5. Analysis
5.2 Types of event legacies
5.2.2 Infrastructural Legacy
Nada melhor que apresentar um espaço público que tem significados diferentes para a população de uma cidade. Esse é o exemplo da Hidráulica Moinhos de Vento que oferece o serviço de abastecimento e de tratamento de água em Porto Alegre e, ao mesmo tempo, abre para a população um espaço de visitação amplo e arborizado que foi expresso pelo próprio ambiente, os benefícios
que presta à sociedade (Fig. 90).
76 FRANCO, 1992. p.267
Fig. 90 – Planta de Situação da Hidráulica Moinhos de Vento.
Fonte: Maquete Eletrônica do acadêmico Lucas Volpatto, baseada em plantas aerofotogramétricas da Prefeitura Municipal de Porto Alegre e levantamento no local, 2005.
A história do abastecimento de água em Porto Alegre é de longa data, e tem
características peculiares desenvolvidas pelos diversos administradores (Fig. 91).
Foi no final do século XIX e início do XX que o Bairro Moinhos de Vento adquiriu um dos mais importantes equipamentos para o abastecimento de água da cidade. Esta história começou em 1780 quando a Câmara demonstrou a primeira preocupação com o conserto de uma fonte fora do “portão” da cidade, e a construção de uma fonte dentro da vila para consumo comum do povo. O abastecimento de água potável à cidade ocorreu, aproximadamente em 1860, com a fundação da Companhia Hidráulica Porto-Alegrense e a implantação do reservatório, dos chafarizes e das penas domiciliares. Com a expansão da cidade, esta companhia empenha-se em avançar com sua rede de canalização para atender além dos limites urbanos. Porém, era freqüente, especialmente no verão, que o fornecimento fosse suspenso.
Desta insuficiência no abastecimento de água, abriu-se a oportunidade
para outra empresa concessionária, a Cia Hidráulica Guaibense (Fig. 92), a
captar o “liquido precioso” de uma fonte inesgotável: o próprio lago do Guaíba. Seu administrador, o engenheiro José Estácio de Lima Brandão, encaminhou os planos à Câmara Municipal em 1887, com detalhes finais em 1889. Com uma grande expectativa da população, em 1891, a Hidráulica Guaibense começou a operar, fazendo sua captação de água na Praia de Belas. Mas, em 1904, o município encampou, através de um processo de compra, todo o sistema desta hidráulica, passando a explorar os respectivos serviços, além de iniciar, por conta própria, a construção de uma nova usina de recalque à
Rua Voluntários da Pátria e de reservatórios no Bairro Moinhos de Vento (Fig.
93, 94 e 95).
Fig.91 - Um pipeiro anônimo, distribuindo água potável na área próxima do Parque Farroupilha. Fonte: PEREIRA: 1991, p.18.
Fig.92 - O humor crítico da edição “O Século”, em 02 de novembro de 1884. Tanques primitivos de Guahybense, no Moinhos de Vento, com a “água suculenta” oferecida a população. Fonte: PEREIRA: 1991, p.24.
José Montaury dedicou-se a questão do abastecimento de água, realizando elogiáveis melhoramentos durante sua administração. Construiu um novo reservatório na Hidráulica Moinhos de Vento, comprou novo conjunto de bombas e
ampliou a rede existente77(Fig. 96).
Fig.93 -Vista geral da Hidráulica Municipal de Porto Alegre. Fonte: COSTA : 1922, p.175.
Fig.94 -Vista das construções da Hidráulica Municipal de Porto Alegre. Fonte: COSTA : 1922, p.175.
Fig.95 -Vista aérea da Hidráulica Municipal de Porto Alegre. Fonte: COSTA : 1922, p.175.
93 94
95
77 WEIMER, 1992: p. 100.
Fig.96 - Klinger (à esquerda de óculos e chapéu) chegou a morar na Hidráulica Moinhos de Vento para acompanhar os serviços de ampliação.
Uma das primeiras ações do político Otávio Rocha, ao assumir a Intendência Municipal, foi nomear uma Comissão para estudar os principais problemas do espaço urbano. Esta foi dividida em subcomissões, das quais, a de Saneamento ocupou-se em trabalhar sobre o problema do abastecimento, da captação e do tratamento d’água, entre outras atividades.
Assim, a administração de Otávio Rocha deu aos habitantes da capital água de verdade, água potável, água tratada. A água começou a ser tratada quimicamente com cloro, e, graças a esse processo e aos filtros modernos instalados na ‘Casa dos Filtros’, esta pode ser bebida pura, com boa qualidade, diretamente das torneiras. A Casa dos Filtros estava na Hidráulica Municipal Moinhos de Vento, que também era chamada simplesmente de “Caixa d’água”, a partir de 1910, quando
iniciou sua construção78.
