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A razão de em Fernando Pessoa tratarmos a poesia (conhecida) do grande poeta relativa ao vinho e ao deus Baco, prende-se, por um lado com o propósito de, no que diz respeito ao século XX e inícios do XXI exemplificarmos apenas e só a poesia musicada no âmbito do Canto de Intervenção, onde encontramos alguns dos nomes maiores da poesia portuguesa contemporânea como o próprio Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel Alegre, Eugénio de Andrade, Natália Correia, António Gedeão, Raul de Carvalho, David Mourão-Ferreira, Afonso Duarte, Miguel Torga, José Gomes Ferreira, Manuel da Fonseca, Jorge de Sena, Sebastião da Gama, Guerra Junqueiro, Almeida Garrett, Eça de Queiróz, mas também Luís de Camões, João Ruiz de Castelo Branco, Aires Nunes (séc. XIII), ou grandes poetas das línguas castelhana e galega, como é o caso desse nome maior da poesia universal, Federico García Lorca, ou Afonso X (adaptação de Natália Correia), Rosalía de Castro ou ainda Curros Henriquez. E se analisarmos a autoria dos temas cantados apenas pelos precursores do Canto de Intervenção, isto é José Afonso,

 

 

Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília e também Francisco Fanhais, 66que devido em grande parte à elevada qualidade literária da sua produção poética deixam um marca indelével e decisiva neste movimento dos Cantores de Intervenção. Como autores, estão também na génese da NMP, e na nossa poesia lírica, representam mais um período, mais um marco, mais um degrau nesta caminhada iniciada no século XI com Almutâmide e seus companheiros e contemporâneos e que queremos seguir até à actualidade – desde as últimas décadas do século passado até ao início do XXI. Onde, entre outros67 destacamos António Borges Coelho, António Aleixo, António Ferreira Guedes, Alfredo Vieira de Sousa, António Barahona da Fonseca, António Cabral, , António Quadros (pintor), Arquimedes da Silva Santos, António Rebordão Navarro, César Pratas, Curros Henriques/José Niza, Valente da Fonseca, Daniel Filipe, Eduardo Melo, Fernando Assis Pacheco, Francisco Delgado, Filinto Elísio,Fernando Morgado, Fernando Miguel Bernardes, Fernando Machado Soares, Sidónio Muralha, Fernando Melro, Fiama Hasse Pais Brandão, Gabriel Mariano, Geraldo Bessa Víctor, Geraldo Vandré, Hélia Correia, Ilídio Rocha, José Carlos Ary dos Santos, José Saramago, João Apolinário, Luís Andrade (Pignatelli), Matilde Rosa Araújo, Manuel Alegre, Manuel Correia, Mário Dionísio, Orlando da Costa, Papiniano Carlos, Pedro Lobo Antunes, Sebastião da Gama, Paulo Armando, Rui Namora, Sophia de Mello Breyner Andresen, Torquato da Luz, Urbano Tavares Rodrigues, Reinaldo Ferreira, ou os próprios “cantautores” como José Jorge Letria, Sérgio Godinho ou o próprio José Afonso.

Na actualidade, esta grande viagem poética desemboca em Sérgio Godinho ou na parceria Rui Veloso/Carlos Tê, mas também Vitorino, Fausto, Janita Salomé, Francisco Naia ou João Afonso, assim como outros poetas cantados e que no capítulo próprio faremos referência.

Claro que muitos mais e importantes poetas poderiamos referir, mas não sendo este um trabalho enciclopédico dos poetas do século XX (critério

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Cfr. Estudamos no livro anterior Canto de Intervenção 1960-1974. (3ª ed.). Lx: Público. 2007, pp. 101-104] onde verificamos a presença de um conjunto muito alargado de poetas portugueses

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Como referi só fizemos um estudo exaustivo dos poetas cantados pelo Zeca, pelo Adriano, pelo Cília e pelo Fanhais, portanto não temos a pretensão de referir a totalidade dos poetas cantados, sim os mais significativos.

