Em Evidência da história: o que os historiadores veem, o historiador francês François Hartog (2011) discute os problemas oriundos da relação entre história e evidência, demarcados pela questão do olhar, da visão e da constatação da verdade. Interessado em
159 A palavra historiografia é frequentemente usada como sinônimo de história, mas sua dimensão se aplica, com
mais coerência, ao exame crítico do que foi produzido pelos historiadores até hoje (BARROS, 2011, p.10). Logo, a historiografia procede como a história da história. Como já foi dito, optamos por utilizar a palavra histogriografia não como um equivalente da história, mas como um exercício de produzir uma história dentro de outra, evitando definições absolutas.
160 O IV volume da obra Teoria da História de José d’Assunção Barros (2011) traz uma proposição rica e
desprovida de sínteses forçadas, a respeito da historiografia da história. Ao relacionar história e música, Barros traz a metáfora do acorde, como forma de agrupamento multidimensional das diversas vertentes históricas.
discutir quais escolhas delimitam a história – não somente aquela difundida pela Europa Moderna, mas a história numa coletividade humana – Hartog fricciona o ver e o ouvir, como ações pertencentes a diferentes proposições historiográficas.
Ao invocar a via grega da história, Hartog afirma que a história emerge da epopeia e marca a troca da evidência da visão divina pela visão do historiador. Com Heródoto, historiador grego nascido no século V a.C. e lembrado como “o pai da história”, a história se inaugura como forma de pesquisa e de luta contra o apagamento do passado. Palavra formada a partir do verbo historein, que, em primeira instância, assume o sentido de inquérito judicial, o termo história deriva da raiz histor, ligada a ver (idein) e saber (oida) (HARTOG, 2011, 56- 61). Contra o esquecimento das obras e feitos dos homens, Heródoto pregava a narrativa de diversas versões de um acontecimento como prerrogativa do saber do historiador. Em sua concepção de história, o historiador é aquele que “faz ver e que faz saber” (ibidem, p. 78), pois é o único avalista dos múltiplos dizeres reunidos em sua narrativa.
Já com Tucídides (460-400 a.C.), a história passa a ser o discurso da verdade, fundamentado na noção de autópsia, isto é, no fato de ver por si mesmo. Tucídides de Atenas marca o ponto de surgimento de uma história “verdadeira”, aquela que previne o leitor de que seu texto é verdadeiramente história. Para Tucídides, a história se faz no presente, na clareza do olhar e da evidência e não mais na investigação memorial. Ao postular que há uma única história verdadeira, Tucídides permite uma lógica de exclusão de todas as outras possíveis histórias (ibidem, 77-81). Tal vínculo com verdade e evidência atravessou muitos séculos, até chegar à inauguração da história como ciência:
História “verdadeira”, “verídica” – ou, em suas variantes mais recentes, história “científica” ou, ainda, “nova” – , eis algo que, há vinte e cinco séculos, atravessa o projeto de escrever a história ou de fazer história, pelo menos no Ocidente, e ainda que o conteúdo do que tem recebido a antiga denominação de história tenha assumido um grande número de variações (ibidem, p.77).
No século XIX, a história se apresenta sob um estatuto científico, liderado pelo historiador alemão Leopold Von Ranke (1795-1886) e pelos historiadores ligados à Escola Histórica Alemã. Em busca de uma historiografia profissional, voltada atentivamente ao documento, esses historiadores eram movidos por uma obsessão arquivística. Com eles, a fonte histórica deixou de ser ilustrativa e passou a ser demonstrativa. Em torno do documento, instituíram-se preocupações metodológicas que hoje integram a matriz disciplinar da história.
A diferenciação entre fontes “primárias”(também chamadas de originais) e “secundárias”, o olhar crítico aos historiadores de outras épocas, bem como o enaltecimento da informação como centro da busca historiográfica marcaram o tônus metodológico dos primeiros historicistas (BARROS, 2011, 69-82)161.
