Aqui sintetizam-se as conclusões advindas da observação das fontes materializadas nos textos, discussão mais próxima da que se efetuou no terceiro capítulo, “Vozes que avaliam”. São dispostas e problematizadas as categorias de fontes materializadas e as implicações de sua presença, conforme segue:
a) Representantes de think tanks tidos como as principais fontes expert: numericamente, observou-se que prevalecem nos textos os enunciados de locutores associados a instituições do terceiro setor, mas que de alguma forma também têm interesses em questões ligadas à educação pública, por vezes organizando exames, publicando materiais de ensino ou propondo formações para professores. No interior dos textos, tais locutores são descritos como aqueles que detêm conhecimentos acerca da educação no Brasil e estão aptos a sugerirem ações e alterações, frequentemente associadas à maior presença do setor privado na educação do país. Não são consideradas aqui como fontes expert aquelas provenientes do governo e seus representantes;
b) Preterimento de representantes de universidades como fontes expert: Com relação aos locutores apresentados nos textos como associados ao saber acadêmico, há pouca frequência e muitos dos que figuram nos textos costumam estar também associados a outras categorias, como as próprias think tanks ou cargos do governo. Quase não há variação quanto às instituições das quais eles proveem e, por vezes, os enunciados atribuídos a eles acabam por lhes desqualificar enquanto fontes expert, com a seleção de trechos que atualizam conteúdos provenientes do senso comum. Mesmo em textos em que não se efetuam menções diretas a trechos que teriam sido proferidos por representantes de instituições de ensino superior, há uma tendência à crítica do papel da universidade na formação de professores e na capacidade de propor soluções para os problemas da educação no Brasil;
c) Pouca representatividade dos agentes escolares como fontes materializadas nos textos: embora as avaliações externas sejam tema que diz respeito diretamente aos agentes escolares, como estudantes, professores, diretores e pais, sua representatividade enquanto fontes inseridas nos textos jornalísticos é bastante reduzida; restrita a situações
específicas em que se comentam fatores problemáticos com relação ao ensino. Foram observadas, entretanto, algumas situações em que diretores de escolas com índices considerados satisfatórios figuraram nos textos. A presença de enunciados atribuídos a professores da educação básica ocorre em se tratando de profissionais ligados à rede particular, em contextos nos quais eles são tomados como exemplos de boas práticas;
d) Presença frequente nos textos de fontes ligadas ao governo: as fontes oficiais estão presentes em ambas as coberturas, associam-se a elas trechos que dizem respeito a explicações e justificativas para os resultados obtidos pelos estudantes brasileiros. Projeções ou perspectivas de ações figuram raramente entre o que se associa a essas fontes, tal papel é atribuído na maioria dos casos às think tanks;
e) Repetição das fontes consultadas nos textos: seja nos textos que constituíram o corpus desta pesquisa, seja em outros que compuseram as análises, foi possível notar a repetição das fontes materializadas nos textos como aptas a discutir temas educacionais. Em termos discursivos, isso contribui para a menor variação de discursos em torno da educação que circulam nesses materiais; em se tratando da estruturação da educação no Brasil, tal fato revela a permanência de determinados agentes como formadores de opinião acerca do tema;
6.2Estruturação dos textos
O objetivo desta seção é indicar as tendências que dizem respeito à maneira como as vozes foram mobilizadas para a construção dos textos, além de sua relação com outros elementos presentes na página do jornal. Os principais pontos observados foram:
a) Textos estruturados predominantemente pela sucessão de enunciados atribuídos às fontes: a inserção de trechos atribuídos a terceiros constitui-se como a base de muitos dos textos analisados durante a pesquisa. Em textos curtos, chegou-se a encontrar até cinco diferentes fontes citadas. Tal presença, no entanto, não corresponde a dizer que os textos estabeleçam relações entre o que se associa a uma ou a outra fonte, em muitos casos o que se tem é a sequência de enunciados, na maioria das vezes em discurso direto,
sem que se faça uma apreciação de seu conteúdo ou comparações entre diferentes posições;
b) Predominância do discurso relatado direto: observou-se a presença do discurso relatado tanto de forma direta quanto indireta, com predominância do primeiro tipo, além disso em vários textos foi percebido o recurso das ilhotas textuais. Em ambos os casos, o efeito buscado pelo texto é de imagem de fidelidade às palavras de terceiros, não estando em questão se de fato elas correspondem ao que foi enunciado anteriormente em outro contexto. Tal recurso também busca imprimir ao texto o caráter de objetividade e imparcialidade, na medida em que a inserção de aspas, e mais raramente travessão, marcando o discurso do outro sugere que a responsabilidade pelo que se escreve é de quem é indicado como fonte, e não do jornal que efetuou uma seleção prévia sobre o conteúdo disposto;