 

 

semelhante que, aliás, usámos relativamente ao século XI e aos períodos posteriores da nossa história), todavia gostaríamos de referir alguns dos poetas dos vários períodos da Época Contemporânea, nomeadamente os que trataram os temas do Amor e/ou do Vinho:

Como entre outros, Mário de Sá-Carneiro, José Régio, Miguel Torga, Jorge de Sena, Alexandre O’Neill, Ruy Cinatti, Mário de Cesariny, Raul de Carvalho, António Ramos Rosa, Joaquim Pessoa, ou mais recentes como Luís Brito Pedroso, Henrique Fialho, Ruy Ventura, Alexandra Rodrigues Malheiro, Luís Lima, Daniel Faria, Miguel Martins, João Garção, Alexandre Nave, Fernando Pinto do Amaral, Manuel Neto dos Santos, Maria Lascas, António Cabrita, Jorge Sousa Braga, Alberto Miranda, Fernando Cabrita, Isabel Cristina Pires, Amadeu Baptista, José do Carmo Francisco, Nuno Júdice, Vítor Oliveira Jorge, Nicolau Saião, Nuno Rebocho, Myriam Jubilot de Carvalho, Torquato da Luz, Leonilde Cavaco Alfarrobinha, Fernando Grade, Alice Vieira, Vasco Graça-Moura, Gastão Cruz, Julião Bernardes, Adalberto Alves, Joaquim Evónio, Casimiro de Brito, Armando Silva Carvalho, Maria Teresa Horta, António Salvado, Carlos Garcia de Castro, António Osório, E. M. de Melo e Castro, Eduarda Chiote, Albano Martins, Agripina Costa Marques ou Ana Hatherly, Fernando Pinto Ribeiro, João Rui de Sousa, Eduíno de Jesus, António Ramos Rosa, José da Fonte Santa, Mário Castrim, Egito Gonçalves, Natércia Freire, Guilherme de Faria, isto só para referir alguns dos poetas, que nascidos nos últimos 100 anos em Portugal escreveram sobre o Amor.68

Relativamente a poetas que século XX e na actualidade escreveram sobre Vinho encontramos, entre outros, desde Fernando Pessoa pela voz do seu heterónimo Ricardo Reis, mas também António Botto, António Gedeão, António Ramos Rosa, António Lobo Antunes, Casimiro de Brito, Daniel Maria Pinto- Rodrigues, Fernando de Castro Branco, Herberto Hélder, Ivo Machado, José Miguel Silva, João Rui de Sousa, José Fanha, Luís Graça, Maria Lascas, Natália Correia, Paulo Ramalho, Vasco Graça-Moura e Vitorino Nemésio.

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RAMOS, Inês (Rec., Sel., e org.) Os Dias do Amor. Lisboa: Ministério dos Livros Editores. 2009. SBN: 978-989-8107-09-1. 

 

 

Simbolicamente transcrevemos dois poemas sobre este temática.: de Ricardo Reis “Ouvi Contar Que Outrora, Quando A Pérsia” e de José Fanha “Por um copo de vinho” interpretado por Paulo Guerreiro (Aqui tão perto do Sol – 2002)

Ouvi Contar Que Outrora, Quando A Pérsia

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia Tinha não sei qual guerra,

Quando a invasão ardia na Cidade E as mulheres gritavam,

Dois jogadores de xadrez jogavam O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam O tabuleiro antigo,

E, ao lado de cada um, esperando os seus Momentos mais folgados,

Quando havia movido a pedra, e agora Esperava o adversário.

Um púcaro com vinho refrescava Sobriamente a sua sede.

Ardiam casas, saqueadas eram As arcas e as paredes,

Violadas, as mulheres eram postas Contra os muros caídos,

Trespassadas de lanças, as crianças Eram sangue nas ruas ...

Mas onde estavam, perto da cidade, E longe do seu ruído,

Os jogadores de xadrez jogavam O jogo do xadrez.

