A atuação de Luís Saia como chefe da regional paulista foi decisiva para a defesa da memória de cidades e de nosso patrimônio edificado, bem como para a inserção, no cenário nacional, na arquitetura colonial paulista. A importância do legado de Saia é evidente, e se confirma através dos diversos aprofundamentos e questionamentos vinculados às suas pesquisas e interpretações, especialmente com relação ao tema da arquitetura colonial paulista e das casas bandeiristas.
Nascido em 16 de outubro de 1911 no interior do estado de São Paulo, em São Carlos, Luís Saia filho era o quarto filho de José Saia e Filomena Sciuli, imigrantes italianos. José Saia imigrou da Itália para o Brasil em fins dos anos 1880, estabelecendo-se primeiramente em Campinas, para trabalhar na Companhia Paulista de Estradas de Ferro, trabalhando nas oficinas de marcenaria desta companhia. Em 1910 a família se transfere para São Carlos, onde, em 1925, seu pai cria uma pequena fábrica de móveis de madeira, especializada na fabricação de camas patente, a Industrial Gelsomino Saia, local em que o jovem Saia desenvolveu habilidades no entalhe deste material. Posteriormente, a fábrica
é ampliada e diversifica os itens produzidos, mudando de nome para Indústria de Móveis G. Saia Ltda, e manteve suas atividades até 19741.
Entre os anos de 1919 e 1922, cursou o primário no Grupo Escolar Paulino Carlos, e em 1924 foi transferido para o Curso Primário no Colégio Diocesano, onde cursou também, entre 1926 e 1928, o Ginasial, sendo ambos os colégios em São Carlos. Em 1929, Saia se mudou para Campinas a fim de estudar no colégio Culto à Ciência, permanecendo "até o 5o ano", segundo o currículo de Saia elaborado em 1974.
Figuras 11 e 12. Imagens do currículo de Luís Saia. Fonte: Arquivo IPHAN/SP.
Mudou-se para São Paulo por volta de fins de 1930 e o início de 1931, onde realizou o curso preparatório para ingresso na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, tendo ingressado em 1932, iniciando o curso de engenheiro-arquiteto, e se graduou somente dezesseis anos depois, em 1948. Teve ativa participação em vários acontecimentos no início dos anos 1930, já se iniciando no ambiente cultural paulistano.
Participou da assembléia de fundação da Sociedade de Estudos Políticos, realizada em 12 de março no Salão de Armas do Clube Português, presidida por Plínio Salgado, e integrou o Batalhão de Engenharia das Forças Revolucionárias de São Paulo no levante paulista contra governo provisório de Getúlio Vargas2 na chamada 'Revolução Constitucionalista'.
Em 1935, Mário de Andrade assume o cargo de Diretor do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo3. Não se sabe ao certo quando Saia e Mário se conheceram4, mas é notório que construíram uma grande amizade, compartilhada com a musicóloga Oneyda Alvarenga. Mais que amigo, Mário também foi um professor para Saia, que preferia o autodidatismo e a orientação do amigo mais velho às aulas enfadonhas da Politécnica5. A partir desse envolvimento, ainda em seus anos de formação, Saia colaborou com Mário na elaboração do anteprojeto da lei do SPHAN, órgão em que iniciou suas atividades também como seu auxiliar. Em 1936, Saia fez o Curso de Etnografia e Folclore, realizado por iniciativa de Mário como diretor do Departamento de Cultura6 prefeitura paulistana e ministrado pela etnóloga francesa Dina Lévi-Strauss, ex-assistente do Musée de L´Homme, em Paris, ao mesmo tempo em que passa a ser auxiliar de Mário de Andrade nesse órgão. Em abril de 1937, Luís Saia integrou- se à equipe do SPHAN, indicado por Mário como um de seus colaboradores, juntamente com o historiador Nuto Sant'Anna e, mais tarde, com o fotógrafo Germano Graeser. Esta será a equipe responsável pelas pesquisas destinadas ao levantamento e registro de obras para tombamento e preservação7.
