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Durante o processo de Acordei que Sonhava outros elementos foram se somando para dar vida às personagens dentro de uma linguagem que ao criar novas perspectivas, criava a si própria. A dança de rua, uma das bases do treinamento corporal, era incorporada na gestualidade enquanto as possibilidades de contracena com a música iam sendo ampliadas. O texto era desconfigurado e reconfigurado constantemente na busca por uma poética específica para a forma que estava surgindo e vice versa. Especificamente no caso de Segismundo, como representava a figura de um MC, um de seus principais pontos de concentração foi o trabalho com a palavra e a oralidade. O trabalho vocal se desenvolvia no sentido de encontrar uma voz para o um

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personagem masculino, feito por uma mulher, mas que ao mesmo tempo não abandonasse o distanciamento épico, nem "maquiasse" a voz feminina. Um momento determinante na caracterização dessa personagem foi a incorporação do yorubá em suas falas. Na busca por uma maneira de trazer a “gíria” para o texto, não só em seu efeito poético, mas político, e como recurso de distanciamento épico, foi sugerido pela direção, em certa altura do processo, que fossem introduzidas aulas de yorubá na minha preparação para o papel. Durante sete meses me sentei em frente ao professor nigeriano Tajudeen Adeleke Ajiyobiojo na varanda de um apartamento térreo de um altíssimo edifício na rua Barata Ribeiro e entre o barulho ininterrupto de carros da avenida Nove de Julho, numa espécie de vácuo no tempo, de fresta anacrônica, como se estivesse aos pés de um baobá, frente a meu tutor, ouvia histórias e cantigas da África ancestral e, de posse de uma "cartilha" xerocada, aprendia os números, as letras, os dias da semana, que na cultura yorubana não há dissociação entre língua, ancestralidade, espiritualidade e cultura, e que tudo está diretamente ligado às forças da Natureza. Era dessa maneira que Adeleke ensinava, e foi com essa maneira de aprender que fui fazendo um paralelo direto com a própria história do príncipe Segismundo, que renegado e deixado à sua própria sorte, diz em seu texto inicial ter aprendido as palavras com o vento, a matemática com o voo dos pássaros, numa experiência empírica de observação e comunhão com a natureza.

A associação análoga da gíria com o dialeto (cantada em verso e poesia pelos Racionais MC's na música Negro Drama "...Ginga e fala gíria. Gíria não! Dialeto...”) se materializou no texto de Segismundo e em meio ao texto em português, repentinamente irrompia uma frase, uma palavra, uma cantiga no dialeto yorubá, que ao mesmo tempo que remetia à uma ancestralidade negra e um pertencimento racial, trazia um outro tempo, o tempo circular da África, para dentro do nosso tempo, utilizando-se de um código linguagem próprio, que circunscrevia um grupo social específico, e representava a "voz do gueto", impenetrável e indecifrável para aqueles que não são “iniciados”. Não só as palavras, a prosódia e entonações foram incorporadas na composição da personagem Segismundo, mas muitas características da gestualidade de Adeleke se presentificaram em sua

movimentação corporal já que a oralidade não se reduz à ação da voz e “implica tudo o que em nós se endereça ao outro, um gesto , um olhar”. Toda a poética do movimento, que está implícita na poética oral foi incorporada já que “o modelo gestual faz parte da competência do interprete e se projeta na performance”. (ZUMTHOR, 1993)

M

ICROFONE

A

BERTO

“Nós precisamos falar com você. Não deixe de vir a reunião.”

A reunião era um encontro da Frente 3 de Fevereiro, coletivo transdisciplinar, formado no ano de 2004 em resposta ao assassinato do dentista negro Flávio Ferreira Santana no ano de 2000, que desenvolve ações simbólicas, produção de livros, documentários e investigações colaborativas sobre o racismo na sociedade brasileira. Havia participado das primeiras reuniões e de suas primeiras ações, mas estava um pouco distante nos últimos meses. Até o momento desse “chamado”.

“Nós fomos convidados pra abrir a Mostra Internacional “Vídeo Brasil”, no SESC Pompéia. Temos uma entrevista com o sociólogo e cineasta Noel Carvalho e queremos transformar isso numa narrativa, e o Noel num personagem. A ideia é fazer um espetáculo com vídeos das nossas intervenções, música e “meio que” umas cenas... Pelo que a gente viu no Acordei que sonhava, achamos que tem que ser você.”

O projeto precisava de uma voz. De um porta-voz. Não era uma personagem para um ator. De fato,no início nem era uma personagem, e sim uma intervenção poética, um depoimento, uma condução narrativa. Mas também não era caso para um MC, pois, como foco da narrativa, esse “intérprete” teria que ter uma experiência cênica para dar dinâmica ao espetáculo, lidando com todos os elementos propostos. O que o projeto precisava era de um ator-MC, com todos os recursos desenvolvidos até então e que puderam ser vistos em ação em Acordei que Sonhava. Um artista híbrido que juntava depoimento com interpretação e que sobretudo era portador de uma linguagem específica. E eu precisava de um coletivo como aquele. Entrei!