 

 

Inda que nas mensagens do ermo vento Lhes viessem os gritos,

E, ao reflectir, soubessem desde a alma Que por certo as mulheres

E as tenras filhas violadas eram Nessa distância próxima,

lnda que, no momento que o pensavam, Uma sombra ligeira

Lhes passasse na fronte alheada e vaga, Breve seus olhos calmos

Volviam sua atenta confiança Ao tabuleiro velho.

Quando o rei de marfim está em perigo, Que importa a carne e o osso

Das irmãs e das mães e das crianças? Quando a torre não cobre

A retirada da rainha branca, O saque pouco importa.

E quando a mão confiada leva o xeque Ao rei do adversário,

Pouco pesa na alma que lá longe Estejam morrendo filhos.

Mesmo que, de repente, sobre o muro Surja a sanhuda face

Dum guerreiro invasor, e breve deva Em sangue ali cair

O jogador solene de xadrez, O momento antes desse

(É ainda dado ao cálculo dum lance Pra a efeito horas depois)

 

 

Dos grandes indif'rentes.

Caiam cidades, sofram povos, cesse A liberdade e a vida,

Os haveres tranquilos e avitos Ardem e que se arranquem,

Mas quando a guerra os jogos interrompa, Esteja o rei sem xeque,

E o de marfim peão mais avançado Pronto a comprar a torre.

Meus irmãos em amarmos Epicuro E o entendermos mais

De acordo com nós-próprios que com ele, Aprendamos na história

Dos calmos jogadores de xadrez Como passar a vida.

Tudo o que é sério pouco nos importe, O grave pouco pese,

O natural impulso dos instintos Que ceda ao inútil gozo

(Sob a sombra tranquila do arvoredo) De jogar um bom jogo.

O que levamos desta vida inútil Tanto vale se é

A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida, Como se fosse apenas

A memória de um jogo bem jogado E uma partida ganha

A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico, A fama como a febre,

 

 

O amor cansa, porque é a sério e busca, A ciência nunca encontra,

E a vida passa e dói porque o conhece ... O jogo do xadrez

Prende a alma toda, mas, perdido, pouco Pesa, pois não é nada.

Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam, Com um púcaro de vinho

Ao lado, e atentos só à inútil faina Do jogo do xadrez

Mesmo que o jogo seja apenas sonho E não haja parceiro,

Imitemos os persas desta história, E, enquanto lá fora,

Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida Chamam por nós, deixemos

Que em vão nos chamem, cada um de nós Sob as sombras amigas

Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez A sua indiferença.

Por um copo de Vinho

Por um copo de vinho te diria onde o mundo começa e se dilata onde a veia rebenta e se desata a fonte da ternura e da alegria

 

 

Por um beijo azul por uma mão dançaria contigo até cair na cama maravilha de faquir

que arranca a luz da lua ao coração

Eu sei no mar a cor dos laranjais e a rota das gaivotas sobre a pele e tudo te diria pão e mel

por um copo de vinho e pouco mais  

No que diz respeito especificamente ao Alentejo, gostaríamos de referir alguns contemporâneos, que vão figurar na Nova Antologia de Poetas Alente  janos, 69

Como: António Pires Ventura, Elisa Valério, Hugo Santos, José Luís Peixoto, António José Chocolate Contradanças, Eduardo M. Raposo, Joaquim Palma, Manuel Gusmão, Maria Lascas, Vítor Encarnação ou ainda António Murteira, António M. Revez, Ana de Sousa, Francisco Naia, Francisco do Ó Pacheco, Henrique Matos, José Orta, José Monarca Pinheiro, Joseia Matos-Mira, Teresa Cuco ou Paulo Barriga, entre outros, poetas estes que, todos sem excepção, abordam entre outras a temática do Amor.

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Este trabalho com publicação para breve, que temos vindo a realizado com a colaboração de César Pires, onde estão representados 50 poetas, com o objectivo de dar continuidade histórica, poética e sociológica ao trabalho publicado por Francisco Dias da Costa, Poetas Alentejanos do Século XX, uma recolha incontornável publicada em 1983 e onde estão representados alguns dos poetas maiores da nossa poesia, alguns já inicialmente citados.

 

 

Capítulo IX