2SODRÉ, João Clark de Abreu. Viagem e repartição: Luiz Saia e o fazer histórico. SIMPÓSIO TEMÁTICO.
Historiografia da arquitetura I e II: métodos, objetos e narrativas - Mesa 1 - Historiadores e historiografias. I ENANPARQ, 2010.
3
ANDRADE, Carlos Roberto Monteiro de [et al.]. Op. cit., 2014, p. 16.
4Segundo Andrade (2014, p. 16), eles se conheceram por volta de 1935; já para Rolim (2006, p. 46) eles se
conheceram no curso de Etnografia e Folclore, promovido pelo Departamento de Cultura, em 1936.
5
MASSERAN, Paulo Roberto. Diálogo atrevido entre a pedra e o tijolo, ou popular e nacional na arquitetura
brasileira, por Luiz Saia e Mário de Andrade. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Ciências e Letras, Assis, 2011.
6
Lowande (2010, p.70) afirma que "este curso foi providenciado pelo então Diretor do Departamento de Cultura, Mário de Andrade, que estava preocupado em dotar as pesquisas sobre os aspectos da cultura popular nacional de uma postura mais consistentemente científica, para o que seria necessário formar folcloristas e etnógrafos práticos , portadores de um instrumental metodológico eficaz para realização de pesquisas de campo". Sobre o curso de Etnografia e Folclore, ver: LOWANDE, Walter F. F. Os Sentidos da Preservação: história da arquitetura e práticas preservacionistas em São Paulo (1937-1986). Dissertação (Mestrado) - UFOP, Mariana, 2010; SODRÉ, João Clark de Abreu. Arquitetura e viagens de formação pelo Brasil (1938-1962). Dissertação (Mestrado) FAUUSP, 2010.
Com apenas vinte e seis anos, em 1938, chefiou e coordenou a equipe que realizou a Missão de Pesquisas Folclóricas do Departamento de Cultura, que percorreu os estados do norte e nordeste do Brasil, realizando registros sobre danças, músicas e costumes, recolhendo peças de artesanato popular, fazendo fotografias, filmes e desenhos8. Nessa missão, surgia um modo de investigação, através da observação direta dos fatos, dos fenômenos, e seu questionamento, que o acompanharia por toda a vida9. Já nesse momento Saia registrava suas observações em cadernetas de campo, onde estão descritas detalhadamente vários tipos de manifestações folclóricas. Em um primeiro momento, ele manifesta uma maior preocupação com o folclore e seus participantes, porém seu olhar se direciona, gradualmente, para o registro dos diversos tipos da arquitetura vernácula10, seus elementos e técnicas construtivas.
Figura 13. Capa do livro Escultura Popular Brasileira; Fonte: Biblioteca Luís Saia, IPHAN-SP.
8
Os dois primeiros volumes com o material colhido na Missão, denominados Xangô, foram publicados em 1948. Em 1949, foram publicados o terceiro e o quarto volumes, denominados Catimbó, e o quinto volume, com o nome Chegada de Marujo.
9
MASSERAN, Paulo Roberto. Op. cit., 2011, p. 303. 10
O termo 'arquitetura vernácula' é discutido em: TEIXEIRA, Claudia Mudado. Considerações sobre arquitetura vernácula. In: Cadernos de Arquitetura e Urbanismo, v.15, n.17, 2º sem. 2008, p. 29-45.
Figura 14. Material apreendido em Xângos, sendo várias peças doadas para a Missão, Recife – PE, mar. 1938. Fonte: Foto Luís Saia – MPF 0482, no DVD Missão de pesquisas folclóricas: cadernetas de campo.
Quando Mário foi convidado, ainda em 1937, a ocupar o cargo de assistente técnico no SPHAN, chegou a indicar o nome de Saia:
[...] quanto à indicação dum indivíduo pro SPHAN matutei duas horas e depois mais tempo matutei dialogando com o Sérgio Milliet. É difícil... [...]
No caso de ser possível experimentar e não dando certo retirar o cargo, poderia propor um rapaz bastante inteligente, estudante de engenharia, dedicado à arquitetura tradicional, não passadista: Luiz Saia. Tem o defeito de ser integralista. Serviria havendo este complexo de inferioridade? Sei que é ativo e como vivo em contato com ele, poderia orientá-lo bem11.
