“Jornal mais influente e de maior tiragem do Centro-Oeste do país, o Correio Braziliense tem sua história divida em duas fases.” (SQUARISI, 2005, p. 308). A primeira, entre 1808 e 1822. Fundado por Hipólito José da Costa, o Correio Braziliense é considerado o primeiro jornal do Brasil. Produzido em Londres, chegava clandestinamente ao país. A segunda fase é o veículo atual. Fundado em 1960 por Assis Chateaubriand, começou a circular no mesmo dia da inauguração de Brasília.
O CB foi o 63º22 veículo do império de comunicação fundado pelo jornalista Assis
Chateaubriand: os Diários Associados, que adquiriram seu primeiro jornal, na década de 1920. Os Diários Associados, para Amorim (1993), sempre mantiveram uma cobertura jornalística afinada com governos. Essa afinação rendeu a Chateaubriand o posto de embaixador do Brasil no Reino Unido, a partir de 1957. Mesmo ocupando cargo de confiança no governo de JK, Chateaubriand não se furtava de criticar a mudança da capital, como atesta Moraes
Mesmo sendo devedor ao presidente por sua nomeação a um dos mais cobiçados empregos do Brasil, Chateaubriand tornou-se um adversário público da mudança da capital. Ainda que permitisse a seus jornais cobertura jornalística simpática ao empreendimento, ele pessoalmente, em artigos assinados, era implacável nas críticas ao presidente a quem chamava de “o faraó Kubitschek”. Alheio à ingratidão, Juscelino mantinha-o em Londres (MORAES, 1994, p. 18).
Com a cidade praticamente pronta, Chateaubriand mudou de opinião e passou a defender a ocupação de Brasília. Ainda na época da construção da capital, os Diários Associados iniciaram a construção dos dois prédios que abrigariam os novos veículos do grupo.
Apesar de já possuírem veículos deficitários, os Associados apostaram na inauguração do Correio Braziliense como uma vitrine da sua potência, importando para o Brasil um imenso maquinário para a impressão do periódico. Foi o primeiro jornal no Brasil a imprimir em offset.
Com a mais alta tecnologia, a inovação no Correio Braziliense constitui-se marco da expansão dos Associados, que, com alto investimento, atualizam o parque gráfico de mais cinco jornais. Com o avanço, ganham os leitores, os anunciantes e os profissionais do Diário de Pernambuco (Recife), Estado de Minas (Belo Horizonte), Monitor Campista (Rio de Janeiro), o Imparcial (São Luiz) e Jornal do Commércio (Rio de Janeiro). (SQUARISI, 2005, p. 304).
22 Contagem feita por meio da linha do tempo, presente no site dos Diários Associados. Disponível em:
Mesmo sob a chancela do pioneirismo, o Correio Braziliense não foi o primeiro jornal a circular em Brasília. Fona (1993, p.70) aponta que o Diário Carioca já fazia uma tiragem para os candangos e políticos que visitavam a região das obras com frequência. Era o DC- Brasília. “D Almeida Vitor cataloga no período de 1957 a 1967, a existência de 126 publicações, entre boletins, revistas e jornais editados por empresas, sindicatos de classe, grêmios estudantis e órgãos públicos.” (FONA, 1993, p. 69-70).
O CB começou a circular no mesmo dia da inauguração de Brasília, 21 de abril. Catanhêde (1993, p. 79) conta que os outros jornais do país programaram-se para cobrir a inauguração, mas não se organizaram para montar sucursais no Planalto Central. Os jornalistas, a princípio, enviados especiais, acabaram ficando como setoristas. Nisso precisamente, o Correio Braziliense saiu na frente, pois era o único com estrutura e equipe na nova capital. Essa situação, provavelmente, colocou a publicação à frente de outras na cidade. Mas D’Amorim (1993, p. 94) observa que a entrada de jornais de outros estados em Brasília era grande, uma vez que os novos moradores mantinham vínculo com a imprensa de seus estados.
Moraes faz a comparação dos Diários Associados com um grande transatlântico navegando a todo vapor, visto de fora.
