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Innholdskrav: Registreringsdokument og verdipapirdokument

4. Prospektets innhold og format

4.5. Hvordan avveies utstederens byrder og investorens behov for informative prospekter i

4.5.4. Innholdskrav: Registreringsdokument og verdipapirdokument

Em 28 de junho de 1998, com produção e apresentação de Pedro Rogério e minha, estreava o Sem Fronteiras, desde então cadastrado como ação extensionista sob minha responsabilidade como coordenador, junto à Pró-Reitoria de Extensão da UFC. O bordão de então era a diversidade de línguas, povos e culturas; o Sem Fronteiras era ―o programa que fala várias línguas‖. No início, era gravado e editado; desde essa época veiculado aos sábados às 14 horas, mas com uma reprise na segunda-feira no mesmo horário, que veio a ser extinta. Programa temático, seu formato já envolvia entrevistas, músicas, poemas, divulgações de eventos culturais, mas obedecia então à escolha de um idioma a partir do qual alguns dos países em que o falam eram enfocados, através de quadros radiofônicos sobre línguas, literatura, história, música e outros tópicos culturais. Na estreia, por exemplo, o francês – por ser minha segunda língua – foi o eixo. Falamos de França e Québec, com professoras intimamente ligadas aos dois países por neles terem vivido, contemplando os temas que acabo de elencar. A ideia era que as línguas nos conduzissem na viagem pelo mundo e através das eras. Era uma vez o tempo em que era assim.

Depois o programa passou a se chamar Sem Fronteiras: Plural pela Paz, continuou a contemplar as línguas, mas ampliou seus horizontes, abolindo de fato fronteiras que restringissem os temas abordados, ao eleger como mote ―a reverência poético-radiofônica à diversidade da humanidade, à sua pluralidade de línguas, povos, religiões e idades‖. Destaco que sempre fechei o bordão citando a diversidade de idades, o que não me parece ter despertado grande atenção dos ouvintes, embora dizer por último alguma coisa seja um recurso radiofônico para destacá-la. Tenho sempre feito isso por ter vivenciado a experiência do trânsito meu entre gerações com deleite e ter entretanto amargado discriminações de quem tinha mais idade, precoce que era em meu convívio com os outros. Atualmente, refiro-me à diversidade planetária, posto que considero em verdade a diversidade da vida: não somente a pluralidade da humanidade (linguística, cultural, etária, espiritual...), mas a pluralidade de seres vivos, na perspectiva do princípio biocêntrico (Toro, s/d)57, que busca superar o ranço antropocêntrico em que ainda se limita a atitude da maioria dos seres humanos. No meu entender, a etimologia do termo ―biocêntrico‖ revela o que ele expressa: no centro do universo está, não a humanidade, mas a vida – à qual todos os seres estão conectados.

Quando Pedro precisou dedicar-se à sua formação acadêmica, passei a produzir e apresentar sozinho o Sem Fronteiras: Plural pela Paz, na mesma época em que gestava a ideia de fazer um programa de rádio para surdos. Pode parecer... absurdo, mas esclareço. Eu fazia, no segundo semestre de 2002, um curso de LIBRAS, oficialmente Língua Brasileira de Sinais – ou Língua de Sinais Brasileira, como preferem alguns, com quem concordo, uma vez que assim se compõe o sintagma equivalente em outros idiomas (Langue des Signes Française, Lengua de Signos Española, exempli gratia). Quando menino, fizera judô com um judoca surdo e morava (onde hoje tornei a morar) perto do Instituto Cearense de Educação de Surdos. Ver constantemente, desde pequeno, os surdos sinalizando, me impressionava pela fluência de sua comunicação e pelo fato de que aquela língua – viso-espacial – era diferente das que eu estudava, todas orais: o português e o francês, mais tarde o inglês e o espanhol.

