• No results found

3. EMPIRISK TILNÆRMING

3.2 EMPIRISK ANALYSE

3.2.4 Innhold, funksjon og form – forholdene mellom dem

A segunda parte do livro de Birman intitulada “As novas formas de subjetivação” inicia- se com o subcapítulo chamado “Fora-de-si versus dentro-de-si”. Neste subcapítulo o autor começará expondo sua certeza de que a maior parte das internações no Brasil se dá por conta do significante “fora-de-si”, seria este o significante utilizado para falar que alguém está louco. Continuando, Birman dirá que este conceito é trazido na ordem da negatividade, ou seja, se ele seria o signo principal para dizer que alguém enlouqueceu e precisa ser internado, subentender-se-ia que o sujeito nesta modalidade não preencheria os requisitos mínimos de sociabilidade requeridos para continuar em liberdade, em outras palavras, o sujeito, para permanecer livre, deve estar numa condição “não fora-de-si”. Sanidade mental se fundiria, então, diz o autor, na “exigência insofismável de um sujeito que se inscreva dentro-de-si” (BIRMAN, 2012, p. 165, itálicos do autor). Antes de passarmos para o próximo subcapítulo caberia resumir a tese principal deste atual, a saber, a enunciação de que o “sujeito se funda dentro-de-si e não fora implica[ria] afirmar que a interiorização e o autocentramento são atributos por excelência para definir a saúde mental. Além disso, seriam aqueles atributos que delineariam o horizonte possível para a sociabilidade” (BIRMAN, 2012, p. 165).

Entramos agora no segundo subcapítulo intitulado “Entre a naturalização e a crítica”, na qual o autor defende que a oposição entre o dentro e o fora-de-si foram construídas através dos índices de sociabilidade a antissociabilidade, existindo portanto uma hierarquia conceitual entre estes termos. Após isto, Birman exerce uma espécie de crítica a esta naturalização que ocorreria em todos nós quando nos referíssemos à estas categorias para definir a loucura, estas categorias supostamente teriam sido criadas na base da interpretação. Sua crítica é de que, em suas palavras, “precisaríamos saber o que nos funda e nos regula, na interpretação do real e de nós

44 mesmos, para podermos analisar as consequências disso para nossa experiência social com o universo da loucura” (BIRMAN, 2012, p. 166). O texto continua afirmando que estes questionamentos só podem surgir a partir de um estranhamento decorrente das experiências concretas com a loucura, a finalidade desta crítica seria avaliar as bases históricas da nossa interpretação sobre a loucura e a formulação de outras para o futuro.

Enumerando seus objetivos para este seu texto, diz: “Inicialmente farei uma leitura crítica da constituição da experiência da loucura quando esta foi fundada pela oposição entre os estados do dentro-de-si e do fora-de-si no registro do sujeito. Em seguida, indicarei a que modelos psicopatológicos remete essa construção. Traçarei, ao mesmo tempo, a genealogia daquela oposição para esboçar as diversas figurações e os modelos psicopatológicos correspondentes. Finalmente, minha intenção é me indagar sobre o destino daquela oposição na atualidade.” (BIRMAN, 2012, p. 166-167).

Terminando o subcapítulo com esta exposição de seu percurso pretendido, o texto traz, do capítulo III ao VII, a tentativa de traçar a suposta evolução histórica da concepção de loucura como “fora-de-si” desde o século XVI a até o XX, tomando como base principalmente os filósofos do Iluminismo como base de suas afirmações. No terceiro subcapítulo chamado “A reversão do sujeito”, o autor começa trazendo qual seria a concepção de loucura do século XVIII, supostamente vista como alienação mental, fórmula que (sempre segundo o texto) traria a expressão literal de que o sujeito, antes presente em si mesmo, teria se alienado em algo fora- de-si; neste momento no qual o espírito se alienaria fora do sujeito, este perderia o que lhe seria mais fundamental: “a autoconsciência que lhe define tanto no sentido do autocentramento quanto no da interioridade” (BIRMAN, 2012, p. 167, itálicos do autor).

