Luciana Titon
Universidade do Sagrado Coração, Bauru. SP
1. Como se deu a escolha da sua profissão?
Na verdade, tinha dúvidas em relação ao que iria escolher. Gostava muito de Direito. Meu pai fazia parte de vários júris lá no interior e comecei a acompanhá-lo para sentir como era. Com o tempo, percebi que não tinha nada a ver comigo, porque queria algo que eu pudesse lidar com o público e ajudar de alguma forma, e isso não encontraria no Direito. Fui pesquisar a aérea de saúde. Como sempre fui atleta, comecei a olhar para a fisioterapia. Minha idéia era fazer fisioterapia, depois educação física e tentar conciliar as duas coisas. Comecei a cursar fisioterapia e vi que meu caminho era esse mesmo. Sou apaixonada pelo que faço. Meu trabalho de conclusão de curso foi na área de física esportiva, uma aérea em que eu estava muito engajada. Posteriormente, acabei “migrando”, depois de formada, para aérea de fisioterapia respiratória, devido a um problema que tive com meu irmão.
2. Você consegue identificar um impulso mais forte que a levou para a sua profissão?
Já fazia fisioterapia, estava prestes a terminar. Entrei em agosto, no último semestre da faculdade quando meu irmão, jogando futebol, fraturou duas vértebras e ficou tetraplégico. Iria me especializar na aérea de física esportiva, mas, depois do que aconteceu, tive de ir para a aérea de física respiratória para cuidar dele. Passei os últimos seis meses de curso no hospital, indo e vindo o tempo todo, sendo a fisioterapeuta dele, porque lá no interior não tinha ninguém que soubesse mexer em ventilação mecânica. Contei com a ajuda de uma professora de São Paulo, que, sabendo do caso, se colocou à disposição para fazer consultas comigo via telefone, todos os dias, inclusive me colocar dentro do mundinho de físiorespiratória, e me explicou todas as modalidades de ventilação mecânica. Estudei muito, e minha sorte é que tinha sido a melhor aluna de físiorespiratória, pois, olha, a gente acha
que é coincidência, quando aconteceu o acidente com meu irmão, já tinha passado por essa disciplina, mas, é claro, não tinha nada de prática. Foi difícil não ter nada de prática e ter de aprender exatamente com uma pessoa da sua família. Num primeiro momento, não tive dúvida de que era isso que eu iria fazer, porque era isso o que eu podia fazer por ele. O acidente aconteceu em agosto, em dezembro terminei a faculdade, e no começo do ano meu irmão faleceu.
3. Como é seu dia-a-dia como fisioterapeuta?
Aquela mesma professora me convidou a vir para São Paulo para fazer especialização. Fui aprovada nas provas e iniciei o estágio no Hospital do Câncer. Nesse período, passei por prova de contratação e comecei a trabalhar como plantonista. Há cinco anos trabalho no Hospital do Câncer. Agora sou professora da especialização, faço dois horários, conjuntamente com plantão na Unidade de Terapia Intensiva – UTI, aqui do Hospital do Câncer.
4. Qual a sua experiência relacionada à doença câncer?
Praticamente tudo o que eu aprendi sobre câncer foi dentro do Hospital do Câncer. Tento olhar para o paciente como se ele fosse uma pessoa sem nenhuma doença. A pessoa com câncer é como qualquer outra que precisa de tratamento. Na verdade, o que a gente costuma ver são pessoas que não se aceitam, não aceitam a doença e isso sei que dificulta bastante o tratamento No ambulatório do hospital, conheci várias pessoas que tiveram câncer de pulmão, se trataram. Aliás, com muitas delas, isso já havia acontecido há mais de dez anos. Comecei a acreditar no tratamento. Com o tempo, vi que, com o tratamento, muita gente podia ser curada, podia se recuperar e ter boa qualidade de vida.
5. Você acha que a fé tem um papel importante na cura ou na convivência com a doença?
Sem dúvida. Acho que não só nessa circunstância; acho que o paciente com câncer tem de ter muita fé. Aliás, para tudo na vida tem de ter muita fé. Se você não acreditar naquilo que você está se propondo, se você descobre que tem doença,
você tem de ir atrás de como curar isso. Se não curar, amenizar da maneira que puder. Acho que, quando a pessoa tem essa disposição de fé, acredito que a probabilidade de ela obter a cura ou passar por um tratamento é mais tranqüila. Se a pessoa tem fé, ela vai se recuperar, vai passar por essa fase difícil com mais facilidade. Essa é minha experiência, é o que tenho visto. Os pacientes que são mais perseverantes, que falam mais de Deus, têm uma força maior, como se a pessoa se armasse melhor para essa guerra.
6. O que você pode me dizer a respeito da terminalidade?
Paciente terminal é difícil de lidar, talvez seja a situação mais difícil dentro de um hospital. Quando o paciente não tem mais para onde correr, como fisioterapeuta, me pergunto: O que eu posso fazer pelo paciente terminal? Nós tentamos dar o melhor conforto possível. Conforto acho que é a palavra-chave de tudo. Se o paciente disser que está com falta de ar, como fisioterapeuta, o que posso fazer é colocar ventilação invasiva nesse paciente. Se você instala uma ventilação invasiva, há sempre algum sofrimento de seu paciente e, por outro lado, se você não instala nada, ele fica com falta de ar. O que você puder fazer para aliviar o sofrimento do paciente é válido. Mesmo sabendo que vou prolongar a vida do paciente, como fisioterapeuta, o que eu posso fazer, como no caso citado, é instalar ventilação invasiva. Para isso eu não penso duas vezes porque, dentro daquela máscara, ele está respirando bem, apesar de todas as dificuldades.
7. Na sua experiência, existem pessoas resilientes?
Eu já conheci vários pacientes que superaram problemas e estão superando ainda. São poucas as pessoas que conseguem ter tanta força e lutar. Existe um porcentual de pacientes que conseguem descer até lá embaixo, “dar a volta por cima”, puxar dentro de si essa vontade de viver.
8. A fé pode contribuir para que o indivíduo se torne resiliente, supere um problema grave de doença como o câncer?
Acredito que pessoas adquirem a fé por algum problema. Já vi vários pacientes que não acreditavam em nada. Nem em Deus, simplesmente não acreditavam , ou seja, não têm fé nenhuma. Esse paciente acaba passando por situações difíceis, ao passo que a pessoa que tem fé, no meu entender, acaba conseguindo sair lá do fundo do poço. Acredito que a fé ajuda muito.