A pessoa é capaz de escolher determinados valores por si mesma, a partir de si mesma. É chamada a se autodecidir e, em consequência, a optar. Quer dizer, é chamada a ser livre. Ora, a decisão e opção implicam assumir a responsabilidade do que foi decidido e da opção feita 189.
Primordialmente, o objeto da ética é a ação humana na caminhada realizadora da vida. Visto assim, é indiscutível a maior perenidade de certos conteúdos éticos sobre outros. A caminhada científica, interpretativa da humanidade e de seus indivíduos se atém a dados, cujo teor de realidade, ou seja, de interpretação, se impõe num dado momento histórico-social. Por exemplo, “conservar e promover a vida” é uma atividade presente desde o princípio da existência humana. A vida tem sido tratada como um valor absoluto. À vida atribui-se o valor máximo, porque de fato é única. Assim, “todo grupo segrega modelos éticos nos quais se aglutinam e se forjam suas aspirações predominantes; a dimensão da formação da consciência moral atual em todos esses modelos” 190.
Na caminhada realizadora da vida, o homem age e desenvolve sua consciência 191 em razão do meio, isto é, das circunstâncias que o envolvem. Portanto, pelo meio, o homem exerce influência e recebe influência daquilo que está à sua volta. Enquanto agente, é o produtor da ciência, da cultura e da linguagem que as expressam.
Brotando da pessoa e referindo-se à pessoa, a dimensão moral tem toda a riqueza e toda a complexibilidade do humano. Ela vai do nível biológico até a expressão simbólica, passando pelos planos intermediários das estruturas psicológicas e socioculturais 192.
Evidentemente, a cultura humana está a serviço da realização de cada indivíduo humano. A atividade inicial do ser humano, desde a sua concepção, é dotada de elevado grau de inconsciência, pois ainda não tem domínio do próprio projeto de realização, ou seja, desconhece o que é preciso, do que dispõe para a realização plena de uma vivência ética pessoal. Dessa forma, como então o homem sobrevive o bastante para adquirir um certo grau
189
RUBIO, Alfonso García. Unidade na pluralidade. O ser humano à luz da fé e da reflexão cristãs. São Paulo: Paulus, 2001. p. 309.
190VIDAL, Marciano. Nova Moral Fundamental. O lar teológico da Ética. Aparecida: Santuário;
São Paulo: Paulinas, 2003. p. 637.
191
Cf. OVERBERG, Kenneth R. Consciência em conflito. Como fazer escolhas morais. São Paulo, Paulus, 1999. p. 74.
192
VIDAL, Marciano. Nova Moral Fundamental. O lar teológico da Ética. Aparecida: Santuário; São Paulo: Paulinas, 2003. p. 637.
de consciência moral a respeito da própria realização ética? Em outras palavras, podemos verificar certa aquisição dos salutares valores éticos através dos preceitos, que são interpretações culturais das necessidades e potencialidades humanas.
Os preceitos são formados pelos hábitos, costumes e acordos, isto é, pela moral e pela lei, carregadas pelo grupo humano do qual fazemos parte, até o momento histórico de nossa aparição no meio dele 193.
Efetivamente, em razão daquilo que já se conhece a respeito de sobreviver, conviver e acreditar, o grupo humano disponibiliza aos seus indivíduos as soluções e respostas já desenvolvidas e prontas para o consumo, na forma de preceitos biológicos, sociais e transcendentais. Assim, os preceitos biológicos compõem-se de verdades a respeito da manutenção e reprodução da vida. Por exemplo, fomos acostumados a consumir certos alimentos e outros não, a ingerir certos líquidos e evitar outros, a usar certos tipos de vestimentas, a relaxar de certa maneira. Também fomos acostumados a sermos homens ou mulheres de certo jeito, a emitir e avaliar certos comportamentos como femininos ou masculinos. Visto nesta ótica, tudo isso e tudo ao que se refere por semelhante é a máxima da expressão do melhor do nosso grupo a respeito de sobrevivência individual e da espécie humana. Por essa razão, o sentido moral é o valor que condiciona a pessoa em todas as suas realizações.
Por ser o valor inerente aos comportamentos, no qual a pessoa se expressa em responsabilidade (liberdade), o valor moral aparece como a razão de ser do ser humano. Neste sentido, o valor moral é o mais personalizante. Por isso mesmo, é um valor sempre constante na vida da pessoa. Além do mais, por ser o valor da realização pessoal, tem a complexidade de ser um valor que realiza um ideal universalmente válido, porém, ao mesmo tempo, condicionado à situação pessoal do sujeito 194.
Dessa maneira, as realizações e preceitos éticos sociais são compostos de verdades a respeito da individualidade e da convivência. Por exemplo, fomos educados e acostumados a não nos portar grosseiramente e rudemente no meio em que vivemos. Ao contrário, na medida do possível, dar a atenção adequada, buscar nos identificar com outros educadamente, respeitar as autoridades constituídas pelo grupo, saudar os outros adequadamente, comer apropriadamente, dar a vez a um idoso, senhora, gestante e tantos outros preceitos para
193
SANTOS, Antônio dos. Ética: caminhos da realização humana. São Paulo: Ave Maria, 1997. p. 35.
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desfrutarmos de uma salutar convivência. Eles expressam traços individuais considerados como desejáveis para a realização da pessoa dentro da perspectiva de certo modelo social e cultural, já que, pela mesma ótica, desenvolve-se um tipo de pessoa com maiores chances de conviver beneficamente.
Os preceitos têm, antes de tudo, função pedagógica, isto é, pretendem indicar caminhos para a realização de cada indivíduo humano. Desempenham, porém, ao mesmo tempo, função coercitiva, pois, sob a proteção de instituições, são utilizados para o julgamento moral e legal das atividades individuais. Indivíduos são premiados ao agir certo, isto é, conforme os preceitos; São punidos ao agir errado, isto é, diferentemente da previsão inscrita nos preceitos. O certo é culturalmente estabelecido como bom-para-todos; o errado, o estabelecido como o mau-para-todos 195.
Com toda razão, o valor moral incide nos demais valores respeitando sua própria autonomia. Todas as ordens de preceitos e valores têm uma íntima relação. Contudo, o valor moral relaciona-se com os outros valores, uma característica especificamente sua. Nesse sentido, o valor moral tem uma função de mediação entre os valores religiosos e todos os outros valores. Pode-se dizer que o valor moral está presente, de uma maneira especial, em todos os demais valores, sem privá-los de sua peculiaridade. “O sentido moral se impõe por si mesmo” 196
, na construção de uma sã consciência moral.