As dúvidas que assolavam os cipriotas gregos eram de diversa ordem. Em primeiro lugar, não acreditavam que, tanto o Plano Annan V, quanto as suas disposições de cooperação pudessem garantir que Chipre uma participação eficaz de Chipre, como Estado-membro, no seio da UE. Para além disso, tinham sérias dúvidas se a versão final do Plano seria compatível com o
115 (Koffi Annan, 21 de Abril de 2004, disponível em http://www.un.org/News/Press/docs/2004/sgsm9264.doc.htm. (tradução nossa). Consultado em 5 de Fevereiro de 2007.
acquis communautaire
, uma vez que a Comissão Europeia, teve oportunidade de analisar as primeiras versões do Plano (Annan I e II) mas não fez o mesmo às restantes porquanto o Annan V foi apresentado à comunidade internacional como umfait accomplit.
Em segundo lugar, os cipriotas gregos receavam que a Turquia reclamasse o direito unilateral de intervir militarmente em Chipre, ao abrigo do Tratado de Garantia de 1960 – que continuaria em vigor após a provação do Plano Annan. Por esse motivo, em 2000, os cipriotas gregos solicitaram um parecer a vários advogados de direito internacional, que acabaram por lhes dar razão, na medida em que “nenhum dos Estados-garante, quer individual, quer colectivamente, teria o direito de intervir militarmente em Chipre. A intervenção só seria possível nos termos da autoridade sob a Carta das Nações Unidas” (Christophorou, 2005: 149).Outra preocupação dos cipriotas gregos residia no facto de a Turquia ter ficado autorizada pelo Plano de aumentar o seu contingente militar em Chipre. Ao passo que, ao abrigo do Tratado de Aliança de 1960, as tropas turcas seriam compostas por 650 elementos e as tropas cipriotas gregos por 950, com o Plano Annan V cada contingente não deveria exceder um total de 6.000 efectivos até 2011 e, a partir desse ano, até 2018, ou aquando da entrada da Turquia para a UE – conforme o que ocorresse primeiro – cada contingente não deveria exceder os 3.000 efectivos. Dessa altura em diante, o contingente grego voltaria aos 950 efectivos e o cipriota turco aos 650. Este número seria sujeito a uma revisão trienal com o objectivo da sua retirada definitiva (Plano Annan, artigo 8, desmilitarização). Não eram estas as alterações desejadas pelos cipriotas gregos, que lembravam que esse mesmo número de tropas turcas tinha levado a cabo os ataques de 1963 e 1974 e portanto, discordavam que tal número fosse considerado uma mera ‘presença simbólica’, tal como designado no parágrafo 47 do Plano Annan V.
Os cipriotas gregos mostravam também uma certa apreensão relativamente às restrições impostas no direito de regresso dos seus compatriotas que se encontravam deslocados e também à questão das restituições limitadas das suas propriedades. No que respeita a este tema, as duas comunidades tinham visões completamente diferentes. Os cipriotas gregos defendiam uma solução baseada na restituição das propriedades aos seus antigos donos e o regresso de todos os deslocados. Os cipriotas turcos pretendiam uma solução global, através de um esquema de compensação, o que significava que não haveria restituição de propriedade aos seus antigos donos.
O que ficou estipulado, no artigo 10 do Plano Annan V, referente à propriedade, foi que nas áreas sujeitas a ajustamento territorial, as propriedades seriam restituídas aos seus proprietários desapossados. Nas áreas não sujeitas a ajustamento territorial, as disposições para o exercício dos direitos de propriedade, por via da restituição ou da compensação teriam as seguintes características básicas: os que optassem pela via compensatória, receberiam uma completa e efectiva compensação da sua propriedade; todos os outros teriam o direito de reaver 1/3 do valor e 1/3 da área total da sua propriedade e receber uma compensação completa e efectiva pelos 2/3 remanescentes. Contudo, todos teriam o direito de recuperar a sua habitação, caso a tivessem construído, ou nela vivido por um período mínimo de 10 anos. O Plano, ao desvincular o direito de propriedade do direito de regresso, pretendia abster-se de assegurar que os deslocados poderiam, na prática, regressar às suas casas (artigo 10, nº 2 e nº 3, a, b e c). Salvaguardava, contudo, as situações de cipriotas e colonos turcos que fizeram obras nas casas que ocuparam. Com efeito, a alínea e) do artigo 10 refere que as pessoas que tivessem feito significativas melhorias nas propriedades poderiam solicitar e receberiam o título para estas propriedades, contando que pagassem o valor da propriedade no seu estado original.
Segundo Nearchos Palas, o Plano Annan V tratava, na perfeição, dos direitos dos colonos turcos, mas não fazia o mesmo pelos direitos dos refugiados cipriotas gregos (entrevista, 2010).
Em suma, o direito dos cipriotas gregos de reaverem as suas propriedades foi, na prática, substituído por um direito de compensação. Durante anos a fio, os cipriotas gregos lutaram nos tribunais, muitas vezes em vão, para reaverem as suas casas. Por falta de legislação, muitos casos foram, simplesmente, arquivados.
Quanto à comunidade cipriota turca, inicialmente, quer esta, quer os colonos turcos, mostraram ser grandes opositores ao Plano, embora por motivos diferentes. A comunidade cipriota turca ignorava os benefícios financeiros que lhe podiam advir com a entrada na UE. Por oposição, os colonos turcos eram contra um entendimento, porque temiam que lhes fosse ordenado o regresso à Turquia.
Em 2003, após uma intensa propaganda a favor do Plano, levada a cabo pelas NU, pela UE e por várias ONG’s, a comunidade cipriota turca, ciente dos benefícios que teria com uma eventual entrada na UE, mudou a sua opinião. Esta reviravolta ficou bem patente nas eleições cipriotas turcas de Dezembro 2003, nas quais os partidos pró-UE e pró-acordo obtiveram cerca de 50% dos votos. Neste sentido, foi feita uma coligação entre partidos de esquerda e de centro
direita, cujas figuras preponderantes eram Mehmet Ali Talat e Serdar Denktash, que acabaram por ser promovidos, por diversos Estados ocidentais e pelas próprias NU, como a nova liderança cipriota turca. Apesar deste reconhecimento externo, internamente o líder de facto da comunidade cipriota turca continuava a ser Rauf Denktash, forte opositor ao Plano, desde o primeiro momento. Para além de Denktash, o também conservador Dervis Eroglu116 considerava
o Plano das NU como destruidor para a sua Comunidade (Christopohrou, 2005:87).
A campanha do referendo durou cerca de três semanas e desenvolveu-se num clima deveras negativo dos dois lados da G