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A ABORDAGEM DE SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA

Sérgio Buarque nasceu em São Paulo, em 1902, em uma família sem ligações próximas à elite econômica e letrada da época. Durante considerável parte da vida, o autor não morou na cidade, e quando jovem se formou em ciências jurídicas e sociais pela antiga Universidade do Brasil RJ. Atuou primeiramente como jornalista, e em relação à história paulista, só começou a se interessar sobre o tema a partir da década de 1940. Pôde ampliar e conseguir apoio para pesquisas durante o período em que foi docente da USP entre 1956 e 1969 (deixou o cargo por se opor ao governo militar).

Selecionamos a obra Caminhos e Fronteiras, publicada em 1957, composta por ensaios publicados especialmente no jornal Estado de São Paulo. Sobre o teor do texto, podemos dizer que a obra representa o paulista como um produto híbrido, fruto da adaptação do português ao novo território, em que foi de suma importância a cultura indígena. Diferentemente das obras que já analisamos, a cultura indígena adquire importante valor na formação do paulista, considerado fruto de uma complexa troca entre ambas as culturas.

O movimento e a fronteira

Será exposta no presente capítulo uma interpretação da obra baseada no movimento, ou seja, a constante mobilidade da sociedade paulista colonial, e na fronteira, que para o autor, não significa uma simples linha física, e sim o encontro de duas culturas. Como resultado do movimento e da fronteira, temos a formação do paulista, fruto da miscigenação. Dotados de todos os conhecimentos e práticas necessárias para suas realizações, os portugueses e mamelucos necessitavam de uma constante mobilidade e da adoção de técnicas indígenas.

O primeiro capítulo da obra, denominado Veredas de Pé Posto, sintetiza de forma brilhante a necessidade dos sertanistas, sejam portugueses ou mamelucos, de absorverem o conhecimento indígena, tornando possível o sucesso das expedições. Desta forma, a locomoção dos adventícios pelo sertão, ocorreu através de caminhos indígenas, possuindo a vila de São Paulo, localização estratégica no planalto. Afirma o autor, que alguns documentos do século XVII, elucidam que a referida vila apresentava uma posição central de onde partiam

várias estradas indígenas, tanto para o sertão como para o litoral.99

Em contato assíduo com a natureza e com o indígena, os sertanistas adquiriram um elevado senso de observação e orientação, fatores fundamentais para a vida nômade, principalmente no bandeirismo. Tais caminhos poderiam por um tempo permanecerem sem uso, adquirindo a expedição aspectos semelhantes à abertura de um novo caminho, tendo os participantes que cortar o mato crescido. Nestas situações, as tradicionais marcações indígenas, seja com pedaços de galhos cortados ou golpes de machado quando houvesse árvores no caminho, garantiam a certeza de que determinado local era uma vereda indígena.

Nos séculos XVI e XVII, período essencialmente relacionado ao bandeirismo em São Paulo, o autor explicita que os hábitos dos colonizadores foram muito semelhantes aos dos indígenas, tendo os nascidos na Europa, que mudarem seus hábitos. Neste sentido, o uso de calçados não foi comum nas expedições, tanto pelo preço, pois estava o planalto longe do contato dito civilizado e também pela pouca durabilidade, em virtude da existência de áreas encharcadas durante os trajetos. Assim, o colonizador, tanto o recém-chegado como o aqui já nascido, branco ou mameluco, foi forçado pelas condições impostas a viver de modo parecido com os indígenas, pelo menos enquanto estava no sertão:

Ainda aqui, bem apurado, é um aspecto da influência indígena que insiste em sobreviver em terra onde foram assíduas a comunicação e a mestiçagem com o gentio. Influência que viria animar, senão tornar possíveis as grandes emprêsas bandeirantes. [...] O retrocesso a condições mais primitivas, a cada novo contato com a selva e com o habitante da selva, é uma etapa necessária, nesse feliz processo de aclimação.100

Em outro ponto da obra é desenvolvida a questão do armamento, e prosseguindo a perspectiva já iniciada, Sérgio Buarque afirma que provavelmente os paulistas utilizaram o arco e flecha, que apresentavam inúmeras vantagens.101 Primeiramente, o próprio clima

úmido provocava falhas no funcionamento das escopetas e arcabuzes; já ao atirar, o barulho e a fumaça excessiva denunciavam o local onde se estava. Além disso, o processo de carregamento e disparo da arma europeia poderia permitir que as melhores oportunidades se perdessem, fator terrível, tanto na luta contra indígenas como na caça. Portanto, o arco e flecha sempre estariam presentes nas expedições, mesmo que houvesse as armas de fogo. Ganham as armas indígenas em agilidade e versatilidade, pois além de serem rápidas,

99 HOLANDA, Sergio Buarque de. Caminhos Fronteiras. 1ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957. p. 15. 100 Ibidem; p. 18.

apresentavam fácil produção.