No fim do século XVIII, com a operação historiográfica moderna, a Europa iluminista lança a ideia de tempo como vetor do progresso, o que avaliza sua instrumentalização. “O tempo é a cronologia, e a cronologia é o princípio de classificação dos objetos históricos. O anacronismo se torna, portanto, o principal pecado” (HARTOG, 2011, p. 25). É na trilha desses preceitos que o positivismo ocupa seu posto na história. Com Fustel de Coulanges (1830-1889), a história vira sinônimo de leitura e observação. O historiador passa a ser um observador de fora, neutro, que denega o presente e se abstém de qualquer predição (ibidem,157-161).
Tais pilares estruturais da história tributada pela evidência, pela verdade e pelo cronologismo combinaram, ao longo do tempo, ingredientes formadores de uma linearidade histórica, regida por periodizações de fatos históricos.
O fato histórico, nessa concepção que se tornou hegemônica da história, foi sustentado como evidência dos grandes eventos marcadores de época. Através de procedimentos em que guerra e história política assumiam sempre o primeiro plano, tal historiografia cuidou de fazer “história-tratados-e-batalhas”, numa tônica universalizante da história. Na contramão dessa noção problemática de fato, a École dos Annales, na França, dedicou-se a investigar a extensão do “não-factual” e postulou o rompimento do fato histórico como instância reguladora da história. Para os autores dos Annales, o “não-factual” seriam “os eventos ainda não consagrados como tais” (VEYNE, 2008, p. 29). A partir daí, a Nova História enunciada pelos Annales abriu precedentes para que se fizesse história de assuntos, até então não contemplados, como as localidades, as mentalidades, a loucura, dentre tantos outros, e
161Conforme sublinha Barros (2011), Ranke não deve ser classificado como positivista, apesar de ter almejado
a neutralidade do historiador. Quando o paradigma do historicismo se completa, no fim do século XIX, a subjetividade adentra a operação historiográfica. Isso acomete tanto as fontes históricas, produzidas por seres humanos, quanto os historiadores produtores do conhecimento histórico. Mais tarde, a “fonte histórica” deixa de ser tratada apenas como “testemunho” ou “fonte de informações”, e passa a ser vista também como “discurso” (BARROS, 2011, 79-82).
constituiu o tipo de entendimento sobre as fontes documentais que serviria a esses novos assuntos da história (VEYNE,2008, 29-31)162.
Ao longo do século XX, a história destronou o fato histórico como o conjunto de grandes feitos e a escolha de eventos magistrais que constituem a narrativa de acontecimentos políticos apontados para um desenvolvimento. Sendo assim, deixou de se contentar com a sucessão e a cronologia – cerceadas, unicamente, pela ideia de progresso – para dar lugar às comparações, repetições e remanências que conferem ao tempo sua dimensão social (HARTOG, 2011, p.176).
Na trilha dessas transformações, a descontinuidade substituiu o cronologismo e a periodização. Sempre posto como aquilo que deveria ser apagado e evitado – em nome de uma continuidade sintética dos acontecimentos – o descontínuo passa a integrar a feitura da história. Michel Foucault (1968), em sua resposta ao Círculo de Epistemologia, chama atenção para a ascensão da descontinuidade histórica como nova possibilidade:
Outrora acumularam-se todos os tesouros na velha cidadela dessa história: acreditava-se que ela era sólida, porque ela tinha sido sacralizada, e que ela era o lugar último do pensamento antropológico. Mas há bastante tempo os historiadores partiram para trabalhar em outro lugar. Não é mais possível contar com eles para manter os privilégios, nem para reafirmar uma vez mais uma fé exagerada – quando se teria uma grande necessidade dela diante da miséria atual – de que a história, ao menos ela, é viva e contínua.
(FOUCAULT, 2005, p.87).
