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Apresentamos na presente seção a tradução das formas de tratamento usadas nas alocuções do texto de Voltaire. Recolhemos tais dados em três quadros, dos quais os dois primeiros nos dão as formas predominantemente usadas na epístola e nos diálogos dos capítulos do conto. Já no terceiro quadro, colocamos os trechos nos quais pudemos destacar singularidades a nos chamar a atenção por sua diversidade pronominal. Tais idiossincrasias no tratamento pronominal, vistas nos textos dos quatro autores estudados, permitirão inferir o tipo de construção de ethos empreendida por cada um dos enunciadores e o possível efeito de sentido produzido por tais textos.

Vejamos alguns trechos do conto e suas escolhas tradutórias. Como dissemos acima, primeiramente, explicitamos nos Quadros 10 e 11 a epístola e dois exemplos do plano dialogal, respectivamente:

Voltaire Mário Quintana/

Galeão Coutinho

Márcia Aguiar Antônio Silva

Je vous prie de lê lire Lede e julgai-a, peço-

vos:

Rogo-vos ler e julgar: Peço-te que o leias e tires tuas conclusões Quadro 10 - Pronome alocutário na epístola.Fonte: (VOLTAIRE, 2002, 2001, 2002, 2006)

O quadro abaixo – ilustra o uso do pronome alocutário no plano dialogal

Voltaire Mário Quintana/

Galeão Coutinho

Márcia Aguiar Antônio Silva

Le borgne

“O Zadig! je vous aimais comme mon époux, je vous aime comme celui à qui je dois l’honneur et la vie.”

“Ó Zadig! Antes eu te amava como a meu esposo; mas agora amo-te como aquele a quem devo a honra e a vida”.

“Oh, Zadig! Amava-

vos como meu esposo;

amo-vos agora como aquele a quem devo a honra e a vida.”

“Ó Zadig! Eu te amava como meu esposo e agora te amo como aquele a quem devo a honra e a vida.”

Le chien et le cheval

“Jeune homme, lui dit le premier eunuque, n’avez-vous point vu le chien de la reine?”

— Jovem – disse-lhe o primeiro eunuco, - não viste (tu) o cão da rainha?

“Jovem, disse-lhe o primeiro eunuco, acaso não vistes (vós) o cão da rainha?”

O cão e o cavalo — Jovem, disse-lhe o primeiro eunuco, não viste (tu) o cão da rainha?

Quadro 11 Pronome alocutário nos diálogos dos capítulos Fonte: (VOLTAIRE, 2002, 2001, 2002, 2006)

Tal como podemos ver nos dois quadros acima, MA traduz o vous por vós, ou seja, tanto na epístola como nos diálogos, faz corresponder vous por vós. AS, por sua vez, traduz o vous pelo pronome tu português, até mesmo na epístola, o que nos causou certo estranhamento, dado o efeito de cortesia sentido na leitura do texto francês, ficando esse efeito atenuado pela escolha do pronome singular. MQ/GC faz a mesma correspondência de maneira geral (vous tu), mas somente nos diálogos ao longo da história. Na epístola inicial, o vous é traduzido por vós, o que permite ao leitor, a nosso ver, recuperar o efeito cortês depreendido da carta, no texto de partida. MQ/GC distingue a tradução do alocutivo francês entre a epístola, no qual emprega o tratamento cerimonioso impresso pelo vós e a narrativa, na qual faz a maioria dos personagens empregarem o pronome tu. Portanto, na quase totalidade dos casos, MQ/GC usa tu, MA, vós e AS, tu, como podemos ver nos quadros acima. O que faremos a seguir, no próximo quadro e na análise correspondente, é justamente apontar os casos que estão fora desta generalização.

Como vimos no Capítulo 3, o texto de partida foi produzido no período pré-revolução francesa do século XVIII. Os tradutores do conto, que ora analisamos, parecem levar tal fato em consideração, usando sobretudo dois pronomes - vós e tu - em vias de desaparecimento no português brasileiro, mas que na referida época ainda encontravam-se em uso. Vimos que AS emprega tu na quase totalidade de seu texto, no contexto de uma edição menos cuidada, com certa quantidade de erros de digitação e de revisão. Vós, empregado pela tradutora MA, fornece um efeito ainda maior de formalidade do que tu. Há alguns tu, e vamos analisar as circunstâncias em que este pronome ocorre, ao lado de outras formas de tratamento no Quadro 10. MQ/GC é o tradutor que mais diversifica no emprego de pronomes pessoais e formas de tratamento. Em seus diálogos, o alocutivo mais usado é o tu. No entanto, na epístola, Sadi dirige-se à sultana por vós. Conforme dissemos no Capítulo 1, o efeito produzido pelo pronome tu está diretamente vinculado a um certo arcaísmo associado a um grau de

intimidade entre os interlocutores; vós está hoje totalmente em desuso, salvo em contextos profissionais específicos, para demonstrar deferência, como no ramo jurídico.

