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2.7.1 Introdução

Os microrganismos estão presentes na vida diária do ser humano, sendo extremamente adaptáveis, beneficiam-se das condições existentes entre a pele e o vestuário para se desenvolverem, devido às condições anatómicas do corpo. Na prática de desporto, os atletas estão susceptíveis a contrair micoses e outros tipos de infecções.

Os problemas dermatológicos estão também presentes na vida pós laboral destes profissionais, podendo adquiri-los noutros momentos, fora do seu trabalho. Os cuidados com o corpo tornam-se assim bastante necessários, uma vez que estes profissionais necessitam de manter a capacidade física no seu melhor para alcançar as suas metas.

O impacto dos exercícios físicos extenuantes exerce acções que debilitam o sistema imunológico do desportista, havendo, desta forma, um aumento da susceptibilidade para infecções por bactérias, vírus e fungos [63].

O esforço físico e intenso, quando desenvolvido em ambiente com climas hostis, aumenta consideravelmente o metabolismo do organismo. O futebol é um exemplo onde os atletas vivenciam o risco constante de deficiências provocadas pelo desgaste muscular, sudorese intensa, mudanças de fuso horário e alimentação [63,64].

Quanto às manifestações cutâneas, estas podem desenvolver-se de variados modos, origens, frequências e intensidades. Incluem distúrbios traumáticos que levam a processos inflamatórios e infecciosos gerados de forma directa ou indirecta [64, 65, 66].

A pele é um órgão de grande importância que serve de barreira protegendo o corpo humano dos riscos ambientais (calor, frio, produtos químicos, etc.), mantendo, até certo ponto, a sua integridade. Nos atletas profissionais a pele está exposta à fricção e pressão em quase todo o corpo, o que é a causa de muitas lesões, tais como bolhas, calos, acne mecânica, entre outras. No entanto, o contacto directo e as interacções entre os têxteis e a pele podem causar reacções, danos ou doenças.

O atleta profissional está sujeito a traumas, infecções agudas ou crónicas e agravamento das dermatoses pré-existentes. A humidade, fricção e o estreito contacto com outros desportistas contribui para o desenvolvimento de infecções. Estas podem transmitir bactérias, fungos e vírus, causando interrupção da actividade atlética. São apontadas como formas de aquisição as seguintes causas: 1) Factores físico-ambientais; 2) Agentes bióticos específicos dos desportos; 3) Contacto alérgico em atletas; 4) Estímulos indutores de trauma durante actividades desportivas.

2.7.2 Factores físico-ambientais

Os factores físicos ambientais provocam efeitos variados sobre a pele, que incluem descoloração, fragilização dos vasos sanguíneos, bem como, em determinados desportos, o risco de cancro devido à exposição em demasia do desportista à luz solar. A miliária, por exemplo, apresenta-se como uma erupção cutânea relacionada com as glândulas sudoríparas (que produzem o suor). A sua manifestação está relacionada com o aumento do calor e da produção do suor que, extravasando dentro da pele antes de atingir a superfície, provoca um processo inflamatório. Localiza-se principalmente no tronco e na região cervical.

As micoses cutâneas são normalmente causadas por factores externos, que abrangem os micro e macro-ambientes. A temperatura elevada e a alta humidade relativa do ar influenciam o crescimento de microrganismos como os fungos e bactérias, resultando em diferentes efeitos fisiológicos no organismo [ 68, 69, 70,71]. No Quadro 2.4 é apresentado um resumo dos tipos de enfermidades e a sua relação com o desporto.

Dermatite devido a factores físico-ambientais no ambiente de desporto

Etiologia (estudo das causas das doenças)

Estado clínico Actividade desportiva

Frio Frieira, Paniculitis, Urticária causada por exposição à ambientes frios

Esqui, Montanhismo, Mergulho Calor Urticária colinérgica Corrida, Ciclismo, Tênis, Radiação ultravioleta Pseudo-miliária, Urticária solar,

Queimadura do sol

Esqui, Montanhismo, Ciclismo, Navegação Pressão Urticária de pressão Halterofilismo, Corrida Quadro 2.4 - Lesões referentes aos factores físicos ambientais na prática de alguns desportos.

2.7.3 Agentes bióticos na prática do desporto

O desenvolvimento das infecções cutâneas através de microrganismos são ocasionadas por factores de higiene pessoal, baixa imunidade e transmissão através do contacto. Alguns microrganismos actuam em locais específicos do corpo devido às condições de humidade e de temperatura que são favoráveis ao seu desenvolvimento.

