Começar a trabalhar pode significar para os jovens começar a ser adulto. Esse processo de transição não acontece instantaneamente. De acordo com os jovens participantes dessa pesquisa, suas vidas comportam o fato de serem jovens, mãe, trabalhador e trabalhadora, filho, esposa e arrimo de família. Essas representações acontecem em meio a conflitos e harmonia, alternando-se e articulando-se dentro do processo de inserção
profissional que o jovem vivencia. É possível ser jovem e ser responsável. Ser jovem e trabalhador. A articulação entre esses papéis também permite ver o reflexo do processo de inserção profissional.
A seguir estão alguns papéis e personagens, dentre aqueles já apresentados durante a análise dos dados, que ajudam a clarificar a relação entre o movimento da Identidade e o processo de inserção profissional. Os quadros 13 e 14 são relativos a Sísifo. Algumas personagens permaneceram, outras se alteraram, o que está indicado.
QUADRO 13 - Papéis e Personagens de Sísifo SÌSIFO
PAPÉIS PERSONAGENS
Arrimo de família caçula-responsável Revolucionário Filho
Consciente
Tio Pai do sobrinho
Desconfiado Amigo
Generoso
Inteligente que não estuda Iludido
Estudante
Despreparado
Diferente
Que se torna homem Jovem
Que continua criança Desqualificado Desiludido Desempregado
Reformulando a vida
1º momento 3º momento
Iniciante que precisa provar Reconhecido como igual Profissional submisso Profissional submisso-falso
Desconfiado Brincalhão
Trabalhador
Auxiliar de produção Promovido
Si Mesmo Nada Com valor/digno/gente
Igual e Diferente dos outros, portanto, original
QUADRO 14 - Papéis e Personagens de Sísifo relativo ao futuro
Papéis/Personagens de Sísifo relativos ao futuro
Que deseja assumir Que deseja negar Que se mantém
Operador Auxiliar Arrimo de Família
Pai de família Arrimo de Família Trabalhador
Estudante Brincalhão
Mecânico Solteiro
Profissional Mutável/dinâmico
O desempregado é também o jovem, despreparado e desiludido quanto ao trabalho e que, a partir desse doloroso contato com a realidade, reformula a vida e torna-se trabalhador.
Dentro do trabalho, a personagem “desconfiado” transforma-se em brincalhão, encontrando o prazer de compartilhar um mundo que já não é tão estranho, e o iniciante que precisa provar sua competência torna-se o profissional reconhecido.
É claro o movimento de Sísifo na direção do Valor Pessoal (GÓIS, 1993) e do Poder pessoal (GÓIS, 1993; ROGERS, 1989). Foi promovido, sonha e planeja o futuro. Exemplifica o que foi descrito por Vigostki (1984) e Luria (1990), no que diz respeito à formação da autoconsciência, quando a atividade social permite um maior substrato para o desenvolvimento dessa função, e o que argumenta Ciampa (2001), a respeito da Identidade Pessoal como um conceito relacional.
Outro movimento interessante de Sísifo é o resgate da criança. Ele inicia o processo apresentando-se como o profissional sério, que não tem amigos no trabalho e não confia em ninguém. Suas falas do último momento refletem o desejo de fazer cada vez mais contatos, e não perder de vista a questão da brincadeira, que dá a graça do dia, mesmo que na empresa, às vezes, não se possa falar. “Assim, como em certos dias a descida é feita na dor, também pode ser feita na alegria”. (CAMUS, 2004, p.140). O Sísifo dessa pesquisa, na lida com a pedra, encontra um gosto pela vida que não tinha (ver Q 19 - Percepção de Si - [S3.35.7]). No exercício de olhar para essa lida, “descobre a si” na construção da “casa onde cada um botou uma pedra”. Como diria Camus (2004, p.141): “Toda a alegria silenciosa de Sísifo consiste nisso. Seu destino lhe pertence. A rocha é sua casa.”. Imagina uma vida diferente, livre da pedra, quando pode alcançar o universo, tão grande, a partir de sua vida tão pequena, é a Identidade como Sentimento de Si. Despeço-me de Sísifo com as palavras de Camus (2004) que, sincronicamente, traduziram meus sentimentos por esse autor/personagem/participante da pesquisa:
Deixo Sísifo na base da montanha!As pessoas sempre reencontram seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e ergue as rochas. Também ele acha que está tudo bem. Esse universo, doravante sem dono, não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada fragmento mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo. A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. (CAMUS, 2004, p.141).
