e ressurreições (chances de renascer).” (BAUMAN: 2008, p. 66)
“Estar adolescente é um traço normal da vida adulta moderna. É uma maneira de afirmar a possibilidade de ainda vir a ser outro.” (CALLIGARIS: 1998)
Neste capítulo, encontra-se uma série de análises sobre como a sociedade contemporânea capitalista aderiu ao consumo como forma de existência, objetivando alguma visibilidade, socialização, pertencimento e autopromoção. Este comportamento é o resultado de um conjunto de condições inseridas no próprio ambiente, no meio de produção que emprega esta sociedade, na economia, nas formas de lazer disponíveis, e, principalmente, nos conteúdos criados pelos meios de comunicação, incluindo as imagens por ele desenvolvidas, além das relações amorosas e sociais destes indivíduos e suas constantes necessidades de atualizações e etc. Enfim, consumir para ter valor social, elevar a autoestima, em um contexto que faz questão de formar indivíduos insatisfeitos consigo mesmos, porque a própria economia é movida pela insatisfação.
Assim, acaba-se constituindo um batalhão de pessoas que procuram nos objetos inanimados as características humanas que possam lhe faltar, e que poderão lhes ser “transferidas” com a posse. Isto talvez porque a tarefa dos consumidores, e o principal motivo que os estimula a se engajar numa incessante
atividade de consumo é sair da invisibilidade e imaterialidade, sobrepondo-se à massa de objetos indistinguíveis, captando e, se possível, retendo os olhares.
Bauman declarou que o segredo de todo sistema social durável, ou seja, que se autor-reproduz com sucesso, é transformar seus “pré-requisitos funcionais em motivos comportamentais dos atores.” (2008, p. 89). É exatamente o que temos hoje quando nos referimos aos adultos puerizados de nossa sociedade, pois há um sistema por trás que, pela sua atuação e contextualização no cotidiano desses indivíduos, acaba por formatar seus comportamentos e atitudes.
Assim, a superficialidade nas relações, a ausência de vínculos mais profundos, a tendência de se vender como mercadoria, seja em uma entrevista de emprego, nas redes sociais ou nas relações como um todo, a atitude blazé no tocante ao aprendizado, a fuga às responsabilidades, a necessidade de fazer da vida um emaranhado de constantes emoções de um viver intenso, podem ser atitudes vistas como um reflexo do sistema em ação, que treina coletivamente seus
players para incorporar certos padrões comportamentais que mantém a máquina
aquecida.
A solidão pode ser vista como uma consequência deste estilo de vida, mas que nem por isso o torna menos interessante para o sistema. Desse modo, tem-se um indivíduo vulnerável, pois, como muda de emprego constantemente, não está em sua cidade natal, nem perto de sua família e amigos, não tem tempo para fortalecer seus vínculos, não tem paciência para nada que não lhe traga satisfação imediata, e, assim, não se aprofunda e por isso não constrói, nem relacionamentos, conhecimento ou hobbies que demandem disciplina e empenho.
Este ser singular que está em uma constante busca pela própria identidade já é uma característica da “solidão” do mundo moderno, pois a procura pela diferenciação é solitária e individual. Mas, para a máquina capitalista, o mais importante é que esta identidade seja fácil de ser moldada, modificada e até excluída, facilitando assim seu objetivo que é tirar proveito de cada uma delas, sempre que lhe for interessante (BAUMAN: 2001, p.42). Após isto novas identidades virão, o importante é vincular a insatisfação com a identidade adquirida, e assim, mudar-se de identidade também para se descartar o passado, para renascer, e,
tendo-se assim a possibilidade de infinitos recomeços. Bauman complementa esse processo:
A facilidade de desfazer-se de uma identidade no momento em que ela deixa de ser satisfatória ou deixa de ser atraente pela competição com outras identidades mais sedutoras, é muito mais importante que o ‘realismo’ da identidade buscada ou momentaneamente apropriada. (2001, p.61). O que facilita este trabalho é que a indústria do entretenimento60 alimenta nas pessoas a necessidade de criar uma identidade com o objetivo de aprovação social, ou seja, que se confirme e se compartilhe. Por tudo isso, pode-se dizer que a sociedade contemporânea atravessa uma perda da identidade real e encontra seu apoio no mundo da mídia e da indústria cultural.