Também na alimentação e no consumo de água, adotou-se um comportamento essencialmente indígena. O capítulo Samaritanas Do Sertão, relata a importância de plantas e árvores aos sertanistas, em locais onde não existissem rios e córregos. Dos vários exemplos citados, ressaltamos a importância do umbuzeiro, árvore típica das regiões nordeste e central, que apresenta grande quantidade de água em suas raízes. Na busca por água, o conhecimento, experiência e observação, também são essenciais, pois o precioso líquido poderia não estar na parte interior, mas no vaso natural que possuem os caraguatás, que funcionavam como um reservatório de água da chuva.102

Na vida andeja pelo sertão, para garantir a sobrevivência, tiveram os paulistas muitas vezes que “acolher esses recursos e aceitar, em muitos casos, as mesmas técnicas e ardis inventados pelo gentio.” 103 Em momentos difíceis, a alimentação poderia consistir de

“ingredientes” totalmente desprezados pela cultura europeia, entrando na lista emergencial cobras, sapos, ratos e raízes. Ressalta o autor, que muitos destes alimentos, acabaram tornando-se apreciados, sendo consumidos rotineiramente pela população. Exemplo importante é a içá, conhecida como formiga saúva, iguaria muito consumida até o século XIX, fato que causava estranheza em muitos que visitavam a cidade de São Paulo.104

Expomos anteriormente, a adaptação dos portugueses às condições impostas pela natureza, processo no qual o conhecimento indígena extraído pelos colonizadores foi essencial. Porém, em relação à rude medicina praticada naqueles tempos, que ficou conhecida como “remédios de paulistas” 105, houve um amálgama de elementos europeus e indígenas,

que se uniram a elementos já comuns nas duas culturas. Nesta discussão, presente no capítulo Botica da Natureza, é interessante a posição do autor em não desejar apenas definir qual aspecto se refere a cada cultura. Ocorreu neste quesito uma complexa troca cultural, capaz de gerar novos recursos:

Não faltam, finalmente, aspectos de nossa medicina rústica e caseira que dificilmente se poderiam filiar, seja a tradições européias, seja a hábitos indígenas. Aspectos surgidos mais provavelmente das próprias circunstâncias que presidiram ao amálgama dêsses hábitos e tradições. A soma de elementos díspares gerou muitas vêzes produtos imprevistos e que em vão procuraríamos na cultura dos invasores ou na dos vários grupos indígenas.106

102 HOLANDA, Sergio Buarque de. Caminhos e Fronteiras. 1ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957. p. 43. 103 Ibidem; p. 63.

104 Ibidem; p. 64. 105 Ibidem; p. 88. 106 Ibidem; p. 91.

Um traço comum em ambas as culturas eram o uso de bezoares107 para o tratamento de

diversos problemas. Neste sentido, os portugueses, já familiarizados com esta prática, procuraram animais semelhantes aos existentes na Europa para a extração de pedras. Nesta prática, poderia ocorrer tanto a influência indígena, quanto a escolha por semelhança de determinado animal pelos colonizadores. Relata o autor, que em um processo analógico, as tão famosas pedras presentes no porco espinho, foram retiradas dos abundantes porcos do mato.108

Também se fazia presente nesse processo, “a atração do fabuloso” 109, no qual animais

muitos diferentes dos já vistos pelos portugueses e muitas vezes já valorizados pelos indígenas, adquiriram importância fundamental na medicina sertaneja. Exemplo fundamental é ave anhuma, “que possuía unicórnio frontal, os esporoes das asas, os pés desproporcionalmente grandes, e o grito que segundo Anchieta, fazia pensar num burro zurrando.” 110 A grande utilidade desta ave ia desde o combate ao mau-olhado ao tratamento

de picada de cobra, aproveitando-se até os ossos.

