1-5 contêm apenas alusões passageiras ou abordagens superficiais referentes aos temas, enquanto os artigos da faixa 6-10 podem trazer alguma abordagem de consistência mediana. Assim, foi nos artigos da faixa 10+ que depositamos maiores expectativas. A opção de não estabelecer um limite superior de frequência para essa faixa deveu-se à verificação de que o número de ocorrências variava muito nela. Além disso, a opção de não subestratificar essa faixa — 11-15, 16-20 etc. — obedeceu, por um lado, à intenção de manter a abordagem quantitativa tão simples quanto possível e, por outro lado, à percepção de não existir um número de artigos grande o bastante, nessa faixa, para justificar a complicação adicional que essa operação implicaria.
Outra estratégia quantitativa usada foi a análise de citações, que propiciou uma visão dos autores mais citados e das obras mais referenciadas em meio aos artigos da faixa 10+. O procedimento foi realizado para o grupo completo dos artigos INTER 10+, para o grupo INTER 10+ da área de História e Epistemologia e, dentro deste, para os artigos TRANS 10+.
Do ponto de vista metodológico, é importante discutir a relação entre a abordagem dos artigos com base nas faixas de frequência e o critério
tradicionalmente usado na recuperação de referências indexadas: ocorrência dos termos de busca nos campos título, descritores (palavras-chave) e resumo. Essas considerações são importantes para mostrar que o critério baseado nas faixas de frequência não entra em conflito com o procedimento de seleção mais usual. Pelo contrário, além de apresentar elevada compatibilidade com esse procedimento, nosso método oferece pistas adicionais valiosas para caracterizar a abordagem do tema em investigação num âmbito bem delimitado, tal como o ENANCIB.
Na TAB. 3, registra-se o número de artigos com ocorrências de termos INTER — em eventual coocorrência com termos TRANS —, por faixa de frequência e conjunto de campos, nesta sequência: 1) corpo de texto (CT) e/ou referências (Ref); 2) resumo (Res); 3) e 4) descritores (D) — palavras-chave —, isoladamente ou em conjunto com resumo; 5), 6) e 7) título (T), isoladamente ou em conjunto com resumo e/ou descritores. Atemo-nos aqui aos 293 artigos (dentre os 306 selecionados) com ocorrências de termos INTER. Os campos estão ordenados do mais genérico para o mais específico, em relação ao tratamento do assunto indicado pelo termo presente: corpo de texto/referências, resumo, descritores, título. Os itens de 2 a 7 referem-se aos campos usados na indexação dos artigos em bases de dados, aqui denominados campos referenciais. São também apresentados, por faixa de frequência, os percentuais de artigos com ocorrências em cada conjunto de campos. Em caso de concomitância, os percentuais foram agrupados segundo o campo de maior importância.
TABELA 3
Artigos do ENANCIB com ocorrências de termos INTER, por campo e faixa de frequência — período 2003-2008
Faixa 1-5 Faixa 6-10 Faixa 10+
Campo
Artigos % Artigos % Artigos %
1) CT Ref 222 93,3 15 55,6 6 21,4 2) Res 16 6,7 8 29,6 6 21,4 3) D — 1 1 4) D Res — — — 3,7 3 14,3 5) T — 1 1 6) T Res — 2 2 7) T D Res — — — 11,1 9 42,9 Totais 238 100,0 27 100,0 28 100,0
Na faixa 1-5, 93,3% dos artigos apresentam ocorrências no corpo do texto e/ou nas referências e 6,7% deles apresentam-nas no único campo referencial presente na faixa: o resumo. Na faixa 6-10, fica em 55,6% o percentual dos artigos que apresentam ocorrências no corpo do texto e/ou nas referências. Quanto aos campos referenciais, o resumo é alcançado em 29,6% dos artigos; os descritores (palavras-chave), em 3,7% deles; e o título, em 11,1% do total. Na faixa 10+, apenas 21,4% apresentam ocorrências no corpo do texto e/ou nas referências. Quanto aos campos referenciais, o resumo é alcançado por 21,4% dos artigos da faixa; os descritores, por 14,3%; e o título, por 42,9% deles.
Assim, na passagem da faixa 1-5 para a 6-10 e para a 10+, nota-se uma gradação da presença dos termos INTER nos campos referenciais. Isso mostra a expressiva correlação entre os dois critérios, contribuindo para validar o uso da frequência de ocorrência como indicador quantitativo e para mostrar que, de modo geral, tem sentido a expectativa de mudança no aprofundamento da abordagem de um tema, na medida em que se passa de uma faixa para outra.
Devido à convergência verificada entre os dois critérios e ao potencial da seleção por faixas de frequência como guia heurístico para nossa investigação, optamos por utilizar esse método na apresentação dos dados e, apenas quando necessário, trabalhar com um maior grau de detalhamento. Isso possibilitou reduzir a um volume viável o trabalho de análise, garantindo uma conexão significativa entre os aspectos quantitativos (frequência de ocorrência) e qualitativos (intensidade de abordagem) pesquisados no corpus empírico e possibilitando, dessa forma, uma identificação consistente dos artigos cujos conteúdos são mais valiosos para a compreensão dos caminhos trilhados pelas discussões sobre interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, no contexto do ENANCIB.