Aliada à quebra de noções como tradição, influência, desenvolvimento, teleologia e espírito de época, a ascensão da descontinuidade na história abandona sínteses forjadas e passa a ocupar o centro da análise das séries temporais (ibidem). É importante dizer que a continuidade histórica rechaçada por Foucault – essa que se alimenta da fabricação de sínteses e alinhavos temporais causais – não é similar à noção de continuidade que defendemos no primeiro e segundo capítulos. Lá, falamos da continuidade evolutiva da memória, cuja operação aceita e se combina com as descontinuidades da cultura, fora de uma
162 Contra a corrente positivista – que pregava a visão progressista e factual da história— a Nova História,
movimento associado à chamada École des Annales, na década de 1920 do século XX, inaugurou outros regimes de temporalidade que não os de tempo linear e cumulativo. Sob a representação de historiadores como Marc Bloch e Lucien Febvre, que idealizaram o movimento, bem como de Georges Duby e Jacques Le Goff nas gerações seguintes, a Nova História englobava temas negligenciados pela historiografia tradicional e propunha uma investigação massiva de documentos, ou seja, ia além dos registros oficiais disponíveis, englobando outros métodos e abordagens documentais.
trajetória linear sequencial e previsível na sua cronologia do antes-depois. Como já vimos, a memória, tanto individual, quanto coletiva, é uma combinação de aparecimentos e desaparecimentos que transitam no tempo e na cultura, constituindo uma continuidade evolutiva, isto é, não progressiva. Já a continuidade histórica a que Foucault se opõe pode ser tomada como tributária de uma visão positivista, cronológica e linear da história, ou seja, de uma escrita histórica fundamentada na ideia de progresso163.
Na aplicação do conceito de descontinuidade na história, Foucault salienta a necessidade de se capturar as singularidades dos momentos do discurso, isolando-os das garras que tentam aprisioná-los em sínteses, periodizações e designações de uma continuidade genealógica:
É preciso renunciar a todos esses temas que têm por função garantir a infinita continuidade do discurso em sua irrupção de acontecimento; na pontualidade em que ele aparece e na dispersão temporal que lhe permite ser repetido, sabido, esquecido, transformado, apagado até em seus menores traços, enterrado, bem longe de qualquer olhar, na poeira dos livros. Não é preciso remeter o discurso à longínqua presença da origem; é preciso tratá-lo no jogo da instância próprio a cada um (FOUCAULT, 2005, 91).
Em Como se escreve a história, Paul Veyne (2008) afirma que, para Foucault, a história passa por ser filosofia (VEYNE, 2008,p. 273). Desse modo, sua proposição de escrita histórica estaria sempre em favor de analogias parciais, tipologias e palavras abstratas, em detrimento da semântica de época e de concepções rígidas de verdade (ibidem). A “arqueologia” de Foucault – nome com o qual batizou seu modelo historiográfico – não deixaria de lado a sociedade ou a economia, quesitos fundamentais para uma história tradicional, mas os estruturaria de outra forma. História não dos séculos, dos povos ou das civilizações, mas das práticas, em que os homens promulgam suas lutas (ibidem, p.281). Fundada nas relações e não nos discursos, a história de Foucault seria um “não” à racionalidade e à prospecção de um horizonte eterno de verdades históricas. A respeito das contribuições de Foucault para a historiografia, Veyne afirma:
Toda história é arqueológica por natureza e não por escolha: explicar e explicitar a história consiste, primeiramente, em vê-la em seu conjunto, em
163 Não queremos propor uma conversa impraticável de teorias distintas, mas é crucial dizer que as propostas de
Foucault a respeito da história não são opostas às nossas argumentações sobre cultura e memória, construídas ao longo desta pesquisa. No entanto, as terminologias se contrastam. Foucault utilizou a palavra “continuidade” vinculada à noção de progresso; nós fizemos uso da mesma palavra, mas como sinônimo de evolução.
correlacionar os pretensos objetos naturais às práticas datadas e raras que os objetivizam, e em explicar essas práticas vizinhas nas quais se ancoram. Esse método pictórico produz quadros estranhos, onde as relações substituem os objetos (ibidem: 280).