Ao começar a estudar LIBRAS (que ainda não aprendi), vivenciei mais de perto o desafio quotidiano da situação social dos surdos. Se o preconceito linguístico é perversamente eficaz e dissimuladamente camuflado, no caso dos surdos, uma barreira enorme e uma distância abissal se interpõem entre eles e a sociedade, em especial no âmbito dos estudos e do trabalho, mas também do lazer e da própria família. Em diversos casos, são considerados

57 O Princípio Biocêntrico põe sua prioridade absoluta nas ações que permitem a conservação e evolução da vida, estimulando a expressão dos instintos e o desenvolvimento afetivo através das protovivências e vivências integradoras (Toro, sem data, p.7).

intelectualmente incapazes. Em outros, chegam a ser ignorados e isolados, inclusive do convívio com outros surdos, necessário por questões linguísticas, afetivas, sociais... E dificilmente a expressão escrita deles na língua materna de seu país é aceita pelos demais falantes alfabetizados no mesmo idioma, principalmente professores de línguas e... empregadores, por peculiaridades que apresentam, como a dificuldade de flexionar os verbos que não têm desinências em LIBRAS ou de adotar conjunções que não existem nesse idioma. Existe, da parte de movimentos organizados pelos surdos e pessoas a eles ligadas, uma maioria bem expressiva que reivindica uma escola pra surdos, proposta contrária à inclusão oficial, como concebida pelo governo, em resposta a outros movimentos organizados por pessoas com deficiência, de uma escola inclusiva para todos. Dar voz no ar àquelas pessoas seria a meta essencial do novo programa.

Com um intérprete presente no estúdio, o surdo pode expressar para os ouvintes da emissora o que pensa, sente e vive. Inspirado pela amplidão do Sem Fronteiras: Plural pela Paz, eu me interroguei por que motivo limitaria aos surdos essa ideia. Por que não contemplar as diversas deficiências? As pessoas com deficiência física, intelectual, sensorial seriam convidadas e, se quisessem, colaboradoras (ouvintes ou convidados que passam a contribuir com a equipe de produção) do Todos os Sentidos desde sua estreia em 8 de janeiro de 2003 com o bordão: ―para dar voz às pessoas com deficiência‖. Recentemente, por colocar em dúvida se o significado de ―dar voz a alguém‖ (ainda que em rádio) não poderia ser interpretado como algo paternalista, embora essa não seja minha intenção nem minha atitude, passei a adotar: ―para levar ao ar a voz das pessoas com deficiência‖.

Trabalhar com as pessoas com deficiência me leva justamente a me questionar a cada programa e no dia-a-dia. Certezas são postas em xeque, dúvidas dão bons frutos que adubam a mudança. A própria expressão ―pessoas com deficiência‖ é uma opção em sintonia com o que propõe e adota desde os anos 1990 diversos setores e instituições com elas envolvidos, inclusive o Movimento das Pessoas com Deficiência no Ceará (MPcD), o Movimento Internacional de Pessoas com Deficiência, que têm como eloquente lema ―Nada sobre nós sem nós‖, e a ONU na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Em textos jurídicos e mesmo em alguns científicos, adota-se em geral ―pessoas portadoras de deficiência‖. Elas argumentam que não são ―portadoras‖ da deficiência. ―Cego‖, ―surdo‖, ―pessoa com deficiência motora‖, ―pessoa com síndrome de Down‖ são designações aceitas e desejáveis. Os surdos reivindicam que não se diga ―surdo-mudo‖, mas tão somente ―surdo‖. E outros termos, que carregam uma carga pejorativa, devem

evidentemente ser abandonados, tais como: ―deficiente‖, ―excepcional‖, ―inválido‖, ―aleijado‖, ―mongoloide‖, ―retardado‖, ―ceguinho‖, ―mudinho‖, ―surdinho‖.

A denominação utilizada para se referir às pessoas com alguma limitação física, mental ou sensorial assume várias formas ao longo dos anos. Utilizavam-se expressões como "inválidos", "incapazes", "excepcionais" e "pessoas deficientes", até que a Constituição de 1988, por influência do Movimento Internacional de Pessoas com Deficiência, incorporou a expressão "pessoa portadora de deficiência", que se aplica na legislação ordinária. Adota-se, hoje, também, a expressão "pessoas com necessidades especiais" ou "pessoa especial". Todas elas demonstram uma transformação de tratamento que vai da invalidez e incapacidade à tentativa de nominar a característica peculiar da pessoa, sem estigmatizá-la. A expressão "pessoa com necessidades especiais" é um gênero que contém as pessoas com deficiência, mas também acolhe os idosos, as gestantes, enfim, qualquer situação que implique tratamento diferenciado. Igualmente se abandona a expressão "pessoa portadora de deficiência" com uma concordância em nível internacional, visto que as deficiências não se portam, estão com a pessoa ou na pessoa, o que tem sido motivo para que se use, mais recentemente, conforme se fez ao longo de todo este texto, a forma "pessoa com deficiência". Esta é a denominação internacionalmente mais freqüente, conforme demonstra Romeu Kazumi Sassaki.