Na anhuma, assim como em outros animais ou plantas, poderiam estar tanto a cura para determinada doença como a prevenção ou proteção para diversos males ou azares. É a medicina unida ao sobrenatural, muitas vezes representada na forma de amuletos. Assim, os dentes de jacaré, que para os indígenas serviam contra entidades funestas, também são usados pelos paulistas, porém, para estes, tal amuleto encontra: “equivalente nas teorias sôbre o papel nocivo que pode representar o ar ... - ar de estupor, ar de perlesia, ramos de ar, corrupção de ar ... - tão generalizada na velha medicina.” 111 A conclusão é que a formação desta medicina

sertaneja foi complexa, envolvendo mudanças e ampliação de significados, não apenas um simples “depósito” de novos elementos. Foi neste quesito que o português pôde melhor contribuir:

Para a mentalidade de muitos dos nossos roceiros de hoje tem aplicação terapêutica ou servem de amuletos, praticamente, tôdas as partes do corpo dos animais selvagens, que não possam servir para a alimentação ou manufatura de couros: os chifres, os dentes, as unhas, os ossos, os cascos, as couraças, as gorduras. Há indícios de que mais de um dêsses medicamentos já seriam utilizados pelos adventícios. Mas são dignos de interesse, por outro lado, os processos de racionalização e assimilação a que o europeu sujeitou muito de tais elementos, dando-lhes novos significados e novo encadeamento lógico, mais em harmonia com seus sentimentos e seus padrões de conduta tradicional.112

107 Bezoar é uma pedra encontrada no sistema gastrointestinal de diversos animais.

108 HOLANDA, Sergio Buarque de. Caminhos e Fronteiras. 1ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957. p.91. 109 Ibidem; p. 97.

110 Ibidem; p. 96. 111 Ibidem; p. 92. 112 Ibidem; p. 92.

A família bandeirante

Vimos anteriormente, que a sobrevivência no planalto e principalmente durante as passagens pelo sertão, exigiu uma adaptação ao meio, fator resultante na adoção de hábitos e práticas indígenas. Neste sentido, o paulista significou a formação de uma cultura híbrida, com elementos ibéricos e indígenas, prevalecendo muitas vezes aspectos dos que aqui já habitavam. A considerável diminuição do bandeirismo a partir dos descobrimentos auríferos ao final do século XVII e as transformações ocorridas com o surto minerador, resultaram em outro formato pelo qual os habitantes do planalto exerceram uma de suas principais características: a mobilidade.

Para o autor, o século XVIII, período no qual o bandeirismo entra em total decadência, propiciou novas atividades aos paulistas, assim, atenção especial é atribuída para as monções e em menor grau para o tropeirismo. Ambas as ocupações promoveram profundas transformações mentais, entretanto, tanto o tropeiro como o monçoeiro, continuam fortemente ligados ao bandeirismo. Para Sérgio Buarque, os dois fazem parte do que ele denomina de família bandeirante.

Em relação ao tropeirismo, o responsável pela temática é o pequeno capítulo Do Peão ao Tropeiro. Inicialmente, o autor relembra uma importante característica do bandeirismo, que foi a marcha a pé, pois os caminhos indígenas, pouco foram melhorados e seu estado muitas vezes acidentado não permitia o uso de cavalos. Com o surto minerador há um desenvolvimento nos caminhos, permitindo o uso de cavalos ou mulas, que também passam a substituir a mão de obra indígena no carregamento da produção agrária do planalto.

No ano de 1730, ocorre a abertura de um caminho ligando Curitiba a áreas criadoras desses animais, territórios então pertencentes à Espanha. Desta forma, iniciou-se um grande afluxo desses animais ao planalto paulista, que em seguida, importante parcela, essencialmente de muares, abasteceriam as necessidades da futura Minas Gerais. Pela localização estratégica no meio do caminho entre o Sul e a região mineradora, Sorocaba se torna o ponto de importantes feiras de animais; ressalta o autor que muitos vão se dedicar a esse negócio, realizando o exaustivo trajeto de Viamão a Sorocaba.