A instalação de novos equipamentos para tratamento e filtragem da água, contratada pela empresa norte-americana Ulen & Cia., de Nova York, marcou uma revolução na qualidade de água fornecida ao porto-alegrense, em 1928,
na Hidráulica da Rua Vinte e Quatro de Outubro79. Pois, desde 1917, o consumo
de água em Porto Alegre começou a aproximar-se da capacidade da estação hidráulica (captação, tratamento e filtragem); além disso, a capacidade dos filtros não reduzia mais a turbidez e a matéria orgânica de forma satisfatória. Então, o Engenheiro Alfredo Wiltgen foi enviado a Montevidéu e a Buenos Aires, onde um sistema de tratamento e filtragem havia sido recém instalado, para estudar o assunto. No seu retorno, encaminhou um projeto idêntico para Porto Alegre, o qual seria elaborado pela empresa norte-americana Ulen and Company com sede em Nova Iorque.
O projeto foi aprovado pela Câmara Municipal, em 1920; em 1921, a câmara autorizou a obtenção de um empréstimo externo, mas a operação não foi realizada. Somente em 1925, Otávio Rocha conseguiu autorização para contrair o empréstimo
de 4 milhões de dólares80. Assim, as obras iniciaram em outubro de 1926 e foram
inauguradas, em novembro de 1928, por Alberto Bins.
78 PEREIRA, 1991, p. 39. 79 FRANCO:,1992. p. 19,20 21.
80 O empréstimo foi feito junto à norte-americana Londerburg Thelmann e Cia., pagando juros de 7,5%
A modernização da Estação de Tratamento da Hidráulica Moinhos de Vento contava com a construção de uma nova galeria para abrigar oito filtros rápidos, além dos quatro filtros lentos já existentes que seriam adaptados e transformados em decantadores.
Na galeria seria feito um torreão central para ser sede de um laboratório, para controlar a água distribuída. Um outro prédio foi construído para abrigar instalações destinadas a operação de adição de sulfato de alumínio, um acondicionador, para acelerar a mistura do sulfato com a água bruta, antes dela chegar aos decantadores.81
Além disso, seria construído um reservatório em forma cilíndrica (com capacidade de 6.500.00 litros), e aproveitados os reservatórios subterrâneos já existentes. A torre do reservatório elevado seria aumentada, enquanto um outro reservatório metálico e elevado seria construído para conter a água destinada à
lavagem dos filtros82. Finalmente, então, Porto Alegre teria água de verdade, água
potável, água tratada (Fig. 97 e 98).
Em 1950, Porto Alegre tinha uma população de 394.151 habitantes em todo seu território. E o abastecimento de água tornava-se tão insuficiente que o prefeito, engenheiro Ildo Meneghetti, na sua segunda administração municipal, em 1953, traçou como prioridade a construção de duas novas estações de tratamento e
distribuição, na Lomba do Sabão e na Tristeza83. A estação da Lomba do Sabão
seria responsável pelo abastecimento dos bairros Vila São José, Vila João Pessoa e grande parte do Partenon. A segunda, a Hidráulica da Tristeza, abasteceria os bairros da Tristeza, Cristal, Pedra Redonda, Vila Conceição, Cavalhada e Vila
Assunção84.
81 PEREIRA, 1991, p. 44. 82 PEREIRA, 1991, p. 44. 83 PEREIRA, 1991, p. 40. 84 SPALDING, 1953, s/p.
Fig.97 - Vista aérea dos jardins da Hidráulica Municipal de Porto Alegre. Fonte: COSTA, 1922, p. 175. Fig.98 - Vista aérea dos tanques da Hidráulica Municipal de Porto Alegre. Fonte: COSTA, 1922, p. 175.
A Hidráulica dos Moinhos de Vento era o orgulho da administração de Otávio Rocha. A concepção espacial, ocupando um quarteirão inteiro, além de demonstrar importância fundamental para a melhora da qualidade de vida da população, adequava-se ao local implantado. Técnica e arte se mesclavam com a sensibilidade da natureza, através da criação de canteiros que harmonizavam as casas de filtros
e caixas d’água necessárias. Segundo Weimer85, o projeto arquitetônico de
Christiano de La Paix Gelbert e a construção de Theo Wiederspahn e os tanques de filtragem eram os mais modernos equipamentos de controle importados diretamente dos Estados Unidos. “O prosaico castelo d’água transformado em obra
monumental”86, é exemplo da hierarquia dedicada ao conjunto. Não se pode
esquecer também, que a localização desta hidráulica era no topo da cidade, ao lado das moradias das elites.
Quanto aos jardins, há a presença forte da influência francesa, que os torna mais requintados com os desníveis, necessários à questão técnica, para o trânsito do pedestre. Passeios que eram freqüentes pela população, pois além de ser um local protegido, por ser murado, seus encantos eram apreciados pelas famílias que atravessavam as pontes, usavam os bancos para descanso e usufruíam da beleza
arquitetônica e do espaço aberto (Fig. 99).
A Hidráulica Moinhos de Vento era orgulho da cidade, sendo muitas as imagens encontradas em fontes de época dos seus espaços abertos,
equipamentos, bancos, fontes, etc87.
Fig.99 - Hidráulica Municipal de Porto Alegre. Um dos aspectos das instalações na rua Moinhos de Vento. Fonte: COSTA, 1922, p.173.
85 WEIMER, 1992, p. 102. 86 WEIMER, 1992, p. 103.
87 Ver imagens em SPALDING, Walter. Porto Alegre – monografia editada sob os auspícios da Prefeitura