O fato de existirem tantos indivíduos correndo atrás das novidades da moda, comportamento, estilos é um indício, segundo Bauman de que esta postura daria ao indivíduo uma chance de segurança, com a certeza do reconhecimento, aprovação e inclusão (2008, p.108), evitando, assim, a dor da inadequação pessoal. Então, se o “estar” jovem é premissa da contemporaneidade, uma possibilidade para o grande número de “adultescentes” poderia ser a escolha de permanência em uma zona de conforto e segurança e não tanto a falta de condições de amadurecimento psíquico, como ocorre no arquétipo do puer.
Se hoje escolho ser um pouco Lady Gaga61 para amanhã ser Angélica e depois de amanhã ser Gisele Büdchen62, estou na zona de conforto já que todas têm um reconhecimento positivo perante seus públicos e o importante é que naquele momento, de alguma forma, alguns olhares de aprovação estarão sobre mim.
Se a construção da identidade do indivíduo significava um caminho árduo durante sua vida inteira, processo constante de desenvolvimento, hoje, com a possibilidade de metamorfoseá-la diariamente, escolhe-se a possibilidade que mais facilitará as relações. O “estar ‘adultescente’” facilita este “perambular” por identidades diferentes. O que não dá certo se descarta e qualquer um é livre para
60 O entretenimento tornou-se uma indústria a partir do momento em que “o lazer não é mais apenas o vazio do repouso e da recuperação física e nervosa; não é mais a participação coletiva na festa, não é tanto a participação nas atividades familiares produtivas ou acumulativas, é também, progressivamente, a possibilidade de ter uma vida consumidora”. (MORIN: 1984, 69).
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Cantora americana de música popular além de compositora e produtora musical considerada uma das 25 pessoas mais influentes do mundo, segundo a revista Time de maio de 2010.
escolher o rosto da juventude da vez, porém se deve escolher entre as opções ofertadas pelos meios de comunicação, por que, se não, não haverá o efeito procurado. O que é fato é que a experimentação deve ser contínua, como na adolescência.
Mas, se a escolha reflete a liberdade que se tem, este estado constante de escolhas chega com um peso de responsabilidade, afinal, através das escolhas é que seu projeto de vida irá sendo colocado em prática. Porém, puerismo e responsabilidade não são cartas de um mesmo baralho. Neste ponto, a velocidade com que as tendências, inovações, informações chegam a este indivíduo não permitem reflexão. Isso lhe é muito conveniente, já que simplesmente se vive o tempo pontilhista. Vive-se a melhor vida que se pode ter dentro das obrigações cotidianas, de suas proibições e de sua rotina entediante, sem reflexão, porque a ação é a melhor forma de escapar aos questionamentos.
Logo que a liberdade se estabelece e se transforma em outra rotina diária, um novo tipo de terror, não menos apavorante do que aquele que a liberdade deveria banir empalidece as memórias de sofrimento e rancores do passado: o terror da responsabilidade. As noites que se seguem aos dias de rotina são cheias de sonhos de se emancipar das restrições. As noites subsequentes aos dias de escolha obrigatória são cheias de sonhos de se emancipar da responsabilidade. (BAUMAN: 2008, p.114).
No próximo capítulo será analisada a forma como os meios de comunicação constroem a imagem de adolescência que muitos dos “adultescentes” procuram seguir para dar forma ao seu ideal de juventude.
Se falamos de uma “epidemia” de “adultescentes” em nossa sociedade, no capítulo IV estudaremos como o mídia iniciou os trabalhos de massificação dessas imagens no início da pós-modernidade, por volta da década de 50, para culminar na realidade que temos hoje, tendo em vista que a imagem de juventude é o fator primordial de reconhecimento do “adultescente”.
Esta é a base do presente trabalho: a evolução dessas imagens, as estratégias que elas utilizam para se perpetuarem através dos anos e os métodos utilizados pelos meios de comunicação para darem a visibilidade necessária para torná-las referências. Toda esta composição, em conjunto com os fatores abordados anteriormente, dão a dimensão dos motivos que fizeram o arquétipo puer aeternus emergir de forma tão arrebatadora em nossa sociedade.
CAPÍTULO IV
4 A Construção da Imagem De Juventude Nos Anos 50 E 60 Alicerçada Pelos Meios De Comunicação E Pelo Consumo