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Como vimos no capítulo anterior, com o advento da abertura política e o movimento de redemocratização brasileira, a televisão, de maneira geral, buscou renovar no seu formato e conteúdo – não à toa nesse período foi criado o Roda Viva. Além dessa inovação, a televisão brasileira começou a fazer parcerias com fundos de

investimento público, que passaram a incentivar a divulgação da C&T nos meios de comunicação televisivos. Segundo Claudia Juberg, em artigo sobre os primeiros programas de divulgação da ciência na televisão brasileira, houve o “boom da divulgação científica e, especialmente, do jornalismo científico nesse período” (Juberg, 2003: 24). Era uma forma de democratizar a informação em ciência e tecnologia, contribuindo para a discussão dos problemas sociais e da dependência do país em relação ao exterior.

O texto da nova Constituição Federal, promulgada em 1988, trazia mudanças significativas na área de C&T. O capítulo IV da seção III trata em seu artigo 218 a seguinte questão: "O Estado promoverá e incentivará o desenvolvimento científico, a pesquisa e a capacitação tecnológicas"87. Dessa forma, o Estado obteve um papel estratégico nas dimensões da pesquisa científica, tecnológica e formação de recursos humanos e apoio de empresas para investimentos em pesquisa e desenvolvimento. A Constituição também previa a possibilidade de os estados vincularem recursos orçamentários para as atividades de C&T, impulsionando a criação de diversas fundações estaduais de amparo à pesquisa ou fundos de C&T.

Assim, grande parte dos fundos governamentais de investimento às linhas de fomento à pesquisa e divulgação, entre os quais FINEP, Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e outros, passaram a investir em produções brasileiras voltadas para a divulgação da ciência. Foi nesse contexto, por exemplo, que surgiu o Nossa Ciência, em 1979, por iniciativa da TV Educativa do Rio de Janeiro, o Globo Ciência, Globo Ecologia, Globo Rural, todos da Fundação Roberto Marinho, na década de 1980, entre outros.

Embora seja importante pontuar que as raízes das políticas de investimento à divulgação científica estejam vinculadas à própria história institucional da ciência no Brasil, cujo início remonta à chegada da Corte Portuguesa no século XIX, foi nos anos 1980, com a criação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) que o país viveu um momento peculiar de investimento não só em política para o desenvolvimento de C&T, como também em divulgação e popularização da ciência. Essas experiências, entretanto,       

87 Cf. Brasil. Constituição de 1988. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasil (DF): Senado; 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm

duraram pouco tempo visto que, nos anos 1990, o próprio Ministério de C&T foi extinto no governo Collor, colocado na condição de secretaria. Em 1995, no governo Itamar Franco, o Ministério de C&T foi reestabelecido88.

A maioria dos programas que surgiu nesse período seguiu o gênero jornalístico e documentário, formatos já consagrados pelas emissoras internacionais, entre as quais se destaca a BBC (televisão pública britânica). Em 1964, o canal estreou o programa Horizon com o documentário sobre o teorema de Buckminster Fuller (The world of Buckminter Fuller) e, desde então, se tornou referência na área da divulgação científica. No início, a série alternava narração com voz em off com imagens sobre as pesquisas realizadas e entrevistas com algumas personalidades na área investigada. Ao longo dos anos, entretanto, a narrativa se modificou e, aos poucos, foi adotada a prática de se iniciar o programa com várias questões, geralmente simples e que estão relacionadas ao cotidiano da população, feitas por um narrador com voz em off, que são solucionadas conforme o programa avança, utilizando-se pesquisas e falas dos especialistas.

Segundo Steve Crabtree, atual editor chefe do programa, além das mudanças de estilo e narrativa, a série Horizon acompanhou as diferentes concepções e visões sobre ciência.

É possível perceber que os documentários dos anos 1960 tinham um tom entusiasta e confiante no desenvolvimento científico. Mas, nas décadas seguintes, começam a aparecer programas mais críticos; passaram a apontar, por exemplo, os impactos negativos da tecnologia no meio ambiente.89

Para ele, programas como o Horizon são necessários na sociedade democrática, pois além de informar, as séries sobre ciência, se bem-feitas, problematizam e provocam a curiosidade e o envolvimento das pessoas com o tema. “Mais do que o fato, nos interessa contar uma boa história. Ela não precisa ser simplória e pobre, ao contrário. A gente mistura depoimentos de especialistas com imagens sobre suas pesquisas em desenvolvimento”, completou.

      

88 Cf. Lemos, Dannyela da Cunha, 2013

Grande parte da comunidade científica britânica, no entanto, acusa o programa de não citar devidamente as fontes de pesquisa e ignorar os passos de uma descoberta científica. Ao ser questionado, Crabtree afirmou

Evidentemente estamos mais interessados em mobilizar o telespectador para a curiosidade do que compreender a dinâmica da produção científica, o que não significa que não realizamos um programa com certo rigor aos padrões próprios da ciência, por exemplo, procuramos em todo documentário apresentar diferentes visões sobre o tema abordado.

Além do Horizon, a BBC possui um departamento de jornalismo voltado para pesquisar, apurar e produzir matérias sobre ciência – é um andar inteiro do prédio reservado só para eles, com as melhores condições que um jornalista da área de divulgação da ciência poderia desejar.

Outra série importante é a norte-americana Nova, da televisão pública PBS, também no formato documentário, com 50 minutos de duração. As séries do programa Nova são exibidas por mais de 300 emissoras em todo o território estadunidense e em mais de 100 países estrangeiros90.