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O paradoxo da política moderna entre razão e violência atinge seu ponto máximo em Hiroshima e Nagasaki, na possibilidade da guerra nuclear. Uma vez que a modernidade percebeu que a origem da violência se situava na falha da razão, a guerra nuclear é, paradoxalmente, o ápice da racionalidade técnica ocidental em sua mais perfeita forma e especialidade (a técnica de matar) e, ao mesmo tempo, o limite do político, pois é a tragédia final, a tragédia absoluta.

a guerra geral e total [a guerra nuclear], como ocorreria (ou como a imaginamos) é considerada uma catástrofe irremediável. Traria a liquidação recíproca dos beligerantes; destruiria as instalações que sustentam a civilização do vencedor e do vencido, deixando assim de ter sentido para ambos217 (nossos itálicos).

Após Hiroshima e Nagasaki, como bem interpretou Hannah Arendt, gerações passaram a viver sempre à sombra do juízo final218. Assim, com a guerra nuclear a

humanidade chegaria ao fim de suas tragédias. Não haveria mais o "após a tragédia"; nada mais a ser reconstruído. Chegaríamos à impossibilidade de uma nova Fênix. Seria a extinção.

O fim da tragédia significaria o fim do aprendizado para a humanidade. A história humana, as narrativas históricas da humanidade são indissociáveis da tragédia. Nessas narrativas, a guerra tem um lugar de destaque. São as guerras que apontam os fins e os inícios das eras vividas pelas populações e pelos povos. São as guerras que demarcam o surgimento e o desaparecimento de impérios, estados e tribos. As narrativas de processos de purificação de povos onde os mais fracos são substituídos pelos mais fortes se fundamentam

217 ARON, Raymond. Pode-se limitar a guerra na era atômica? [1955]. In: ______. Estudos políticos. Brasília:

UnB, 1985, pp.489-502.

88 nas guerras. A guerra seria a "continuação da política com a entremistura de outros meios"219

ou apenas uma "cultura e um modo de vida"220. Pela guerra se estabeleceria o direito e a

possibilidade de justiça dentro de estados. Da mesma forma, externamente, uma polícia mundial poderia atuar disciplinando populações e estados que não se adequassem aos padrões de valores e regras estabelecidos pela sociedade internacional. Há guerras justas e guerras injustas. Há guerras que põe fim a todas as demais guerras – até a deflagração da próxima guerra. O equilíbrio de poder pode ser garantido por guerras pontuais e instrumentais, sustentando-se o status quo221. Príncipes, reis e líderes de todos os tipos são

legitimados no poder a partir de seus sucessos em batalhas. São eles que controlam os destinos e as vidas das populações sob seu mando, como pais protetores e responsáveis. O heroísmo é indissociável das honras e orgulhos nacionais. Tributos são prestados a Marte. A guerra é constitutiva do nacionalismo, das hierarquias sociais, do direito, da justiça e da paz.

Violência e tragédia não são a mesma coisa. Não informam da mesma forma a racionalidade política das Relações Internacionais. Na política moderna, a violência aparece também como possibilidade de se evitar a tragédia: a menor violência curadora. A violência menor que cura, que nos protege da violência maior; da violência da guerra total, da guerra nuclear. O liberalismo nas RI dissemina esse discurso da violência menor através da violência policial no sistema internacional. Alguns estados autorizados seriam encarregados de levar ordem, justiça, democracia, paz e segurança ao sistema como um todo e a cada estado individualmente. Há uma economia de autolegitimação duvidosa e, em si mesma, violenta nessa aspiração liberal.

A política deve ser racional. Ser racional é ser não violenta. Ser racional é também calcular. Se houver violência, que seja calculada. A calculabilidade é a medida da violência menor, da violência necessária, da violência legítima. Medir riscos; medir perdas e ganhos. Cálculos utilitaristas de força e morte. Violência e razão só se encontram enquanto resultados de uma medida, de um cálculo de utilidade e necessidade. E esse cálculo autoriza a ação de alguns em detrimento de outros.

Loucura e extinção não são conceitos nas RI. Loucura e extinção não são problematizadas pelos autores de RI. Elas não são explicitadas ou sistematizadas. Não há

219 Tal seria a tradução adequada do aforismo tradicional de Clausewitz ("a guerra é a continuação da política

por outros meios"). Cf. KEEGAN, John. Uma história da guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.18.