Deste modo, o bandeirante, que durante os séculos XVI e especialmente o XVII adentrava ao sertão em busca de indígenas para o trabalho no cultivo de gêneros alimentícios, no século XVIII, tem como uma das opções se dedicar ao comércio de muares. Os difíceis trajetos eram realizados no lombo dos animais e não mais à moda indígena; ao se tornar

tropeiro, constatamos na análise do autor, que a prática do comércio começa a realizar uma transformação na mentalidade do paulista, na qual há o abandono de muitas características geradas anteriormente durante o bandeirismo. É o início de uma mentalidade burguesa que se fará mais firme no futuro cafeicultor:

Com as feiras de animais de Sorocaba, assinala-se, distintamente, uma significativa etapa na evolução da economia e também na sociedade paulista. Os grossos cabedais que nelas se apuram, tendem a suscitar uma nova mentalidade na população. O tropeiro é o sucessor direto do sertanista e o precursor, em muitos pontos, do grande fazendeiro. A transição faz-se assim sem violência. O espírito de aventura, que admite e quase exige a agressividade ou menos a fraude, encaminha-se, aos poucos, para uma ação mais disciplinadora [...] Em um empreendimento muitas vêzes aleatório, faz-se necessária certa dose de previdência, virtude eminentemente burguesa e popular. Tudo isso vai afetar diretamente uma sociedade ainda sujeita a hábitos de vida patriarcais e avêssa no íntimo à mercancia, tanto quanto às artes mecânicas. Não haverá aqui, entre parêntese, uma das explicações possíveis para o fato de justamente São Paulo se ter adaptado, antes de outras regiões brasileiras, a certos padrões do moderno capitalismo? 113

Entretanto, Sérgio Buarque afirma que nesta transição para o capitalismo, na qual também se inclui nesta perspectiva como veremos adiante as monções, ainda sobrevivem hábitos totalmente avessos ao modo de vida capitalista burguês. Exemplo marcante pode ser encontrado no dito acordo comercial verbal, representado pela troca de fio de barba; além da impessoalidade, se encontra ausente neste momento o “ascetismo racionalizante, que parece inseparável do ideal burguês ao menos em suas origens.” 114 Portanto, temos nesta sociedade

pré-burguesa, a convivência de valores antigos e capitalistas e, além disso, apesar de melhorias no padrão de vida, o paulista ainda continua numa vida aventureira, de grande mobilidade e perigos, fatores que ainda o tornam um bandeirante:

O amor ao luxo e aos prazeres domina, em pouco tempo, êsses indivíduos rústicos, que ajaezam suas cavalgaduras com ricos arreios de metal precioso ou que timbram em gastar fortunas nos cabarés, nos jogos, nos teatros. Sorocaba vive mais intensamente nos tempos de feira do que muita capital da província. [...] A ostentação de capacidade financeira vale aqui quase por uma demonstração de força física. Ao menos nisto, e também na aptidão para enfrentar uma vida cheia de riscos e rigores, o tropeiro ainda pertence à família bandeirante.115

113 HOLANDA, Sergio Buarque de. Caminhos Fronteiras. 1ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957. p. 158. 114 Ibidem; p. 159.

No capítulo Frotas de Comércio, o autor se dedica a analisar o abastecimento de diversos itens, desde alimentos, artigos domésticos e ferramentas, realizado por paulistas para a região mineradora no Mato Grosso. Como salienta o autor, a grande quantidade de interessados nas explorações auríferas, também atingiam a região pela via fluvial, sendo essas as monções de povoado. A primeira descoberta aurífera na região ocorreu em 1718, por Pascoal Moreira Cabral, que penetrou a longínqua região em busca de indígenas. Já no ano seguinte, portanto antes do tropeirismo, iniciam-se as monções, que perdurariam até o século posterior. Pelo seu caráter móvel e os inúmeros perigos do trajeto, os monçoeiros são herdeiros dos bandeirantes: “as monções se entroncam na história das bandeiras, e passam a constituir, de certo modo, seu prolongamento.” 116

Em Portugal, a palavra monções tinha seu significado relacionado ao regime dos ventos, fator condicionante para a saída das caravelas. Portanto, o conceito sugerido pelo termo, se refere à regularidade impostas por fatores naturais, porém, nas monções paulistas, a regularidade regia-se pelo regime das águas. A maioria preferia a época em que os rios estavam cheios, fator que tornava a navegação menos difícil; já o tempo para chegar a Cuiabá, não era menor que cinco meses, assim, relembra Sérgio Buarque, que a viagem era mais longa que de Portugal ao Rio de Janeiro.117