Ao entrelaçar as categorias explicitadas no Referencial Teórico e utilizá-las na leitura da análise dos dados, observamos que o movimento dos jovens margeia o pressuposto nas Expectativas de Resultados desse estudo. Isso significa que, numa proposta qualitativa, as expectativas funcionam como ferramenta para gerar discussão, não sendo o objetivo comprová-las ou negá-las, pois em ciência humanas não existem resultados puros. Dentro
dessa perspectiva, é possível compreender como essas questões estão relacionadas à Identidade Pessoal.
Pode-se inferir, de acordo com o discutido, que o devir de novos modos de ser pode ficar interrompido. Já que não é possível ser diferente (estudantes universitários, profissionais formados), que seja possível pelo menos a manutenção do mesmo (empregados desqualificados), para não voltar a ser nada (excluídos, dependentes). O jovem, diante de barreiras intransponíveis, pode “desistir”, abandonar a esperança e aprender o Fatalismo (MARTÍN-BARÓ, 1998) por não encontrar uma rede de apoio social, reforçando o Caráter Oprimido (GÓIS, 1993) e afastando-se do núcleo de vida; deprimindo-se como Pandora. É possível também, em outros termos, a partir de outra história de vida e condições objetivas, reinventar a mesmidade, falsear a submissão e construir o próprio caminho, como Sísifo. Ciampa (1984) fala que a Identidade diz respeito, inclusive, à vida que não pode ser vivida, o que também diz poeticamente o Cancioneiro de Pessoa:
... Temos todos que vivemos Uma vida que é vivida E outra que é pensada E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a errada. ... (PESSOA, 2004. s.p.)
A dona de casa nervosa, irritada com a rotina, faz surgir a trabalhadora da produção. Inicialmente, o esforço desse trabalho é estimulante, mas o desgaste da repetição e da falta de reconhecimento transformam a trabalhadora danadinha em cansada, estressada e doente. O desejo de trabalhar permanece, para que seja possível preservar a independência que a possibilitou abrir os olhos e amadurecer como esposa. Esse processo, muito intenso e acontecido sem apoio social, a faz sentir-se frágil, perdida. Assume a personagem deprimida.
Os Quadros 15 e 16 dizem respeito a alguns papéis e personagens vivenciados por Pandora durante a caminhada já explicitada no capítulo anterior, de modo a elucidar um pouco melhor o movimento da sua Identidade.
QUADRO 15 - Papéis e Personagens de Pandora PANDORA PAPÉIS PERSONAGENS Amiga Sem-tempo Interessada Parada Despreparada Estudante Negada Nervosa Dona de Casa Trabalhadora
1º momento 2º momento 3º momento
Independente mesmo que não queira
Cansada Deprimida
Danadinha Estressada Danadinha
Formada-nâo-reconhecida Doente Inútil/
invisível
Reservada Irritada Doente
Trabalhadora
de Maracanaú Sem referências de Maracanaú
1º momento 2º momento 3º momento
Si mesma Ignorante-teimosa-cabeça-dura Madura Madura
Rebelde- traumatizada Separada Deprimida
Reservada Jovem Doente
Trabalhadora Trabalhadora Trabalhadora
Forte Frágil
Livre Perdida
QUADRO 16: Papéis e Personagens de Pandora relativos ao futuro.
Papéis/Personagens de Pandora relativos ao futuro
que deseja assumir que deseja negar que se mantém
Estudante trabalhadora na produção Trabalhadora
Trabalhadora satisfeita Deprimida Mãe
Ser humano livre Lutadora
Pandora, mesmo se considerando capaz, está com a saúde mental abalada, deprimida. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2001), o conceito de Saúde, bem como o de Saúde Mental, vem sendo trabalhado de modo a distinguir-se da noção de doença, adquirindo características próprias, assumindo-se que “a saúde mental, a saúde física e a social são estreitamente entrelaçadas e profundamente interdependentes”. Destarte, a problemática psicossocial de Saúde Mental pode ser entendida, de acordo com Vidal (1996), como constituída por “fatores de risco” associados à pobreza e à desorganização social, considerando o contexto sociocultural que participa no desencadear do processo de doença e na sua cura.
