A literatura apresenta trabalhos voltados à avaliação de cursos à distância, evidentemente em relação à preocupação de substituição do modelo tradicional de ensino presencial por um modelo remoto. Observa-se como válidas as iniciativas voltadas para avaliação à distância, no entanto, é essencial que a avaliação de cursos seja efetivamente aplicada também nos cursos presenciais. As políticas públicas de inclusão permitem a expansão do ensino superior no Brasil, porém, uma promoção de um ensino baseado em quantidade tem preterido a qualidade causando um impacto negativo e inevitável a curto e médio prazo. É essencial que essa expansão esteja apoiada por mecanismos de diagnóstico, acompanhamento e controle.
O trabalho de Jacob (2003) é voltado para a avaliação da qualidade das instituições de ensino superior. O modelo de avaliação proposto é desenvolvido com base nos indicadores de qualidade de processo e resultado. A autora desenvolve uma pesquisa descritiva através de uma coleta de dados por questionário e análise sistemática. Os indicadores propostos pela autora refletem diretamente a qualidade do ensino superior após a aplicação em uma IES. Os resultados apresentam a validade de implementação de modelos sistêmicos de diagnóstico com base em indicadores para uma IES. A autora faz uma observação ao final sobre a possibilidade do modelo entrar em conflito com as representações subjetivas e divergentes dos atores institucionais. A seguir, são apresentados trabalhos na área educacional com utilização da lógica difusa com foco na subjetividade própria do campo educacional.
4.1.1 Aplicações da lógica difusa no contexto educacional
A dificuldade em tornar os resultados cada vez mais precisos em um mundo com mudanças substancialmente rápidas capazes de influenciar as decisões gera um cenário com elevado grau de incerteza. A literatura aponta a utilização da lógica difusa para redução da incerteza no processo decisório em ambientes com informações imprecisas e subjetivas. A lógica difusa é aplicada em diferentes campos do conhecimento e geralmente em problemas que têm a vaguidade como característica.
A lógica difusa é aplicada também em ambientes educacionais. O ambiente educacional é naturalmente subjetivo. Existem diversas metodologias que tentam aperfeiçoar os processos de avaliações de discentes, docentes e candidatos para que se tornem mais fiéis à realidade e não prejudiquem o avaliado.
Fourali (1997) realiza um trabalho de avaliação de competência na educação profissional utilizando a lógica difusa como ferramenta para controlar a subjetividade e reduzir a imprecisão dos avaliadores no processo decisório. O autor utiliza o Conselho Nacional de Educação Profissional (CNEP) como base para aplicação do seu trabalho. Esse órgão governamental é responsável por gerenciar e regulamentar a educação profissional na Inglaterra. O processo consiste em avaliar a competência dos indivíduos em relação a determinado campo e promover ações de capacitação voltadas para as possíveis áreas em deficiência. O autor caracteriza a educação como um campo no qual a avaliação de discentes ou de candidatos deve ocorrer suave e progressivamente, identificando o conceito da lógica difusa de escala de intensidade e grau de pertinência como adequado para tratar tal aspecto. Uma importante contribuição do autor é a utilização de técnicas de probabilidade, como Normalização - Escore Padronizado4e Desvio Padrão5 juntamente com a lógica difusa para enriquecer a precisão dos resultados, contudo, o autor esclarece que não é possível resolver problemas dotados de vaguidade puramente com a probabilidade. Os resultados apontam a importância da lógica difusa em ambientes educacionais por permitir aos educadores e avaliadores expressarem suas opiniões de uma forma mais flexível. A lógica difusa possibilitou aos avaliadores do CNEP tomarem decisões mais válidas e confiáveis e ainda a criação de políticas com base nos resultados.
A contribuição da lógica difusa estende-se para as ciências sociais, pois conforme Fourali, esse método é mais sensível ao significado, à semântica e à intensidade de efeitos observados em sistemas complexos. O uso de técnicas de probabilidade para análise de indicadores educacionais é também utilizado pela Times Higher Education, que é uma instituição que promove pesquisas mundiais sobre a qualidade das universidades baseando-se em indicadores. No último ranking feito por essa instituição para o ano de 2014 somente a USP apareceu entre as 100 primeiras colocadas da América Latina. Para a Times Higher
Education, um indicador é um número pouco significativo quando analisado isoladamente.
4Escore Padronizado: Calculado a partir de um valor bruto. Permite conhecer comparação da posição relativa da
medida de um indivíduo dentro do grupo ao qual pertence.