A seguir, faremos uma análise mais aprofundada, no Quadro 12, unicamente do plano dialogal, assinalando as minúcias presentes em certos capítulos do conto, selecionados por suas singularidades no tocante à diversidade pronominal:

Voltaire MQ/GC MA AS

Le borgne

“Quand tu manges, donne à manger aux chiens, dussent-ils te mordre.”

Quando comeres, dá de comer aos cães, ainda que te mordam.

Quando comeres, dá de comer aos cães, mesmo que te mordam.

Quando comeres, dá de comer aos cães, ainda que te mordam.

L’envieux “Gardez-vous bien de punir Zadig” “Guardai-vos de punir Zadig: é um santo” “Não deveis absolutamente punir Zadig” “Guarde-se bem de punir Zadig” Les généreux

— Sire, lui dit-il, c’est Votre Majesté seule qui mérite la coupe: c’est elle qui a fait l’action la plus inouïe, puisque, étant roi, vous ne vous êtes point fâché contre

votre esclave,

lorsqu’il contredisait

votre passion.

- Sire - disse êste, - é

Vossa Majestade

quem merece a taça, pois foi quem praticou a ação mais inaudita: sendo rei, não vos indignastes por haver vosso

escravo contrariado as vossas paixões.

- Sire – disse este,

Vossa Majestade é a

única a merecer a taça. Fostes vós quem praticastes a ação mais inaudita, já que, sendo rei, não vos aborrecestes contra

vosso escravo quando

este contradisse vossa paixão.”

- Majestade, lhe disse Zadig, é Vossa

Majestade que

merece a taça; é

Vossa Majestade

que praticou a ação mais inaudita, porquanto, sendo rei, não se indignou contra seu escravo quando este contrariou sua paixão.

Le ministre

— Vous ne rendrez rien, dit Zadig, et

vous aurez les trente

mille pièces: c’est

vous qui aimez le

mieux votre père. “Qu’enseigneras-tu à

ton pupille? dit-il au

premier.

“Não devolverás nada – disse Zadig e terás as trinta mil moedas: és tu que tem mais amor a teu pai”

“Que ensinarás a teu pupilo?”

“Não devolvereis nada, disse Zadig, e recebereis as trinta mil moedas: sois vós quem mais ama vosso pai.

“Que ensinarás a teu pupilo?

Não devolverás nada, disse Zadig, e ainda terás as trinta mil moedas: és tu que tens mais amor a teu pai.

“Que ensinarás a teu pupilo?”

La femme battue

— Ah! ah! lui dit cet emporté, tu l’aimes donc aussi! et c’est de

toi qu’il faut que je

me venge. “Secourez-moi” — Que tu meures, scélérat, lui répondit-

- Ah! Ah! - exclamou o possesso. Com que então também a amas?

mulher-Zadig: (momento 1) “Acode-me”; “Que

-Ah! ah!, disse-lhe o exaltado, então tu também a amas! e é de ti que devo me vingar." "Socorrei-me /–Que morras, celerado,

-Ah! Ah! –exclamou esse possesso. Então

tu também a amas? É exatamente de ti que tenho de me vingar. "Acode-me! -Que morras, celerado – respondeu

elle; que tu meures!

tu as tué mon amant

je voudrais pouvoir déchirer ton coeur. “Secourez-moi encore une fois, étranger généreux; je

vous demande pardon

de m’être plainte de vous: secourez-moi, et je suis à vous jusqu’au tombeau” Zadig: “Que voulez-vous maintenant de moi, madame?”

“A d’autres, répond- il; vous ne m’y attraperez plus.”

morras, celerado, que morras; mataste o meu amor; eu quisera estraçalhar-te o coração” (momento 2) “Socorrei-me outra vez, generoso estrangeiro! Perdoai- me por me haver queixado de vós. Socorrei-me, que serei vossa até o túmulo" Zadig-mulher: (momento 1) “[...] Que quereis de mim agora?”. (momento 2) “Arranja-te com outros – respondeu- lhe, a mim é que não pegas mais!”

respondeu ela; que morras! mataste meu amado; gostaria de dilacerar-te o coração. (momento 2) "Socorrei-me mais uma vez, estrangeiro generoso! peço-vos perdão

por ter-me queixado de vós: socorrei-me e serei vossa até a morte!"