Ainda segundo o autor, para a psiquiatria nascente, a alienação mental seria curável, o sujeito poderia se alienar de si mesmo e, depois desta experiência, retornar ao estado de autocentramento, existiria portanto, uma certa “reversibilidade do sujeito da exterioridade para a interioridade e do descentramento para o autocentramento” (BIRMAN, 2012, p. 168, itálicos do autor). Neste ponto Birman começa a introduzir quais seriam os fundamentos filosóficos destas práticas e crenças psiquiátricas, e inicia este trabalho trazendo Hegel que “reconhecia na concepção de Pinel de cura possível da alienação mental uma modalidade fundamental de dialética entre os registros do dentro-de-si e do fora-de-si” (BIRMAN, 2012, p. 169, itálicos do autor), neste sentido, portanto, a alienação mental não seria a substituição de um sujeito da razão por outro sujeito da razão, mas o mesmo sujeito alternando-se na dialética da razão. Esta concepção da psiquiatria nascente estaria, segundo Birman (2012), em total acordo com a

45 concepção hegeliana do sujeito e sua dialética tal como exposta na “Fenomenologia do Espírito”.

No prosseguimento da segunda parte do livro, temos o subcapítulo IV chamado “Do entendimento ao sujeito”, no qual o autor trará qual seria a concepção de Kant acerca do sujeito e suas articulações com o pensamento psiquiátrico, curiosamente este é o caminho do texto: ao mostrar um autor, em seguida mostra um autor anterior a este, fazendo um caminho inverso ao cronológico. Neste subcapítulo, então, o autor falará de Kant como tendo uma leitura da loucura “eminentemente pré-moderna”, no sentido de que não existiria cura para a loucura e tampouco a alienação era uma etapa rumo ao conhecimento, a loucura era o erro da razão, razão que estaria para sempre perdida.

Ao trazer os modelos paradigmáticos de loucura para cada um destes autores, Birman (2012) destaca a demência como modelo kantiano e a psicose/monomania como modelo da loucura para Hegel; de passagem aponta que Freud, ao falar do delírio como uma forma do sujeito dizer a verdade e como uma tentativa de cura, segue o raciocínio hegeliano segundo o qual a psicose poderia ser revertida mediante a interpretação psicanalítica.

Retrocedendo cronologicamente ainda mais na filosofia, o texto traz, no subcapítulo seguinte intitulado “O sujeito e a interioridade”, as concepções de Montaigne e Descartes sobre a construção do sujeito. Ao primeiro atribui as origens da construção da interioridade, do “dentro-de-si”, que se desenharia pelos “pensamentos próprios de uma individualidade, temperados pelo diapasão de seus afetos, de maneira a se constituir a concepção do eu, de fato e de direito”. O sujeito seria então, nos diz Birman, este conjunto de fenômenos que existiriam dentro-de-si, não podendo, então, ser concebido um sujeito fora-de-si (neste último a essência estaria perdida).

É no subcapítulo posterior (“A filosofia do sujeito”) que Birman (2012) incorporará o lugar que Descartes ocuparia na história deste pensamento sobre a construção do sujeito. Para o autor, Descartes, ao identificar o sujeito como res cogitans, alicerça-o no próprio pensamento, excluindo quaisquer outras bases de sua existência; neste sentido a separação radical entre res cogitans e res extensa ancora o sujeito no dentro-de-si do pensamento deixando todo o resto (inclusive o próprio corpo) como não sujeito, como antisujeito. Será este o fundamento, segundo o autor, para as explorações de Montaigne acerca do sujeito.

O próximo subcapítulo fará uma recapitulação do percurso filosófico empreendido no texto até o momento, com o adendo de que, “no Freud final”, o sujeito seria “fora-de-si por vocação, transformando-se em dentro-de-si por um longo processo de subjetivação que não é necessário nem obrigatório”. O autor também anuncia que no seguimento do texto sua proposta

46 é apresentar um questionamento sobre o modelo psicopatológico da neurose e o modelo hegeliano do sujeito que ainda seriam referências para se pensar o sujeito fora de si na atualidade. Com este questionamento em mente, inicia o subcapítulo posterior intitulado “A cultura do narcisismo e do espetáculo”, onde serão introduzidos os autores Lasch e Debord numa proposta de substituição de modelos psicopatológicos e de fundamentação da subjetivação frente às supostas particularidades contemporâneas.