Assim, por conta dos sistemas de relações sociais entre os sexos, ou de gênero, em uma série de indicadores objetivos, de classe, como o lugar quanto à remuneração do seu salário, as mulheres se posicionam em pior situação que os homens; também por indicadores subjetivos e culturais se identificam divisões sexuais de poder, de trabalho, de lugares próprios de circulação, e do prazer. (CASTRO, 2004, p. 277)
A depressão de Pandora, não ignorando os fatores biológicos envolvidos, parece ter sido engendrada nessa teia que coloca as mulheres em desvantagem, lembrando que os jovens também são considerados vulneráveis, tornando mais difícil para ela, dentro de sua história de vida, transformar sua Identidade no rumo desejado. Esse estudo não se propõe a discutir questões de gênero. Aponta, porém, que o microcosmo estudado na pesquisa reflete o macrocosmo das relações sociais.
Pandora, que só veio conhecer o mundo quando casou e acaba se vendo envolta em sofrimento, ainda possui esperança: de que as pessoas mudem, de que a vida melhore e ela possa parar de chorar. A história da Pandora participante da pesquisa recoloca, porém, a dúvida trazida pela Pandora da mitologia grega: a esperança é um presente escondido por algum deus misericordioso ou é o último dos males? Refazendo a pergunta em termos da história de vida da Pandora desse estudo: essa esperança é relativa ao conformismo e à submissão advindos da aceitação, traços do Fatalismo (MARTÍN-BARÓ, 1998), ou é expressão de um contato com o núcleo de vida, que representa ainda uma possibilidade de transformação em meio às dificuldades?
Freire (1992, p. 10) ensina que a esperança é uma “[...] necessidade ontológica [...]” e diz ainda que “[...] na verdade, é no jogo das tramas de que a vida faz parte que ela – a vida – ganha sentido [...]” (FREIRE, 1992, p. 65). A questão evocada por Pandora é (re)posta sempre que o ser humano se depara com situações-limite, e a resposta a esse enigma precisa ser construída.
Essa autora/personagem/participante ensina que, pelas condições sociais latino- americanas, o processo de construção de si não é plácido, é turbulento, ocorre também na dor. Greene e Sharman-Burke (2003), ao analisarem psicologicamente a figura mitológica de Pandora, destacam a esperança como aspecto central:
No nível psicológico, Pandora e a estrela da Esperança são os símbolos de uma parte do ser humano que, a despeito das frustrações e desapontamentos, das depressões e das perdas, ainda tem forças para se agarrar ao sentido da vida e ao futuro que poderá superar a infelicidade do passado. [...] A esperança não espanta os males, tampouco consegue desfazer a vingança de Zeus.
Entretanto de alguma forma misteriosa ela oferece a fé. Por isso, na imagem apresentada, os olhos de Pandora estão fixos não na infelicidade da condição humana, mas na certeza irracional e inexplicável de que muito em breve uma nova luz brilhará.
Esse ângulo da esperança não tem a ver com expectativas programadas. Ele está na verdade ligado a algo profundo dentro de nós que muitas vezes chamamos de força para viver e que – a despeito de ser uma experiência subjetiva sem nenhum motivo aparente – quase sempre mostra a diferença entre a vida e a morte.”(GREENE; SHARMAN-BURKE, 2003, p. 73)
Assim como as autoras acima, Freire (1992, p. 10) reconhece que a esperança é “[...] necessária, mas não é suficiente [...]”. É a possibilidade do primeiro passo em direção à mudança.
Foi possível perceber as diferenças qualitativas apontadas por Quapper (2001) e Vigostki (1984), quando se examina as questões referentes a Sísifo e a Pandora. Os dois jovens entrevistados possuem singularidades e revelam na expressão do seu microcosmo questões sociais mais amplas. Deste modo, o presente estudo demonstra que o trabalho tem influência no movimento da Identidade Pessoal de Sísifo e Pandora. A experiência de primeira inserção possibilita uma ligação maior com o núcleo de vida, fortalecendo o Valor Pessoal (GÓIS, 1993; ROGERS, 1989). A partir do trabalho, eles reconhecem a si mesmos como capazes: ligação do trabalho com a expressão do Poder Pessoal (GÓIS, 1993; ROGERS, 1989). Os participantes vivenciam essas relações enquanto processo de humanização, a ontogênese da qual fala Leontiev (1978). A partir do trabalho, Sísifo e Pandora reformulam suas relações de um novo lugar social, aprendem, de modo organizado ou não, e reinventam a si mesmos, “vendo o mundo com outros olhos”: Identidade como Noção de Si. Encontram ainda força para lidar com as dificuldades cotidianas e sonhar: Identidade como Sentimento de Si.