Que quereis agora de mim, senhora?

“Pedi a outros!, respondeu; não me pegareis mais.”

–que morras! Mataste meu amado; gostaria de poder despedaçar teu coração.

"Socorrei-me (vós) outra vez, generoso estrangeiro! Peço perdão por me ter queixado de ti.

Socorre-me e serei

tua até o túmulo!" Zadig:

“eu te vinguei; estás livre do homem mais violento que já vi. Que queres agora de mim, senhora?” "Chama por outros! - respondeu-lhe; a mim é que não me pegas mais!" L’esclavage — Quel est le caractère de votre débiteur? [...] — Eh bien! insista Zadig, permettez que je plaide votre cause devant lê juge.

- Qual é o caráter de

seu devedor?

[...]

- Pois bem! - insistiu Zadig. - Permita que pleiteie sua causa perante o juiz.

Qual o caráter de

vosso devedor?

[...]

-Pois bem!, insistiu Zadig, permiti que defenda vossa causa perante o juiz."

-Qual é o caráter de

seu devedor? -

perguntou Zadig. [...]

-Pois bem! -insistiu Zadig -permite-me que defenda tua causa perante o juiz.

Le bûcher

“Parlez aux chefs des tribus, et je vais trouver la jeune veuve.”

Vous aimiez donc

prodigieusement votre mari?

[...] “Que feriez-vous enfin, lui dit-il, si la vanité de vous brûler ne vous tenait pas? — Hélas! dit la dame, je crois que je vous

prierais de

m’épouser.”

“Dirija-se aos chefes das tribos, e eu vou ter com a viúva.” - Decerto amava prodigiosamente a

seu marido, não?

[...] - Que faria, enfim, a senhora, se

lhe passasse essa vaidade de ser queimada?

- Ah! - retrucou a dama - Acho que lhe

pediria que se casasse comigo.

“Falai com os chefes das tribos, e eu vou ver a jovem viúva. " Amáveis pois prodigiosamente

vosso marido?

[...] "Que faríeis no final das contas, disse ele, se a vaidade de

vos queimar não vos

dominasse? -Ai de mim!, disse a dama, creio que vos rogaria esposar-me."

“Fala aos chefes das tribos e eu vou ter com a jovem viúva.” - Decerto amava prodigiosamente seu marido, não? [...] - Que farias, enfim, lhe disse, se desistisses dessa vaidade de te queimar?

- Ah! Retrucou a mulher – acho que te pediria para casar comigo.

Le pêcheur

O mon filet! je ne te jetterai plus dans

Ó minha rêde, não mais te lançarei, eu é

Ó minha rede! Não mais te lançarei à

Ó minha rede! Não te lançarei mais na

l’eau, c’est à moi de m’y jeter.

“Pourquoi

succombez-vous à

vos malheurs? dit Zadig au pêcheur. “Ayant ainsi perdu mon argent, ma femme, et ma maison, je me suis retiré dans ce pays où

vous me voyez”

— Orcan vous aurait- il pris votre femme?

— Plus malheureux que toi cent fois, répondait Zadig. [...] — C’est que ton plus grand malheur, reprit Zadig, était le besoin, et que je suis infortuné par le coeur.

que devo lançar-me à água.

- Por que sucumbes às tuas desditas? - perguntou Zadig ao pescador.

“Tendo assim perdido o meu dinheiro, a minha mulher e a minha casa, retirei- me para esta região onde o senhor me vê”

“Será que Orcan te roubou a mulher?”

água, sou eu que devo nela lançar-me. "Por que sucumbis às

vossas desgraças? -

perguntou Zadig ao pescador.

"Tendo assim perdido meu dinheiro, minha mulher e minha casa, retirei-me a este recanto onde me vedes”

-Acaso Orcan tomou-

vos a mulher?

“Estou certo, disse Zadig, de que não perderás todo vosso dinheiro”.

água, eu é que devo me jogar na água. -Por que sucumbes a

tuas desventuras? -

perguntou Zadig ao pescador.

“Tendo perdido desse modo meu dinheiro, minha mulher e minha casa, retirei- me para esta região onde o senhor me vê. - Orcan roubou tua mulher? – perguntou o pescador. Procurei subsistir com a profissão de pescador. Os peixes zombam de mim, como os homens; não consigo apanhar nenhum, morro de fome; e, sem vocês augusto consolador, eu ia me afogar no rio.