(http://www.mte.gov.br/fisca_trab/inclusao/lei_cotas_2.asp, acesso em 16/11/2011)

Com o tempo, a partir de 2005, outros assuntos relativos à saúde e ao bem-estar passaram a ser também enfocados. Obesos, idosos, hipertensos, todos nós estamos sujeitos a desenvolver uma deficiência – definitiva ou temporária. Além disso, temas outros como acupuntura, meditação, espiritualidade, literatura, música – sempre com as pessoas com deficiência relacionados – passaram a ser foco do Todos os Sentidos, tendo em vista que a arte, a ciência, o lazer, os caminhos de autoconhecimento e dos cuidados consigo a todos interessam e envolvem.

Passaram a participar artistas, como Thiago Sandes, músico que é autista, e Levi Pimenta, pessoa com síndrome de Down que é poeta e brincante de maracatu. Outra colaboradora e ouvinte constante é Mariana Cavalcante, também pessoa com Down, que marcou minha reflexão sobre a educação quando, em resposta a uma pergunta minha no ar sobre a aprendizagem e interação sua na escola, me respondeu: ―A escola, Henrique, é a vida. A gente começa a aprender em casa, com a mãe da gente. Os professores também são importantes, mas a gente aprende é na vida‖.

Sentidos

Para as pessoas com deficiência. Com música de Rodrigo Bezerra. I

Eu componho gestos que tu não escutas. Eu escrevo letras que tu não sentes. Eu digo palavras que tu não degustas. Eu cultivo sonhos que tu não entendes. Eu desenho melodias que tu não desfrutas. Eu colho o fruto filho das tuas sementes.

II

Eu caminho no chão do improvável. Eu tanjo as cordas do intocável. Eu bailo nas curvas do invisível. Eu seduzo, de corpalma sensível. Eu acolho o carinho do esquecido. Eu colho o afeto do enlouquecido. Eu busco os sons silenciados. Eu reúno os dons do fragmentado. Eu vejo os segredos do escondido. Eu cativo as graças da preferida. Eu sinto as intenções impronunciadas. Eu pressinto a hora da mudança chegada. Eu leio mistérios em todos os timbres. Eu te desafio a tentar ser simples.

(BELTRÃO, 2009, p.21)

A cada emissão, eu saio transformado. Os afetos, o tempo, os encontros, a poesia, as vozes no ar – quase as posso ver, sinto-as quase a me tocar. Do rádio que ouvia antes de ser comunicador ao rádio que faço, muita coisa mudou no mundo e em mim. Se no Todos os Sentidos, as pessoas com deficiência me surpreendem e ensinam detalhes e profundidades inesperadas, no Sem Fronteiras: Plural pela Paz, o leque da radiofonia se espalha poeticamente, levando-me da arte à ciência, da política à tecnologia, de uma língua a outra, em meio a diversas culturas, em meio a muitas idades. Se em sala de aula e no palco, o comunicador me acompanha, no ar vibra um professor. Em ambos os programas, se o poeta me inspira, se o comunicador me conduz, o educador não me abandona. Comecei a carreira docente em 1987, antes de chegar ao rádio, em 1996. Tudo está visceralmente relacionado – em mim. Além disso, a Rádio Universitária FM é uma emissora educativa, incrustrada na UFC. E ali atuo como formador de outros comunicadores, os estudantes de Jornalismo. Com essas pessoas que atuam como assistentes de produção, muito tenho aprendido. Diversos trabalhos apresentados nos Encontros de Extensão da UFC foram premiados na categoria Comunicação. Muitas novidades entram pela janela aberta para o verde onde viceja a juventude. Viva os que virão! Mas sobretudo viva o encontro entre as gerações!

Da emoção de ouvir à emoção de fazer. Sempre ao encontro com o outro vinculado. Para mim, os ouvintes fazem o rádio ter sentidos. Todos.

Rádio Experiência

Caríssimos ouvintes, obrigado Pela atenção a mim tão dispensada Nossa programação se encerra agora

Mas de teimosa, volta amanhã Plateia de meus sonhos, tão amada O canto é o chamado pra viver

Quando o show terminar, levem pra casa Não deixem que ele morra por aqui Eu quero alegria em cada voz Que a antiga espera tenha a sua vez E o sonho que carrego em minhas costas É o laço de união entre vocês, nós

(TUNAI e NASCIMENTO)