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Para entender a experiência na vida de homens e mulheres é preciso compreender o diálogo existente entre ser social e consciência social. A partir da categoria experiência se “[...] compreende a resposta mental e emocional, seja de um indivíduo ou de um grupo social, a muitos acontecimentos interrelacionados ou a muitas repetições do mesmo tipo de acontecimento” (Thompson, 1981, p. 15). Dessa forma, grupos ou indivíduos definem e repensam suas práticas e representações sociais, pois a experiência proclama mortes, crises, guerras, desemprego, inflação, fanatismo religioso etc. Se pessoas individualmente ou em grupos estão esfomeadas, os que sobreviveram têm que pensar em novos modos de relação para com o mercado. Se “Pessoas são presas: na prisão pensam de modo diverso sobre as leis. Frente a essas experiências, velhos sistemas conceituais podem desmoronar e novas problemáticas podem insistir em impor sua presença” (Thompson, 1981, p. 17).

As maneiras de pensar e agir em relação a economia, as leis, e as religiões por exemplo, propicia refletir por meio da experiência novas problemáticas e refutar antigas práticas e representações. Permite compreender, portanto, padres e mulheres, filhos crianças ou adultos como sujeitos:

...não como sujeitos autônomos, ‘indivíduos livres’, mas como pessoas que experimentam suas situações e relações produtivas determinadas como necessidades e interesses e como antagonismos, e em seguida ‘tratam’ essa experiência em sua consciência e sua cultura [...] e em seguida [...] agem, por sua vez, sobre sua situação determinada (Thompson, 1981, p. 182).

A introdução da categoria experiência em articulação com a cultura nos faz entender a cultura como item não passivo de uma análise histórico-social. Temos que reconhecer que a experiência vivida pelos sujeitos que colaboram com a pesquisa, além de pensada é também sentida pelos sujeitos. Tendo em vista que os indivíduos não experimentam suas experiências apenas no campo das ideias (pensamentos e procedimentos), mas também experimentam suas experiências nas esferas culturais, como os sentimentos, as normas, as relações de reciprocidades, os valores, ou as ações mais elaboradas como as artes e as religiões.

A análise de Edward Palmer Thompson (1981) nos fornece elementos sobre os fenômenos sociais e culturais que se destacam e deixam de ser pensados somente como espelho imediato da vida econômica por exemplo. Abrindo espaço para reflexividade, por meio das evidências, investigar e analisar suas particularidades e especificidades é perceber como se expressam em condições materiais constituídas historicamente e socialmente. Dessa forma, os valores, as normas e as religiosidades da região do alto Paraná são percebidos principalmente como resultado das experiências humanas:

Os valores não são “pensados”, nem “chamados”; são vividos, e surgem dentro do mesmo vínculo com a vida material e as relações materiais em que surgem nossas idéias. São as normas, regras, expectativas etc. necessárias e aprendidas (e “aprendidas” no sentimento) no “habitus” de viver; e aprendidas, em primeiro lugar, na família, no trabalho e na comunidade imediata. Sem esse aprendizado a vida social não poderia ser mantida e toda produção cessaria (Thompson, 1981, p. 194).

É evidente e não podemos deixar de considerar que as experiências diárias dos sujeitos perpassam pelo econômico, tendo como conceitos históricos elaborados por Marx e Engels (1999), a classe está ligada à luta de classes, e esta é, conceitualmente, fundamentada no aspecto econômico das relações sociais. Entretanto, as relações sociais e culturais, na luta de classes, são experiências derivadas das relações econômicas de produção e/ ou dominação. Essa formulação é defendida por Thompson (1981) ao se referir à classe social em seu sentido heurístico, ou seja, para análise e investigação dos fatos.