Le basilic

oserai-je vous prier de m’apprendre ce que c’est qu’il n’est permis qu’aux femmes de toucher? [...] O généreuse dame! pardonnez à un étranger, à un infortuné, d’oser

vous demander par

quelle aventure étonnante je trouve ici le nom de ZADIG tracé de votre main divine.

[...]

Pendant qu’elles cherchent leur basilic, dit la belle Astarté, je vais vous apprendre tout ce que j’ai

- Não seria

indiscrição perguntar-

lhe que coisa é essa

em que só as mulheres podem tocar? [...] - O generosa dama! perdoai que um estrangeiro, um infeliz, ouse

perguntar-vos por que espantosa aventura vejo aqui o nome de Zadig escrito por

vossa mão divina.

[...]

- Enquanto elas procuram o basilisco - disse a bela

Astartéia, - vou contar-te o que sofri e

ousarei rogar-vos dizer-me que coisa é essa que só às mulheres é permitido tocar? [...] "Ó generosa senhora! Perdoai a um estrangeiro, a um infortunado, ousar perguntar-vos por que ventura espantosa encontro aqui o nome de ZADIG traçado

por vossa mão

divina." [...]

-Enquanto elas procuram o basilisco, disse a bela Astarté, vou contar-vos tudo o que sofri, e tudo o

Não seria indiscrição perguntar-lhe que coisa é essa que só é permitido às mulheres tocar? [...] -Ó generosa senhora! Perdoe a um estrangeiro, a um infeliz, que ousa perguntar-lhe por que espantosa

coincidência vejo aqui o nome de ZADIG escrito por

sua mão divina?

[...]

- Enquanto elas procuram o basilisco – disse a bela Astartéia – vou te contar tudo o que

souffert, et tout ce que je pardonne au ciel depuis que je

vous revois.

[...]

“Belle Missouf, lui dis-je, vous êtes beaucoup plus plaisante que moi,

vous divertirez bien

mieux que moi le prince d’Hyrcanie. [...]

Que la santé immortelle descende du ciel pour avoir soin de tous vos jours; Je suis médecin, j’ai accouru vers vous sur le bruit de votre maladie, et je vous ai apporté un basilic cuit dans de l’eau rose.

tudo o que perdôo ao Céu desde que tornei a ver-te.

[...]

- Bela Missuf - disse- lhe então, - és muito mais sedutora do que eu, e saberás divertir o príncipe de

Hircânia. [...]

- Que a saúde imortal baixe do Céu para tomar a seu cuidado todos os vossos dias! Sou médico; acorri ao saber de vossa doença, e vos trouxe um basilisco cozido em água de rosas.

que perdoei ao céu assim que vos revi. [...]

"Bela Missuf, disse- lhe, sois muito mais amável que eu, entretereis bem melhor o príncipe de Hircânia.

[...]

"Que a saúde imortal desça do céu para zelar sobre todos

vossos dias! Sou médico, acorri a vós trazido pelo rumor de

vossa doença, e trouxe-vos um basilisco cozido em água-de-rosas.

sofri e tudo o que perdôo ao céu desde que tornei a ver-te. [...]

-Bela Missuf -eu lhe disse – és muito mais sedutora que eu, saberás divertir muito mais o príncipe de Hircânia que eu. [...]

-Que a saúde imortal baixe do céu para tomar cuidado de todos os seus dias! Sou médico, acorri para junto do senhor ao saber de sua doença e trouxe um basilisco cozido em água de rosas. Le souper “Ah! qu’allez-vous faire? — Manger de cette poule, dit l’homme à la momie. — Gardez-vous-en bien, dit le Gangaride; il se pourrait faire que l’âme de la défunte fût passée dans le corps de cette poule, et vous ne voudriez pas vous exposer à manger votre tante?

- Oh! Que vai fazer? - Comer essa galinha - disse o homem da múmia.

- Oh! não faça isto! Suponha-se que a alma de sua tia se haja encarnado nessa galinha, e o senhor certamente não vai expor-se a devorar a senhora sua tia!

"Oh! que ides fazer? -Comer desta galinha, disse o homem da múmia. -Não façais isso, disse o gangáride; pode ser que a alma da defunta tenha passado ao corpo desta galinha, e certamente não vos quereis expor a comer vossa própria tia.

- Ah! Que estás fazendo?

