O topos clássico da glória das armas e das letras marca de modo profundo a matriz épica dos autores gregos e latinos. Por um lado, cabe aos escritores fazerem-se eco da justa fama dos heróis495. Por outro, o reconhecimento da glória implica o sacrifício, o
despojamento e a devoção da própria vida496.
A noção da glória coletiva ultrapassa a da glória individual, merecendo a apologia épica, tanto da Eneida como da História liviana. Celebrar a pátria é motivo de orgulho para o poeta, como reconhece Horácio497 e se propõe Propércio498. Numa consciência messiânica
comparável à da História de Israel, Roma é governada pela égide divina499. Mas, em
contrapartida, a reflexão sobre a decadência coletiva constitui um aviso pedagógico que deriva da consciência ética do escritor500.
Na catábasis do Livro VI, Anquises passa em revista proléptica o longo cortejo dos heróis romanos, introduzindo o seu discurso quase fílmico com a tônica da glória: “Vou
493 Ib. 494
Cf. Georges Dumézil, Mythe et Épopée, I, Paris, Gallimard, 1969.
495 Cf. Il., VI, 357-359; Píndaro, Nem.VI, 30 SS ; VII, 11 ss. ; IX, 6 ss.; Pyth., VI, 6 ss.; Cíc., Pro Archia, VI, IX; Virg., Geórg., III, 46-49; Hor., Epist., I, 3, 7-8; Carm., I, 25, 11; IV, 8, 11 ss; 9, 13 ss.; Ov., Amor, III, I, 25; Pônt., IV, 8, 43 ss.; Sén., Ep., XXI; A. Estácio, Theb., X, 445-446.
496 Cf. Il., VI, 357-359; Cíc., Part. Orat., 25, 90 ; Hor., Ars Poetica, 412 ss ; Ep., I, 11, 22 ss.; Juv., X, 3 ss.; Marcial, Epigr., V, 13. 16; XI, 3; A. Est., Theb., XII, 72 ss.
497
Cf. Ars Poetica, 285 ss. 498 Cf. Propércio, IV, I, 67 ss.
499 Cf. Cíc. , Catil., III, 9; Salúst., Bell. Jugurth., XIV, 19. 500
Cf. Salúst., De Coniurat. Catilin., II-XIV ; T. Lív., Pref. ; Ov., Metam., XV, 418 ss., Tácito, Hist., II, 26; Juv., IV, 144 ss. Lucano, Phars., I, 70; VII, 420.
descrever-te qual a glória que há-de seguir / a Dardânia geração, quais os netos que virão da Ítala gente, / almas ilustres, futuros herdeiros do nosso nome”501.
No escudo de Enéias, o “Deus Ignipotente” forja “os Ítalos feitos / e os Romanos triunfos”502. Nas ruas de Roma, a vitória de Augusto na batalha de Ácio é celebrada com
manifestações de júbilo glorioso503.
Mas, na ótica humanista de Virgílio, o sucesso de Roma deriva, sobretudo, da pax
armata, índice de civilização e não de dominação. Anquises, depois de descrever as futuras
guerras civis, faz um veemente apelo à paz interna: “Não, filhos!, não habitueis os ânimos a tantas guerras, / nem volteis as vossas forças potentes contra o coração da pátria. E tu, em primeiro lugar, amerceia-te, tu, que descendes do Olimpo, / lança fora da mão as armas, sangue do meu sangue!”504. Em relação às guerras com os outros povos, o conselho
humanista da conciliação pacífica, na clemência para com os vencidos e na punição dos orgulhosos, garante a arte da política externa505.
Nos Campos Elísios, juntamente com os “homens feridos a lutar pela pátria”506,
encontram-se “os que foram sacerdotes castos, quando eram vivos”507, mas também os
poetas e os cientistas virtuosos508. Os artistas do bronze e do mármore, bem como os
advogados e juízes, os astrônomos e astrólogos, não são esquecidos no cortejo dos heróis romanos509. É a glorificação dos homens das letras e da ciência.
Iracema, na ótica dos povos indígenas, proclama também a glória das respectivas
vitórias. A “virgem dos lábios de mel” pertence à “guerreira tribo da grande nação tabajara”510. Por sua vez, Martim pertence aos “guerreiros brancos, que levantaram a taba
nas margens do Juaguaribe, perto do mar, onde habitam os pitiguaras, inimigos da tua
501
Aen., VI, 756-758. 502
Aen., VIII, 627.628.
503 “Fremiam as ruas de alegria, de jogos, de aplausos. / Em todos os templos, há coros das mães, em todos os altares. / Ante eles caem por terra novilhos imolados” (Aen., VIII, 717-719).
504
Aen., VI, 832-835.
505 “Tu, Romano, sê atento a governar os povos com o teu poder / – estas serão as tuas artes – a poupar os vencidos e derrubar os orgulhosos” (Aen., VI, 851-853).
506
Aen., VI, 660. 507 Aen., 661.
508 “os que foram vates pios, que falaram de modo digno de Febo, / ou os que fizeram descobertas que melhoraram a vida” (Aen., VI, 662-663).
509 “Outros modelarão, bem o creio, bronzes com vida / e sem dureza; extrairão do mármore seres animados; / defenderão melhor as causas; medirão com o compasso / o curso dos céus e anunciarão o nascer dos astros” (Aen., VI, 847-850).
nação”511. A comparação dos tabajaras ao gavião elucida a consciência cultural desta glória
guerreira512. O tom bélico da sua postura, patente no registo sonoro, numa espécie de eco
onomatopaico (“troa e retroa”) da pocema ou alarido coletivo, marca expressivamente a gesta épica dos heróis513.