5Desvio padrão: Mostra o quanto existe de variação ou dispersão de um valor em relação a média de um
Somente após entender a referência de um indicador perante seus pares é possível extrair alguma informação e conhecimento (THOMSON REUTERS, 2014).
Toledo e Consenza (2004) desenvolveram uma metodologia para avaliação de cursos entre instituições de ensino. Para os autores, a avaliação qualitativa de cursos necessita de uma linguagem mais “natural” e a lógica difusa através do raciocínio aproximado é importante para o ambiente acadêmico por possibilitar o gerenciamento de informações imprecisas e subjetivas. A avaliação dos autores justifica-se pela necessidade das Instituições avaliarem se estão atingindo as metas e retornando a população um serviço de qualidade. Os autores propõem que sejam realizadas entrevistas considerando fatores internos e externos (discentes, docentes, mercado, MEC) com o propósito de identificar os potenciais indicadores para avaliação das instituições. Nessa proposta, cada entrevistado identificaria a relevância do indicador em uma escala de 0 a 1 para avaliação da sua instituição. Ao final da aplicação dos questionários, a montagem dos indicadores foi feita com base na lógica difusa. O estudo contribui para o campo de conhecimento na tomada de decisão propondo uma metodologia de apoio que permita manipular informações qualitativas e imprecisas.
Semerci (2004) realiza um estudo para definir a importância da lógica difusa na avaliação de discentes. O autor realiza um comparativo entre o modelo tradicional de avaliação e a o modelo que utiliza lógica difusa. Através da extração do conhecimento dos especialistas (docentes) com relação aos modelos de apuração de resultados, as regras de inferência da lógica difusa são criadas. O autor ainda relata alguns pontos negativos na utilização da lógica difusa, como necessidade dos especialistas para obtenção do conhecimento e tempo elevado para definição de funções de pertinência, pois estas precisam ser ajustadas a realidade e gradativamente aperfeiçoadas. Foram analisadas as notas de dois grupos de alunos entre 2001 e 2002, um grupo com análise tradicional e outro com lógica difusa. Os resultados mostraram que o modelo difuso aproxima mais as notas finais dos alunos de um modelo mais “justo” e compatível com a realidade. O autor conclui que em ambientes educacionais a aplicação de métodos baseados em lógica difusa é ideal porque geralmente são ambientes caracterizados pela incerteza e subjetividade.
Ahmad e Asri (2013) desenvolveram um trabalho utilizando lógica difusa para avaliar o desempenho dos alunos em um semestre e inferir seu desempenho no próximo com base nos resultados. A proposta baseou-se em um método que permitia aos alunos avaliarem seu possível desempenho e assim aumentar o esforço, ajustar a grade, ou seja, regular seu esforço
para que seu próximo resultado seja sempre igual ou melhor do que o anterior. Os autores afirmaram que a lógica difusa permite o raciocínio aproximado sob aspectos vagos e é uma importante ferramenta para modelagem do conhecimento. Os autores avaliaram as notas finais dos alunos em 4 cursos com um saída difusa de 44 a 100 pontos. O método difuso possuía duas variáveis de entrada, uma de saída e 6561 regras de inferência que foram obtidas com base no conhecimento dos docentes. Os autores analisaram os mesmos resultados difusos com 3 tipos de funções de pertinência (trapezoidais, triangulares e gaussianas) e concluíram que as duas primeiras eram mais adequadas ao seu trabalho. Os resultados apontaram que o sistema pode ser ainda mais preciso se forem utilizadas mais variáveis de entrada e regras de inferência. O trabalho dos autores contribuiu para uma avaliação prévia de resultados e ajuste no modelo acadêmico pedagógico a cada semestre.
Os trabalhos correlatos apresentam estudos que fundamentam o desenvolvimento dessa pesquisa, como por exemplo, a utilização das funções de pertinência trapezóides e triangulares no meio acadêmico. Esse trabalho se difere dos demais por propor um modelo baseado em indicadores que são recuperados automaticamente do sistema de gestão de uma instituição de ensino. Essa recuperação automática prova um estado de análise dinâmica aos setores educacionais da instituição e possibilita um avanço na tomada de decisão. A análise realizada com base em indicadores de processo recuperados automaticamente possibilita que a tomada de decisão seja guiada por regras de desempenho e desconexa de quaisquer intenções políticas inerentes ao perfil educacional.