Contudo, Mário aceitou o cargo, e Saia passou a atuar como um de seus principais colaboradores, cuja atuação extrapolou os limites dos levantamentos de campo e dos registros gráficos, tendo se destacado intelectualmente, nesse período, nos trabalhos realizados junto ao órgão, onde projetou e realizou inúmeras obras de restauração.
Em janeiro 1938, Mário pede demissão do SPHAN, devido ao fato de passou a ser proibido, na gestão de Fábio Prado, o exercício de cargos de acumulação, mesmo que
11
Trecho de carta de Mário de Andrade a Rodrigo Mello Franco de Andrade, de 06/04/1937. ANDRADE, Mário de. Mário de Andrade: cartas de trabalho. Correspondência com Rodrigo Mello Franco de Andrade, 1936-1945. Brasília: SPHAN, Pró-Memória, 1981, p.65.
não remunerados. Desde o final de 1937 ele negociava com Rodrigo sua substituição, sugerindo, num primeiro momento, o nome de Paulo Duarte12. No entanto, prevaleceu o nome de Luís Saia, já cogitado anteriormente. Um ano após o falecimento de Mário, ocorrido em 1945, Saia foi nomeado chefe13 do 4o Distrito14 do então SPHAN, cargo que ocupou até seu falecimento em 1975. Luís Saia utilizou sua autonomia dentro do órgão para, a partir da aspiração de originalidade buscada na tradição colonial, possibilitar o reconhecimento dessa arquitetura no estado de São Paulo, procurando estudar as preferências ligadas à organização espacial, os programas, o esquema construtivo e a expressão plástica das habitações paulistas, relacionando-as às condições topográficas, os partidos disso extraídos e as restrições apresentadas.
É importante ressaltar a preocupação de Saia com a proteção do patrimônio natural, enfrentando interesses poderosos, durante a ditadura militar, como em sua luta, ao lado do geógrafo Aziz Ab'Saber, em defesa da Serra do Mar, e que redundou na criação do Parque Estadual da Serra do Mar15. Apesar da existência de um dispositivo legal de proteção para os monumentos naturais, o SPHAN pouco utilizou este instrumento jurídico, e foi somente a partir da década de 1960 que ações efetivas foram
iniciadas no sentido de preservação deste patrimônio. Na Itália, a preocupação com o
patrimônio natural tem origem ainda "[...] tra la fine dell'Ottocento e la prima metà degli anni venti del Novecento", quando "[...] si svilupparono dibattiti, idee e progetti attorno al concetto di 'protezione' del patrimonio naturale e paesaggistico"(DOMENICALI, 2002, p. 53). As primeiras leis a terem como objeto as 'belezas naturais' datam de 1922 e 1939, que contou com a decisiva participação de Giovannoni.
Além de sua atuação no âmbito do patrimônio, Saia teve uma atuação diversificada, do campo do restauro ao urbanismo, passando pela historiografia da arquitetura, história urbana e projeto de arquitetura, ensino de planejamento urbano e
12O paulista Paulo Duarte (1899-1984), advogado e também poeta, jornalista e professor universitário,
atuava em campanhas de caráter cívico-político e cultural. Até 1937, quando se instalou o Estado Novo, Paulo foi consultor jurídico municipal e atuou ativamente na criação do Departamento de Cultura da capital paulista, dirigido por Mário de Andrade. Para conhecer melhor a experiência do DC, ver: DUARTE, Paulo. Mário de Andrade por ele mesmo. São Paulo: Hucitec, 1977.
13
Decreto de 24 de janeiro de 1946, publicado no Diário Oficial da União de 26 de janeiro de 1946.
14
O 4o distrito do Sphan abrangia São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
crítica de arquitetura, filiados à vertente moderna ensino, e tinha interesse também pela escultura popular, desenho, cinema16.