-Vou comer essa galinha -respondeu o homem da múmia. -Não faças isso de jeito nenhum! -disse o gangárida. Poderia muito bem ocorrer que a alma da defunta

sua tia tenha passado

para o corpo dessa galinha e tu não gostarias de te expor a devorar tua tia!

Les rendez-vous

— Signez toujours, dit Almona.

— Volontiers, dit le prêtre, à condition que vos faveurs seront le prix de ma facilité. — Vous me faites trop d’honneur, dit Almona; ayez seulement pour agréable de venir dans ma chambre - Assinai, assim mesmo - insistiu Almona.

- Com muito gôsto - disse o sacerdote, - sob a condição de que

seus favores sejam o

prêmio de minha facilidade. - Muita honra me concedeis - disse Almona. - Dignai-vos vir a meu quarto

“Assinai ainda assim, disse Almona. -Com prazer, disse o sacerdote, com a condição de que

vossos favores sejam

o preço de minha facilidade. -Fazei-me grande honra, disse Almona; tende

apenas a bondade de vir ao meu quarto

-Assine, assim mesmo -disse Almona.

-Com muito gosto - falou o sacerdote -sob a condição de que

teus favores sejam o

prêmio de minha facilitação.

-Muita honra tu me concedes -disse Almona. Peço-lhe somente que tenha a

delicadeza de vir a meu quarto

L’ermite

Mon père lui dit Zadig, qu’est-ce que tout ce que je vois?

Vous ne me paraissez

ressembler en rien aux autres hommes: vous volez un bassin d’or garni de pierreries à un seigneur qui vous reçoit

magnifiquement, et vous le donnez à un avare qui vous traite avec indignité. (momento 2)

— Qui te l’a dit barbare? cria Zadig; et quand tu aurais lu cet événement dans

ton livre des destinées, t’est-il

permis de noyer un enfant qui ne t’a point fait de mal?

(momento 1)

“Senhor, que vejo eu? – diz-lhe Zadig - Não

vos pareceis nada com os outros homens, roubais uma bacia de ouro guarnecida de pedrarias a um senhor que vos recebeu magnificamente, e a presenteais a um avarento que vos trata com indignidade” (momento 2) “Quem

te disse tal coisa,

bárbaro? – gritou Zadig. E, mesmo que houvesses lido esse acontecimento no teu livro dos destinos, acaso te será permitido afogar uma criança que não te fez mal nenhum?”

"Pai, disse-lhe Zadig, que significa tudo isso? Não pareceis em nada com os outros homens: roubais uma bacia de ouro guarnecida de pedrarias a um senhor que vos recebe magnificamente, e a ofereceis a um avarento que vos trata com indignidade. (momento 2) -Quem te disse, ó bárbaro? , gritou Zadig; e mesmo que houvesses lido esse fato em teu livro dos destinos, ser-te-ia acaso permitido afogar uma criança que não te fez mal algum?"

-Senhor -lhe disse Zadig -que significa isso tudo que estou vendo?

Não se parece em nada com os outros homens: rouba uma bacia de ouro guarnecida de pedrarias a um senhor que o recebe magnificamente e a dá de presente a um avarento que o trata com indignidade. (momento 2) -Quem te disse isso, bárbaro? -vociferou Zadig. Mesmo que o

senhor tivesse lido

essa ocorrência em

seu livro dos

destinos, porventura

lhe seria permitido

afogar uma criança que não lhe fez nenhum mal?

Quadro 12 – Usos atípicos dos pronomes no plano dialogal Fonte: (VOLTAIRE, 2002, 2001, 2002,

2006)

Com o auxilio do quadro acima, pretendemos ressaltar as particularidades das três traduções de Zadig para o português do Brasil quanto ao tratamento do plano dialogal do conto de Voltaire. Estamos, portanto, analisando como se dá a alocução nos textos produzidos por Voltaire, MQ/GC, MA e AS. A categoria de pessoa, evidenciada por Benveniste (1966/1995 e 1974), nos guia para essa tarefa. Como vimos no Capítulo 1, as pessoas do discurso são a 1ª e a 2ª. A 3ª pessoa fica em princípio fora do discurso. No entanto, como veremos, a alocução em português é muitas vezes feita através da 3ª pessoa, que Benveniste denomina a “não-pessoa”.

Inicialmente, verificamos como é manifestada a alocução no texto de Voltaire e, em seguida, vimos como se dá a sua correspondência em cada tradutor. Os parâmetros que guiam nossa análise estão contidos nos capítulos teóricos, e vão aos poucos sendo explicitados ao longo desta tese. No conto em francês, o alocutário é majoritariamente vous, tanto na epístola