“A gente tem umas referências pra te mostrar do que estamos imaginando. Você conhece um lance chamado poetry slam?”

E a partir dali, um novo mundo se abriu. Eu já havia tido contato com trabalhos de poesia falada, o qual também é chamado spoken word, como A revolução não será televisionada, de Gil Scott Heron, mas os materiais sobre o poetry

slam, aos quais comecei a ter acesso, ampliaram muito a minha percepção dos usos da palavra em performance, do texto em ação. Dentre eles o documentário Slam Nation (1998), de Paul Devlin, que vinha com uma inscrição na capa do dvd: “poetry slam – o esporte da poesia falada”, e acompanhava o time de Nova Iorque no Campeonato Estadual de poetry slam nos EUA. O que mais chamava a atenção era a diversidade dos participantes e os diferentes estilos, as inúmeras possibilidades rítmicas e performáticas dos slammers e a proporção que a “modalidade” havia tomado não só nos Estados Unidos mas em vários países do mundo. Outro material que abriu possibilidades sobre o cruzamento “palavra x música” foi o documentário sueco Surplus: Terrorized Into Being Consumers (Erik Gandini, 2003) que com uma edição musical ritmada, usando recursos como repetições, pausas e manipulação de volumes, transformava as falas dos entrevistados em músicas, em spoken Word.

“Chegaram aqueles filmes que nós encomendamos, o SLAM e o do Spike.”

Saul Williams, Saul Williams, Saul Williams! A identificação com o ator, MC, poeta, slammer que interpretava o papel de Raymond Joshua no filme Slam, de Marc Levin, foi imediata. Williams, que também participa do filme Slam Nation, é um ator com fortes influências da cultura hip-hop, e além dos diálogos usuais, sua intepretação era entrecortada com declamação de poesias, raps e textos autorais. Numa atuação épica, Saul Williams foi e continua sendo para mim uma forte referência como artista. Outra influência determinante, foi a atuação de Robert Guenveur Smith, no filme The Huey P.Newton History, dirigido por Spike Lee. O filme, originalmente uma peça de teatro escrita, dirigida e protagonizada por Smith, conta a história de um dos líderes dos Black Panthers, o polêmico Huey P. Newton. O filme é praticamente a filmagem da peça, e o ator, com pouquíssimos recursos – uma cadeira, um microfone, algumas imagens de arquivo projetadas contextualizando o período histórico e o público assistindo – vai explorando o ritmo e a prosódia do texto, criando uma impressionante musicalidade e transmitindo os “estados de espírito” de Huey P. Essa referência foi

determinante para Frente 3 de Fevereiro, e partimos da mesma estética “cadeira+microfone” no nosso espetáculo.

“Então, aqui está a entrevista...”

Além de alguém que desse voz ao depoimento de Noel Carvalho e de outros textos que foram se somando ao projeto, era necessário o contato com esse material bruto para transformá-lo em uma narrativa, em falas, em um roteiro. Juntamente com outros integrantes do grupo, transcrevi parte do material que estava em vídeo, e esse processo foi fundamental pois ali entrei em contato com a performance da persona que seria a base de toda a representação, diferentemente do que teria acontecido se o texto já tivesse chegado escrito, pois tive a oportunidade de observar a gestualidade, a vocalidade e o contexto no qual foram respondidas as perguntas. Durante todo o período de montagem e ensaios, além de uma incursão em um novo mundo, o do poetry slam e do spoken word, iniciou-se um processo de transformação de uma entrevista, material não necessariamente teatral, em performance, em cena, roteirizando-o e enxertando samples, procurando conflitos, inserindo outras vozes, teatralizando-o. Como eu mesma iria representar o que estava escrevendo, a forma já se dava ao mesmo tempo em que a seleção e elaboração do conteúdo era feita. A forma se tornava conteúdo e o conteúdo, forma. Todos os integrantes tinham acesso ao material elaborado, que era modificado, completado, cortado, relacionado com a imagem e com a música durante os ensaios. Como resultado, no dia 6 de setembro de 2005 estreou FUTEBOL, espetáculo multimídia da Frente 3 de Fevereiro, com enorme repercussão, que nos levou a apresentá-lo no ano seguinte no Festival Brasil em Cena, em Berlim, e com repercussão ainda maior em termos estéticos e políticos no trabalho que eu seguiria desenvolvendo dentro e fora do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos.

Capítulo III – O ator MC e o universo do Poetry Slam e do Spoken Word.