Podemos situar a atuação urbanística de Luís Saia entre os anos 1950 e 1960, quando ele elaborou diretrizes de ocupação e organização urbanas e experimenta soluções urbanísticas diversas.
Figura 15. Luís Saia na década de 1970. Fonte: Acervo pessoal de Augusto Ramasco Pessoa. In: Andrade, 2014.
Nesse momento era clara a inexistência de um modelo de planejamento urbano, além de serem ínfimos os recursos predestinados para tal. É nesse período que Saia vai elaborar Planos Diretores para algumas cidades do interior de São Paulo, e também para Goiânia, seu último projeto urbanístico. Entre 1951 e 1952, elaborou o plano de São José do Rio Preto, a primeira tentativa de estudo de um plano para uma cidade do interior paulista. Em 1952, foi contratado para elaborar o Plano Diretor de Lins; em 1955, para desenvolver o Plano Diretor de Águas de Lindóia17, considerado de caráter inovador para as cidades brasileiras daquele momento, e, entre 1960 e 1964, para trabalhar nas propostas para o plano de Goiânia18.
16
Ibidem, p. 10.
17A respeito deste plano, ver: FRANCO, A. C. Entre o Racional e o Pitoresco: O Plano Diretor de Luis Saia para
Águas de Lindóia, 1956. In: V Seminário Nacional DOCOMOMO. São Carlos. Anais do V Seminário Nacional DOCOMOMO, 2003.
18
Sobre um levantamento completo das atividades de Luís Saia na área do planejamento urbano ver: MOTA, Juliana Costa. Planos diretores de Goiânia, década de 60: a inserção dos arquitetos Luís Saia e Jorge
Em seu currículo, Saia elenca outras atividades: foi membro do Conselho do Museu de Arte Moderna de São Paulo, do Júri de seleção da 1ª Bienal de Arquitetura, do Conselho da Fundação Álvares Penteado, da Comissão de Cultura da Prefeitura Municipal de São Paulo, da Comissão de seleção para a Bienal de Veneza (1960), da Comissão de Exposição do Barroco da Fundação Álvares Penteado e da Comissão Estadual para o estudo do Museu do Ferro.
Merece destaque também a atividade docente de Luís Saia19. Ficher (2005, p. 339) afirma que ele foi professor da cadeira "Arquitetura no Brasil", apesar de nunca ter feito parte, como professor, do quadro de funcionários da USP. Foi também professor livre- docente da Escola de Arquitetura de Minas Gerais, que hoje pertence à UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), sendo que, para obter o título, Saia apresentou, em 1958, a tese não publicada Residências Rurais no Brasil Colônia, estudo que pode ser considerado uma continuação de seu artigo de 1944 sobre as residências rurais paulistas. Alem disso, organizou o Curso Especial de Planejamento, na Faculdade de Arquitetura Mackenzie, e o Curso Extensivo de Planejamento, no IAB/SP, além de ter lecionado nas faculdades de Arquitetura de Salvador, Porto Alegre e Recife (FICHER. Op. cit., p. 339).
Ele também participou, juntamente com Nestor Goulart Reis Filho e Ulpiano Bezerra de Menezes, da coordenação do 1º Curso de Restauração e Conservação de Monumentos e Conjuntos Históricos, realizado em parceria pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT) e Departamento de História da Arquitetura e Urbanismo da FAU-USP.
A ação de Saia foi de suma importância para que a regional paulista do SPHAN adquirisse personalidade própria, marcada pela individualidade deste arquiteto, ante o nível federal da instituição, alcançando relativo sucesso na preservação de objetos representativos de uma "face paulista" da nacionalidade.
Wilheim no campo do planejamento urbano. Dissertação (mestrado). – Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, 2004.
19
A esse respeito, ver: PEREIRA, Juliana Melo. Admiráveis insensatos. Ayrton Carvalho, Luís Saia e as práticas no campo da preservação no Brasil. Dissertação (mestrado). Recife-PE, UFPE, 2012, p. 85.
Figura 16. Comemoração do aniversário de Luís Saia em outubro de 1970. Fonte: Arquivo da Superintendência Regional do IPHAN/SP.