Assumindo que o autocentramento do sujeito estaria num nível nunca antes visto, e que isto é claro a todo aquele que se propor a observar o mundo, afirma que a alteridade tende ao desaparecimento, naquilo que Lasch teria chamado de “cultura do narcisismo”. Seguindo a análise, aponta como traço inicial do autocentramento a “estetização da existência”, compreendida aqui como “a exaltação gloriosa do próprio eu”. Nestes cuidados com o próprio corpo, o eu se tornaria um objeto destinado a admiração do próprio sujeito e dos outros.

Existiriam, segundo esse discurso, algumas ferramentas para que essa “estetização da existência” ocorresse, a principal delas sendo o uso da mídia, ou seja, os meios de comunicação em massa permitiriam que o sujeito se apresentasse como produto de consumo para um grande número de pessoas; o texto advoga ainda que nesta cultura contemporânea, o sujeito valeria pelo que aparenta ser, pelas imagens que fornece de si próprio.

Outra destas ferramentas estaria presente na esfera sexual e é chamada pelo autor de “predação do corpo do outro”: uma maneira de realizar a estetização do próprio eu através da manipulação do outro, sendo esta manipulação o que permitiria ao sujeito se enaltecer e glorificar. Aqui entra, no texto, o segundo autor de referência; usando Debord como fundamentação, Birman (2012) diz que a função primordial da existência atual seria a performance e a exibição: o sujeito, numa confusão entre o ser e o parecer, se mostraria apenas como as imagens que conseguiria exibir de si próprio.

Tendo falado sobre a subjetividade contemporânea, Birman (2012) agora inicia sua fala acerca da “psicopatologia da pós-modernidade” no subcapítulo “Humilhados e ofendidos”. Aqui Birman argumenta que a psicopatologia da pós-modernidade se centraria nos casos em que o sujeito não teria podido realizar a exigida estetização de seu eu, sujeitos que não estariam aptos a participar da “cultura do narcisismo”, a saber, nos casos de depressão, síndrome do pânico e toxicomanias: as duas primeiras por paralisarem o movimento de exibição do eu, e a última por ser um modo artificial de manter os altos níveis de performance que seriam exigidos atualmente. O autor também destaca que estas pesquisas seriam conduzidas exclusivamente através da biologia, deixando o psiquismo como “epifenômeno do corpo biológico”. Ao final aponta que a psicanálise estaria perdendo terreno na pós-modernidade justamente por se opor a

47 esta “cultura do narcisismo”, por ter como sua base a “quebra das amarras narcísicas do indivíduo”.

Nos dois subcapítulos finais o texto busca articular suas explorações filosóficas com a cultura atual, no intuito de relacionar a cultura do narcisismo e os modos de subjetivação contemporâneos. No subcapítulo X (“O fora-de-si de colarinho branco”), sua tese principal é que “o autocentramento da subjetividade na cultura do narcisismo é justamente o excesso de exterioridade”. Neste sentido, o autor defende que atualmente encontraríamos uma nova modalidade de sujeito fora-de-si que não se identificaria mais com o modelo da psicose mas sim um sujeito fora-de-si por ter sua essência nos objetos e imagens externas a ele. Seguindo em sua comparação, diz que existiria uma inversão cultural em nossos dias, pois este sujeito fora-de-si contemporâneo não seria excluído da sociedade como teria sido nos tempos modernos, mas, pelo contrário, seria exaltado pela nossa cultura.

O subcapítulo final (“A filosofia do sujeito no limbo”) traz a concepção de que o sujeito fora-de-si, ao ser valorizado e não mais excluído, modifica todas as posições subjetivas que teriam sido investidas anteriormente e, nestas mudanças, também a filosofia do sujeito deixaria de ser considerada nos dias atuais. Esta filosofia seria vista como ultrapassada, não existiria mais espaço para as concepções introspectivas em tempos da “cultura do espetáculo”. Em seu último parágrafo, o texto reforça a ideia de que a psicanálise, nos tempos atuais, estaria em crise: ela se contraporia a todos os pressupostos da cultura do narcisismo e da sociedade do espetáculo, o que a deixaria sem atrativos para os sujeitos de nosso tempo.