É comum observar, nos processos de urbanização, a concepção positivista da natureza, em que as necessidades do homem se sobrepõem às condições naturais. Esta concepção gera inúmeros problemas ambientais, com reflexos na qualidade de vida especialmente da população de baixa renda, pois esta, é forçada a ocupar áreas de risco, que, normalmente apresentam problemas ambientais.
Segundo Schmid20, 1974 apud Gonçalves 2003:
A complexidade das interações entre as atividades humanas e o ambiente cresce, portanto, na medida em que atualmente o processo de urbanização avança cada vez mais no mundo de hoje. As transformações ocorridas na natureza e a atuação dos mecanismos que lhes são peculiares são capazes de em circuitos contínuos de feedback positivos e negativos, gerar novas situações e processos cada vez mais complexos forçando a novas adaptações e ajustamentos da sociedade, e com elas, posteriormente, repercussões ambientais. (SCHMID apud GONÇALVES, 2003, p. 70)
Os problemas das enchentes identificados na cidade de Jales, embora não atinjam grandes áreas geográficas, são demasiadamente sérios nos locais onde acontecem. Como pode ser observado na Figura 17, existem oito pontos onde, historicamente, ocorrem enchentes.
20 SHMID, J. A. The environmental impact of urbanization. In MANNER, I. R. AND MARVIM, W.
(Orgs). Perspectives on environment. Washington: Mikesell Editors, Association of American Geographer, nº 13, 1974.
__________________________Capítulo 3: Caracterização geoambiental e urbana
120 Na realização desse diagnóstico, consideraram-se os pontos onde, historicamente, existiram problemas relativos às enchentes; entretanto, esse fato se agravou na cidade de Jales, a partir do ano 2000. Em parte, esse agravamento se deve a episódios mais concentrados de precipitação, que vêm ocorrendo com mais freqüência nos últimos anos. Segundo a Embrapa21, a precipitação média entre 1995 e 2007 na cidade de Jales para o mês de janeiro é de 294,5 milímetros, contudo, de acordo com a METSUL22, apenas nos primeiros 15 dias desse mesmo mês do ano de 2007, o total acumulado chegou a 460 mm. Esse problema, também ocorre devido ao fato da infraestrutura urbana, não ser apta para suportar eventos extremos de precipitação.
A Figura 17 apresenta as 8 áreas onde existem problemas de enchentes, dentre as quais se encontra, a mais recente e problemática, que está localizada no Jardim Santo Expedito (bairro nº 67).
Nessa área ocorreram problemas devido ao rompimento da galeria existente no bairro. Esse rompimento ocorreu nos últimos dias do mês de dezembro de 2006, sendo que, 22 residências foram afetadas e seus moradores tiveram que ser transferidos para casas alugadas pela Prefeitura. Como pode ser observado nas Fotos 1 e 2, o rompimento dessa galeria provocou um amplo processo erosivo que derrubou parte das casas e condenou outras à demolição, totalizando 22 imóveis afetados.
Foto 1: Rompimento da galeria do jardim Santo Expedito. Fonte: Prefeitura Municipal de Jales, 2006.
21
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22 METSUL METEOROLOGIA Disponiovel em: <http://www.metsul.com/secoes/visualiza.php?cod
121 As fotos apresentam a magnitude do problema identificado nessa área. Ele surge, principalmente, pelo fato deste local drenar uma área onde já ocorrem problemas de enchentes. É a área localizada na Avenida João Amadeu, entre os Bairros número 58 e 59. Nela frequentemente, ocorre o alagamento da Avenida, porque ela drena uma grande área desprovida de vegetação, a qual, por sua vez, deságua na galeria do Jardim Santo Expedito.
Foto 2: Casas derrubadas no jardim Santo Expedito. Fonte: Prefeitura Municipal de Jales, 2006.
A segunda área onde ocorrem os maiores problemas se localiza no Jardim São Judas Tadeu (nº 44). Nesse local, na primeira quinzena do mês de Janeiro de 2007, 5 famílias foram desalojadas de suas casas. As fotos 3 e 4 apresentam o problema enfrentado nesse bairro.
Foto 3: Casa alagada no jardim São Judas Tadeu. Fonte: Prefeitura Municipal de Jales, 2006.
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122 No referido bairro, o problema surge, principalmente, devido à forma do relevo, já que ele está em um local de acentuado declive, e suas galerias são insuficientes para drenar a água das chuvas, especialmente em episódios de alta precipitação. A Foto 4 apresenta a força da enxurrada que invade os terrenos nessa área.
Foto 4: Enxurrada invadindo os terrenos no jardim São Judas Tadeu. Fonte: Prefeitura Municipal de Jales, 2006.
A área identificada no Jardim do Bosque (nº 30) é uma área de fundo de vale, que drena bairros onde não existe vegetação. Esse fundo de vale não é canalizado, ali existem grandes problemas de erosão, que culminaram no desmoronamento de parte da rua paralela ao córrego.
A maior área em extensão com problemas de enchentes, se inicia no centro (nº 1), na rua 16, e se estende por toda a Avenida Maria Jalles, bairros número (4, 5, 6, 7 e 9), e alcança o residencial Maria Silveira (nº 9) e o Jardim Morumbi (nº 11). Nesses locais ocorrem inundações de residências, porém sem afetá-las demasiadamente. Alguns carros já foram arrastados pelas ruas e o asfalto de algumas áreas do Jardim Maria Silveira foi arrancado.
Durante a realização do trabalho de campo em janeiro de 2010, para reconhecimento dos trajetos para a realização do transecto móvel, nos deparamos com um episódio de enchente na Avenida Maria Jales, que fica as margens do córrego do Marimbondo, sendo este córrego canalizado a céu aberto. Nesse episódio, a água transbordou para a planície de inundação do rio, a qual se encontra, ocupada por casas e ruas. Foi necessário inclusive mudar o trajeto para desviar da enchente.
123 Outra área onde foram identificados problemas foi na Avenida da Integração, nos bairros números 47 e 48. Nesse local, algumas casas foram condenadas, como pode ser observado na Foto 5, onde o muro de arrimo foi derrubado.
Foto 5: Muro de arrimo derrubado pela enxurrada. Fonte: Prefeitura Municipal de Jales, 2005.
A principal atitude do poder público em relação a essas dificuldades é a de realizar obras de melhoria na infraestrutura, o que promove a curto e médio prazo, bons resultados. Porém, a longo prazo, esses problemas voltam a aparecer, principalmente, porque sua causa não é sanada apenas com essa melhoria. Sua causa está relacionada com o alto grau de impermeabilização do solo, que, por sua vez, propicia o aumento do escoamento superficial. A solução só se dará efetivamente ao se garantir espaços permeáveis dentro do sítio urbano, o que deve ser efetuado de duas maneiras. Primeiramente, o poder público deve fiscalizar as construções e garantir que os gabaritos de construção sejam respeitados, especialmente, a metragem de área permeável que é obrigatória para cada lote. Associado a isso, o poder público deve garantir a existência de fato, a qualidade de áreas destinadas ao sistema de espaços livres de edificação e, principalmente, que nessas áreas a vegetação seja o principal componente da paisagem, com altas porcentagens de solo permeável, e que tenham a finalidade de regular o escoamento superficial.
Deve-se destacar também, que as obras de infraestrutura como a canalização devem ser adequadamente dimensionadas, tanto em relação à capacidade volumétrica das galerias, quanto em relação à quantidade e localização dos bueiros e dos tanques reguladores de vazão.
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