Na noite dos sonhos dos guerreiros, no bosque sagrado, depois da referência aos “mancebos, que ainda não ganharam nome de guerra por algum feito brilhante”514, o
arquétipo do herói e da sua glória anima o envolvimento onírico em futuras batalhas, produzido pelo “vinho da jurema”515.
Após o regresso de Martim, Poti é glorificado como um herói cuja “fama cresceu e ainda hoje é o orgulho da terra, onde ele primeiro viu a luz”516. A gesta dos guerreiros
brancos continuaria com a vinda de Albuquerque, nas “margens do Mearim”, castigando, com Martim e Camarão, “o feroz tupinambá” e expulsando “o branco tapuia”517.
No entanto, os gestos de paz também são simbolizados no rito de deixar tombar e calcar no chão a arma do chefe, em nome da prudência e em contraste com o ímpeto colérico deste518. A guerra desperta o rejuvenescimento primaveril no corpo decrépito do
guerreiro, mas quem não sabe recuar estrategicamente, abrindo caminhos de paz, também não é digno de celebrar o canto, o membi da vitória. A obstinação na cólera impede, porém, tal discernimento sensato e as acusações a quem o vislumbra chovem como uma
511
Ib., cap. III, p. 18. 512
“- O gavião paira nos ares. Quando o nambu levanta, ele cai das nuvens e rasga as entranhas da vítima. O guerreiro tabajara, filho da serra, é como o gavião” (Ib., cap. V, p. 21).
513
“Troa e retroa a pocema da guerra.
O jovem guerreiro erguera o tacape; e por sua vez o brandiu. Girando no ar, rápida e ameaçadora, a arma do chefe passou de mão em mão” (Ib. p.22).
514 Ib., cap. XVI, p. 47. 515
“O herói sonha tremendas lutas e horríveis combates, de que sai vencedor, cheio de glória e fama” (Ib., p. 48).
516
Ib., cap. XXXIII, p. 87. 517
Ib.
518 “O velho Andira, irmão do Pajé, a deixou tombar, e calcou no chão, com o pé ágil ainda e firme.
Pasma o povo tabajara da ação desusada. Voto de paz em tão provado e impetuoso guerreiro! É o velho herói, que cresceu na sanha, crescendo nos anos, é o feroz Andira quem derrubou o tacape, núncio da próxima luta?
Incertos todos e mudos escutam:
- Andira, o velho Andira, bebeu mais sangue na guerra do que já beberam cauim nas festas de Tupã, todos quantos guerreiros alumia agora a luz de seus olhos. Ele viu mais combates em sua vida, do que luas lhe despiram a fronte. Quanto crânio de potiguara escalpelou sua mão implacável, antes que o tempo lhe arrancasse o primeiro cabelo? E o velho Andira nunca temeu que o inimigo pisasse a terra de seus pais; mas alegrava-se quando ele vinha, e sentia como o faro da guerra a juventude renascer no corpo decrépito, como a árvore seca renasce com o sopro do Inverno. A nação tabajara é prudente. Ela deve encostar o tacape da luta para tanger o membi da festa. Celebra, Irapuã, a vinda dos emboabas e deixa que cheguem todos aos nossos campos. Então Andira te promete o banquete da vitória” (Ib. p.22).
compensação às próprias limitações519. Andira torna-se porta-voz do humanismo
alencariano, como o de Anquises na Eneida.
A glória dos homens de letras não surge diretamente no romance épico de Alencar. Mas, no “Prólogo da Primeira Edição”, o autor evoca genericamente o “nome de outros filhos” cujo mérito “enobrece nossa província na política e na ciência”520. Ao lado da
“espada heróica de muito cearense”, cujo movimento “vai ceifando no campo da batalha ampla messe de glória”521, surge outra espécie de heroísmo, não menos importante mas um
tanto diminuído na elegância espiritual da modéstia retórica, que converge e completa o das armas: “Quem não pode ilustrar a terra natal, canta as suas lendas, sem metro, na rude toada de seus antigos filhos”522.
Segundo G. Dumézil, a função guerreira é uma transposição no mundo dos homens de um vasto sistema de representações míticas (Indra, o rei etrusco Lucumon, Marte; a casta indiana dos Kshatriya): “l’ affrontement des forces du Bien et des forces du Mal se développe jusqu’à un paroxysme destructeur et débouche sur une renaissance”523. A
glorificação dos guerreiros não é mais do que a conseqüência dessa transposição mítica, numa continuidade do culto prestado à divindade. Destruir para recriar, numa espécie de mito do eterno retorno é o resultado da energia demiúrgica comunicada ao cosmo, como evidencia o mito de Xiva, no Hinduísmo, e do Espírito Santo, no Cristianismo, cuja ação é simbolizada pelo fogo purificador, que destrói o Mal e “renova a face da terra”.
519
“Desabriu, enfim, Irapuã a funda cólera:
- Fica tu, escondido entre as igaçabas de vinho, fica, velho morcego, porque temes a luz do dia e só bebes o sangue da vítima que dorme. Irapuã leva a guerra no punho de seu tacape. O terror que ele inspira voa com o rouco som do boré. O potiguara já tremeu ouvindo rugir na serra, mais forte que o ribombo do mar” (Ib.). 520 “Prólogo da Primeira Edição”, in op. cit., p. 10.
521 Ib. 522
Ib.