c) Fontes e discurso relatado como propagandas: a constante menção a escolas particulares e instituições que oferecem cursos de formação efetua uma espécie de propaganda. A presença de representantes de instituições que se colocam como detentoras de conhecimentos específicos sobre educação e capazes, tanto de comentar o desempenho de estudantes brasileiros em avaliações de larga escala, quanto de propor ações para melhoria dos resultados, propaga uma imagem de excelência profissional, frequentemente em detrimento das instituições públicas. Trata-se de, ao mesmo tempo, difusão de determinadas instituições como detentoras de um saber técnico sobre educação e de propagação de um discurso que privilegia a iniciativa privada;
d) Disposição de propagandas de instituições de ensino superior e escolas particulares nas páginas: além da propaganda efetuada pela própria disposição de fontes nos textos, há também a inserção, nas páginas que trazem os textos sobre as avaliações, de propagandas de escolas e instituições de ensino superior privadas, estabelecendo um diálogo com o conteúdo presente nos textos. Assim, texto jornalístico e propaganda se completam, enquanto um apresenta problemas e obstáculos a serem superados, o outro se apresenta como solução;
6.3Conteúdos veiculados
Apesar de nas duas seções anteriores já terem sido destacados alguns aspectos que dizem respeito aos conteúdos veiculados nos textos, a seguir são reunidos aqueles que se mostraram mais frequentes nos dados analisados:
a) Valorização do ensino particular em detrimento do público: processo efetuado, entre outros fatores, pela presença de depoimentos de representantes de escolas particulares relatando exemplos de ações bem-sucedidas. No caso dos representantes da educação pública, pais, professores e alunos, sua presença é bastante reduzida e normalmente associada a problemas enfrentados nessa esfera. Em artigos do jornal, também se privilegiam ações de intervenção da rede privada na pública;
b) Discurso da competividade: a valorização das posições obtidas por estados e países evidencia a valorização que o jornal atribui à competitividade no ambiente escolar. Outra evidência disso é a recorrência do emprego de léxico próprio de jogos e competições para tratar do desempenho dos estudantes em avaliações. São comuns expressões como “estar à frente” ou “estar atrás”, como se houvesse uma disputa pelas primeiras posições. A qualidade das escolas é considerada como passível de ser aferida somente pelos índices obtidos, como se os resultados permitissem estabelecer comparações em termos de “melhor” e “pior” entre escolas com características distintas; c) Avaliações como rankings: os resultados divulgados pelas avaliações são tomados pela cobertura como rankings por meio dos quais é possível hierarquizar países, estados, redes e escolas. Isso ocorre não somente pela disposição de gráficos sintetizando esses rankings, mas pelo próprio conteúdo dos textos, que tem como foco indicar quantas posições as unidades de educação avançaram ou perderam. Esse processo tem como resultado a não abordagem dos exames em sua complexidade, ou seja, a ausência de problematização de quais são seus objetivos e o que eles fornecem de informações para além dos índices;
d) Universalização como fator determinante para a queda na qualidade: em diferentes momentos, foi citada a universalização das matrículas como fator para o desempenho
considerado como pouco expressivo pelos estudantes brasileiros. Se por um lado esse tipo de afirmação busca apresentar justificativas para os resultados tanto do Ideb quanto do Pisa, por outro, eles de alguma forma indicam que um dos caminhos para que se obtenha melhores resultados é uma educação mais excludente. Esse processo se faz presente também nos textos em que é exposta a diferença entre os resultados das escolas particulares e das públicas;
e) Individualização das iniciativas bem-sucedidas na educação pública: nas situações em que são destacados exemplos de ações bem-sucedidas em escolas públicas, há uma tendência à atribuição do sucesso a iniciativas individuais, e não à rede, a iniciativas governamentais ou à escola como um todo. Em alguns textos, é dado maior destaque à atuação dos diretores das escolas como protagonistas das ações realizadas.
Com essa síntese, foram retomadas as principais conclusões obtidas por meio da pesquisa. Para além delas, resta registrar que as observações feitas durante as análises dizem respeito não somente a aspectos linguísticos de estruturação textual e inserção do discurso relatado, mas ao modo como tem se organizado a educação no Brasil atualmente. A presença ou omissão de determinadas vozes nos textos que se propõem a apresentar aspectos educacionais a um público mais amplo corresponde à presença ou exclusão dessas instâncias no debate educacional e também na tomada de posições na esfera pública. Nesse cenário, é representativo o preterimento do saber acadêmico em comparação às think tanks, dado que estas têm ocupado, discursivamente, o lugar de detentores do saber e dos meios para o desenvolvimento da educação no país.
Por fim, concluída esta jornada, espera-se que esta pesquisa contribua para que se possam seguir os jogos de palavras efetuados em se tratando de inserção de enunciados atribuídos a terceiros em textos jornalísticos. Para além de compreendê-los linguística e discursivamente, que seja possível também agir para transformá-los, seja por meio de sua elaboração, assimilação ou repercussão.
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Texto Título Data Gênero Locutor / autor Caderno e