Quem navegasse um pouco mais na contabilidade daquele mundo de empresas, entretanto, teria uma visão mais nítida que o complexo que Chateaubriand decidira compartilhar com 22 empregados era também um navio com enormes rombos no casco.(1994, p. 614).
Os empregados mencionados por Moraes formaram o Condomínio Acionário, a quem Chateaubriand doou 49% de suas empresas, em setembro de 1959. Na época da inauguração de Brasília, os Diários Associados tinham 90 empresas, descritas assim por Fernando Moraes: dezenas de jornais, as principais estações de televisão, 28 estações de rádio, as duas mais importantes revistas para adultos do país, doze revistas infantis, agências de notícias, agências de propaganda, um castelo na Normandia, nove fazendas produtivas espalhadas por quatro estados brasileiros, industrias químicas e laboratórios farmacêuticos, estes lançados pelo poderoso Schering. (MOARES, 1994, p. 16).
O modelo inusitado de gestão empresarial mantém-se até hoje. O império de Assis
Chateaubriand, hoje, possui 13 jornais, 12 emissoras de rádio e sete canais de TV23. Quando o
Correio Braziliense e a TV Brasília foram inauguradas, em 21 de abril de 1960, Chateaubriand estava internado em decorrência de uma trombose, que o deixou tetraplégico em fevereiro daquele mesmo ano. Apesar de os médicos acreditarem que o Velho Guerreiro não sobreviveria ao incidente, ele só faleceu em 1968.
23 Dados da Fundação Assis Chateaubriand. Disponível em: < http://fac.correioweb.com.br/grupo.htm>. Acesso
Mesmo depois da trombose, com dificuldades na fala e sem poder mover-se, Chateaubriand voltou a escrever seus artigos diários, com o auxílio de sua enfermeira particular e tradutora, Emília (MORAES, 1994, p. 624-625). Algum tempo depois, enquanto se tratava nos Estados Unidos, a IBM desenvolveu uma máquina para que Chateaubriand voltasse a escrever sozinho. Grande empresário, dono de fazendas, Chatô era um ferrenho
combatente do chamado perigo vermelho24. Suas preferências políticas e convicções podiam
ser conferidas em seus artigos.
Desde que começara a conspirar contra Jânio, nos primeiros meses de 1963, até a eclosão do golpe, em abril de 1964, foram raros os artigos escritos por Chateaubriand que não tratassem de política nacional. Quando não estava açoitando a reforma agrária, UNE, o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) ou o poder dos sindicatos, o jornalista costumava dedicar-se a cândidas reminiscências da infância, da adolescência ou do período em que vivera na Europa, na virada dos anos 10. (MORAES, 1994, 646).
Ainda antes da trombose, quando o então presidente Juscelino envidava esforços para que o país deixasse de ser exportador apenas de matérias primas, Chateaubriand destilou criticas às pretensões presidências. (MORAES, 1994, p.19). Seguindo a linha política de seu criador, os Diários Associados parecem identificar- se com suas preferências político- ideológicas.
Apenas para ilustrar, é possível notar a filiação político-ideológica impressa no Correio Braziliense até mesmo pelo termo invasão, empregado na matéria “Mulheres contra a violência” (CAMPBELL, 23 de ago 2007, p. 23). Esta terminologia é defendida por empresários donos de fazendas no lugar de “ocupação”. Clarisse Gurgel (2005, p. 203) observa no Dicionário da Terra que
proprietários de terra, grande imprensa e órgãos do governo fazem uso do termo invasão para definir as ações de movimentos sociais de luta pela reforma agrária [...] o conceito vem sendo adotado propriamente por aqueles que se sentem invadidos. Esse exemplo corrobora a ideia iniciada pela Teoria Organizacional (BREED, 1950) e complementada pela teoria interacionista (Tuchman, Traquina) de que a política organizacional interfere no resultado do trabalho dos jornalistas. Repórteres utilizam o termo invasão, muitas vezes de forma automática e sem reflexão. Discutiremos mais sobre este tema no capítulo em que serão feitas as análises.