220 KEEGAN, John. Op. cit., 2006, p.25. 221 BULL, Hedley. Op. cit., 1977.

89 debates sobre loucura e extinção nas RI, entre 1910 e 2001. Loucura e extinção são referentes dos discursos de tragédia em cada um dos dispositivos de segurança da Guerra Total e da Guerra Fria. Isso significa que loucura e extinção informam os discursos possíveis acerca da segurança internacional em cada um daqueles dispositivos. Quando são pensadas as guerras, a paz, a segurança, os modos de agir e de pensar politicamente, os limites da racionalidade política, são mobilizados vários discursos que acionam a tragédia através da loucura ou da extinção. No Capítulo 1, vimos como os limites da ação política racional no que respeita as possibilidades ou impossibilidades de se fazer a guerra acionam a loucura da ação política que visa a guerra como um instrumento válido ou inválido da política internacional. Entre as décadas de 1910 e 1940, mas especialmente após a tragédia da Primeira Guerra Mundial, a guerra passou a ser considerada uma ameaça às populações e, portanto, engajar-se impensadamente e impulsivamente em empresas guerreiras seria considerada loucura por parte de qualquer líder; seria uma política irracional, seria, enfim, trágico. A loucura se opõe ao racional. Isso não significa evidentemente que a loucura seja teorizada tecnicamente. Trata-se, tão somente, de um referente. A guerra como opção neste período era pensada como guerra policial idealizada especialmente pelos liberais, mas mais especificamente por Norman Angell em Peace with thre dictators?222. A guerra policial

poderia ser feita apenas como uma "guerra da Liga", uma guerra multilateral e com a missão pontual de pôr fim aos regimes fascistas agressivos, de Hitler e Mussolini, no caso. No mesmo sentido se expressava Alfred Zimmern

The ideal that I would aim at is an arbitral court in which any nation could make complaint against any other nation, and if the complaint is found by the court to be within its jurisdiction, the nation complained against should be summoned, the issue framed by pleadings, and the matter disposed of by judgment. It would, perhaps, sometimes require an international police

force to carry out the judgment, but the public opinion of nations would

accomplish much. With such a system we would count on a gradual abolishment of armaments and a feeling of the same kind of security that the United States and Canada have to-day which makes armaments and navies on our northern border entirely unnecessary223 (nossos itálicos).

Da mesma forma, nas páginas acima, vimos como a extinção serviu como referente da racionalidade política no dispositivo Guerra Fria. É a extinção que condiciona o agir e o pensar político na Guerra Fria. A tragédia da extinção da espécie humana funciona

222 ANGELL, Norman. Op. cit., 1938.

223 ZIMMERN, Alfred. The League of Nations and the Rule of Law (1918-35). Londres: Macmillan, 1936,

90 no dispositivo Guerra Fria de modo a legitimar e sustentar um regime de verdade que impõe à imaginação internacional a guerra nuclear, a tragédia nuclear, como limite da ação política e também como único referente da segurança internacional. É o medo da extinção que legitima a segurança internacional e a ação dos estados, especialmente no que diz respeito à adoção de medidas excepcionais para o combate ou a contenção da guerra nuclear. A guerra deixara de ser uma opção política. Lembremos da declaração de Paul Nitze na Conferência sobre Teoria em 1954: "Agora há a Bomba-H". Um limite havia sido traçado. Um limite para a ação política racional. A racionalidade política tomava a partir de então como referente a segurança não apenas das populações norte-americanas, europeias, etc., mas a própria existência da espécie humana e da vida na Terra. Se a guerra fosse usada de agora em diante o seria apenas como uma analogia às práticas passadas, como certa metáfora do que havia sido; uma metáfora para o enfrentamento. A guerra tomará a forma da ação policial e se cercará do vocabulário da legalidade.

A função do terror nuclear no dispositivo Guerra Fria será, portanto, a de fazer circular a tragédia pelas práticas, discursos e técnicas de modo a legitimar, estrategicamente, as relações de força entre dominadores e dominados em todas suas dimensões. É o terror nuclear que autoriza as exceções políticas na Guerra Fria através do dispositivo que a ativa. Apenas com referência a uma política trágica se legitimam exceções à lei, às leis dos estados e às leis das nações. Um dos efeitos do terror nuclear como tragédia foi velar o terrorismo como problema de segurança internacional. Nos estudos de RI, a tragédia nuclear funcionou de modo a velar o terrorismo, um problema mais palpável, presente e urgente do que os mísseis nucleares que jamais saíram de seus silos. A política da verdade em exercício pelo dispositivo Guerra Fria estabeleceu o que era digno e indigno de ser pesquisado; o que era verdadeiro e o que era falso em termos de segurança internacional. Apenas a tragédia civilizacional foi capaz de exercer a função política da exceção legítima.