Nesse sentido, o autor evidencia como prioridade a luta de classes, ao invés da classe. Acredita ser mais universal e evidentemente um conceito histórico, implica, entretanto, em um processo filosófico e sociológico. Assim, as pessoas se veem numa sociedade estruturada de certo modo, como por exemplo, as relações de produção. As pessoas suportam a exploração ou tentam manter seu poder sobre os explorados, “[...] identificam os nós dos interesses antagônicos, debatem-se em torno desses mesmos nós e, no curso de tal processo de luta, descobrem a si mesmas como uma classe, vindo, pois, a fazer a descoberta de sua consciência de classe” (THOMPSON, 1977, apud NEGRO & SILVA, 2001, p. 274). Temos, portanto, as ligações entre os conceitos de Classe Social e de Experiência, fundamentais na obra de Thompson, nos auxilia entender a formação dos movimentos de base nas décadas de 1970 ao início da década de 1990, dentre esses movimentos o IAJES e o MPC.

A experiência, como termo ausente do conceito da ortodoxia marxista, é o lugar que os trabalhadores se reconhecem enquanto classe e também os define como sujeitos de sua própria história. Nesse sentido, cabe ressaltar, que os trabalhadores não são definidos somente pela posição econômica que ocupam em uma estrutura – dadas as devidas proporções, pré-determinada e coercitiva – mesmos essas sendo marcantes, como são as relações de produção na história da luta de classes.

O autor faz ainda uma distinção entre consciência de classe e experiência de classe. A experiência de classe é determinada pelas relações de produção que se originaram, ou se inseriram mesmo sendo involuntário. Já a consciência de classe é a forma como essas experiências são pensadas em termos culturais arraigadas nas tradições, nos sistemas de valores, nas formas institucionais etc. (THOMPSON, 1997). Assim, a experiência aparece como determinada, não ocorrendo o mesmo com a consciência de classe, pois as experiências dos trabalhadores e os locais em que essas experiências são desenvolvidas e compartilhadas concebe um tipo de trabalhador autônomo, consciente de si mesmo, não necessitando de um guia para levá-los a adquirir a consciência de si. Essa visão representava uma crítica à tradição marxista ortodoxa do século XX.

Em relação a classe, no pensamento thompsoniano, constitui-se no seu fazer-se, num movimento que articula ação humana e condicionamentos sociais e, portanto, de “[...] experiências comuns que podem levar à formação de uma determinada identidade, que por sua vez, se coloca contra a identidade de outros homens em função de interesses materiais e culturais que são opostos” (Thompson, 1997, p. 10). Ao tratar classe social como um fenômeno histórico, o autor destaca a concepção do materialismo histórico e da relação dialética entre sujeito e objeto no processo de construção de conhecimento. Criticando assim o idealismo e a concepção positivista de história.

Nesse sentido, o objeto real é epistemologicamente inerte segundo o autor, o real não está “lá fora” e o pensamento “aqui dentro”. O pensamento e o real habitam um único espaço, que são as pessoas. “Mesmo quando pensamos, também temos fome e ódio, adoecemos ou amamos, e a consciência está misturada ao ser; mesmo ao contemplarmos o “real”, sentimos a nossa própria realidade palpável” (Thompson, 1981, p. 27). O fato de o objeto real ser epistemologicamente inerte não impede que seja parte determinante na relação sujeito-objeto, tendo em vista o exemplo dado por Thompson:

...minha mesa [...] Não se conhece nenhum pedaço de madeira que se tivesse jamais transformado a si mesmo numa mesa; nem se conhece qualquer marceneiro que tenha feito uma mesa de ar ou de serragem. O marceneiro se apropria da madeira e, ao transformá-la numa mesa, é governado tanto pela sua habilidade (prática teórica, nascida de uma história, ou “experiência”, de fazer mesas, bem como uma história da evolução das ferramentas adequadas) como pelas qualidades (tamanho, grão, amadurecimento) da própria prancha. A madeira impõe suas propriedades e sua “lógica” ao marceneiro, tal como este impõe suas ferramentas, suas habilidades e sua concepção ideal de mesas à madeira (Thompson, 1981, p. 26).

Dessa forma, consideramos os militantes religiosos e políticos que estudamos entre sujeito e objeto, existe uma interação dialética no processo de construção do conhecimento que se forma por meio de duas interseções: “[...] primeiro, o diálogo entre o ser social e a consciência social, que dá origem à experiência; segundo, o diálogo entre a organização teórica (em toda a sua complexidade) da evidência, de um lado, e o caráter determinado de seu objeto, de outro” (Thompson, 1981, p. 42).