Alguns desportos sujeitam os atletas a intempéries, enquanto outros, devido às especificidades, são praticados em locais fechados cobertos ou não. O Quadro 2.5 apresenta, de forma resumida, a relação entre o estado clínico, a actividade e o agente etiológico.

Dermatite devido a agentes bióticos específicos dos desportos

Estado clínico Agente etiológico Actividade desportiva Vírus:

Herpes venatorum HSV-1 Luta, Rúgbi

Bactérias:

Hiperqueratose pontuada Otite externa aguda Foliculite Granuloma Corynebacterium Pseudomonas aeruginosa Staphylococcus aureus Mycobacterium marinum

Maratona, Futebol, Rúgbi. Natação Mergulho, futebol Natação em piscinas Fungos: Pé-de-atleta Tinea gladiatorum Tinea cruris Trichophyton rubrum Trichopyton tonsurans Tricophyton mentagrophytes

Corrida, Maratona, futebol, voleibol. Luta

Futebol, luta (desportos de contacto) Quadro 2.5 - Agentes bióticos na prática do desporto.

2.7.3.1 Infecções bacterianas no desporto

O desenvolvimento de infecções, como a foliculite, causada pelo microrganismo Streptococus pyogenes mais conhecido como, Staphylococus aureus, que é transportado no nariz, axilas e virilha,. caracterizam-se por infectarem partes do corpo onde o micro- ambiente é quente e húmido. As principais espécies de estafilococos encontrados em seres

humanos são os Staphylococcus aureus, Staphylococcus epidermidis e Staphylococcus saprophyticus.

O Staphylococcus aureus é o agente mais comum em infecções piogênicas. Estas infecções podem localiza-se na pele ou em regiões mais profundas, Figura 2.17. Quando na pele, recebem diferentes designações, tais como foliculite, furunculose, carbúnculo e impetigo, de acordo com a localização e outros tipos de inflamação. O Staphyloccocus epidermidis apesar de ter um baixo potencial patogénico, pode causar infecções cutâneas provenientes de traumas físicos e baixa imunidade.

Figura 2.17 - Infecção provocada em atleta por microrganismo Staphylococcus aureus.

(Fonte: Douglas e Moeller, 2007)

2.7.3.2 Infecções fúngicas no desporto

A presença do fungo não desencadeia necessariamente a micose se não estiverem presentes às condições suficientes para que ela exista, pois a infecção depende de variáveis ligadas ao agente e ao hospedeiro, sendo influenciada pelo ambiente [66, 72].

O ambiente morno e húmido da pele, equipamentos, e compartilhamento de materiais de higiene pessoal, como a toalha, para além da própria higiene pessoal, podem elevar o risco de infestações parasitárias por fungos em desportistas [73]. Alguns tipos de desportos apresentam infecções características, como no caso do futebol e maratona, onde os atletas frequentemente adquirem o chamado pé de atleta. A Tinea corporis, causada pelo Epidermophyton sp também é contraída pelo contacto directo entre os atletas. As infecções fúngicas são classificadas como:

• Dermatomicose – infecção cutânea causada por qualquer entidade fúngica;

• Dermatofitoses – (ou tíneas) infecções cutâneas causadas por dermatófitos.

Os fungos como a Tinea inguinal (ou Tinea cruris), provocam micoses que atingem a região da virilha. Esta região é propícia ao desenvolvimento de fungos do gênero dermatófitos ou pela levedura Candida albicans. A anatomia da virilha favorece o crescimento destes microrganismos, devido ao calor e humidade características desta área do corpo, Figura 2.18.

(A) (B)

Figura 2.18 - (A) - Tinea curis, (B) Cândida albicans. (Fonte: Dermatologia Online, 2006)

2.7.3.3 Infecções virais no desporto

Infecções causadas pela reactivação dos vírus, podem ocorrer devido a diversos factores desencadeantes, tais como: exposição à luz solar intensa, fadiga física e mental, stress emocional, febre ou outras infecções que diminuam a resistência orgânica. Herpes simplex, por exemplo, infecta lutadores e jogadores de rugby. Em lutadores, o local mais comum é a face. Apresentando-se de forma latente na pele e saliva, a herpes simplex pode ser desencadeada por abrasão ou exposição solar.