Já em seus primeiros anos, inicia-se o que o autor denomina de um importante efeito disciplinador nos participantes destas expedições fluviais. Deste modo, na década de 1720, se estabelece uma rota mais usual e também um local estratégico para abastecimento, que foi a fazenda de Camapoã, localizada na metade do percurso. Além disso, de forma gradual, convencionou-se a formação de expedições grandes e acompanhadas de tropas oficiais. Assim, aquele caráter rude, herança do bandeirismo, vai sendo moldado por novas circunstâncias:

É inevitável pensar que as longas jornadas fluviais tiveram uma ação disciplinadora de algum modo amortecedora sôbre o ânimo tradicionalmente aventuroso daqueles homens. A própria exigüidade das canoas das monções já era um modo de se organizar o tumulto, de se estimular a boa harmonia ou, ao menos, a momentânea conformidade das aspirações em choque.118

A produção das canoas e a prática da navegação estavam em total consonância com as técnicas indígenas, entretanto realizaram-se adaptações e melhoramentos próprios do mundo

116 HOLANDA, Sergio Buarque de. Caminhos e Fronteiras. 1ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957. p. 161. 117 Ibidem; p. 163.

ocidental. Com o objetivo de tornar a viagens menos trágicas, visto que em 1720 não há informações de pessoas que chegaram ao destino final, inicia-se em período exato desconhecido, o toldar das canoas. Já entre 1720 e 1725, adota-se o uso de mosquiteiro, mudanças que puderam elevar consideravelmente a qualidade da navegação e tornar a viagem mais tranquila.119 Assim, podemos notar, que diferentemente do bandeirismo, no qual ao

exercer sua função teve o sertanista que se adaptar totalmente ao modo de vida indígena; no século XVIII, puderam os paulistas inserir técnicas ocidentais em suas jornadas. Ocorre um grande progresso e a perspectiva do autor é otimista.

Sérgio Buarque ainda demonstra a importância destas expedições fluviais para a atual configuração do território nacional, pois “as monções puderam corroborar de modo admirável a obra iniciada pelas bandeiras, assegurando-nos a posse tranqüila de uma área de milhões de metros quadrados.” 120 O processo, que foi iniciado através das descobertas auríferas no Mato

Grosso se expandiu, e os moradores de Cuiabá, após atingirem a estabilidade, realizaram novas descobertas minerais na região amazônica, fator responsável pela criação de outra linha de comércio para as expedições.

A discussão destes dois capítulos da obra Caminhos e Fronteiras, que na presente monografia denominamos de Família bandeirante, contemplam o enigmático, e para muitos o trágico século XVIII na história paulista como um período de transição. Essa transição, que para o autor desembocará no fazendeiro exportador de café, teve como ponto principal a superação do estilo de vida rude dos bandeirantes, ocorrendo a adoção de costumes e técnicas ocidentais, junto à crescente importância do comércio, ocupação principal de monçoeiros e tropeiros. Se pelos riscos enfrentados, estes poderiam ser considerados parte da família bandeirante, o paulista do momento, ainda apresentava ao menos uma das características dos antigos bandeirantes:

As monções representam, em realidade, uma das expressões nítidas daquela fôrça expansiva que parece ter sido uma constante histórica da gente paulista e que se revelara, mais remotamente, nas bandeiras. Fôrça que depois impeliria pelos caminhos do sul os tropeiros de gado, e que, já em nossos dias, iria determinar o avanço progressivo da civilização do café. Tomadas no seu conjunto, o historiador de hoje poderia talvez reconhecer, nessas formas, uma só constelação.121

119 HOLANDA, Sergio Buarque de. Caminhos e Fronteiras. 1ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957. p. 170- 171.

120 Ibidem; p. 179. 121 Ibidem; p. 160.

Conclusão

Há, pelo menos, uma semelhança entre os três autores analisados, que é a grande especificidade atribuída aos paulistas em relação aos outros habitantes do país. É na expansão para o interior do território que estariam as preocupações dos habitantes de São Paulo, e não no litoral, onde se vivia apenas objetivando o comércio com a Europa. Em Alfredo Ellis Jr e