Na teoria de Peirce (2000), o pensamento humano é sempre representação. Ele quer dizer com isso que o homem pensa sempre alguma coisa por meio de outra: representa. Um signo se refere a outras idéias, a outros objetos do mundo que refletem um passado, a experiências anteriores. Não há pensamento sem signos e sem uma interpretação, a qual se faz por meio da estruturação sígnica.
Toda representação é uma imagem, um simulacro do mundo a partir de um sistema de signos, ou seja, em última ou em primeira instância, toda representação é gesto que codifica o universo, daí, ao mesmo tempo, mais exigente de todo processo de comunicação é o próprio universo, o próprio real. Dessa presença decorre sua exigência, porque este objeto não pode ser exaurido, visto que todo processo de comunicação é, se não imperfeito, certamente parcial. Assim, corrigindo, toda codificação é representação parcial do universo, embora conserve sempre, no horizonte da sua expectativa, o desejo de esgotá-lo (FERRARA, 1997, p. 7).
Ferrara (1997, p. 67), em seu vocabulário crítico, afirma que representar “é estar em lugar de, isto é, estar em relação com alguma coisa de modo a poder ser considerado por alguém como se fosse a própria coisa representada”.
Eco (1980, p. 10) extrai o conceito de signo: “segundo Peirce, um signo é qualquer coisa que está para alguém no lugar de algo sob determinados aspectos ou capacidades”. Então, signo pode ser entendido como uma coisa que representa outra coisa, ou seja, ele representa o seu objeto. Para que um signo seja signo é indispensável que tenha a capacidade de representar, substituir uma outra coisa diferente dele.
Peirce (2000) estabelece uma relação sígnica entre signo-representâmen ou fundamento, objeto e interpretante. A noção de interpretante não se define como intérprete do signo, mas através da relação que o signo mantém com o objeto; é uma representação do conhecimento desse signo. Eco (1980, p. 58) afirma: “o interpretante é aquilo que assegura a validade do signo mesmo na ausência do intérprete”. A partir dessa relação, produz-se na mente interpretadora um outro signo que traduz o significado do primeiro (que é o interpretante do primeiro). Por exemplo, a palavra CASA é um signo interpretante do signo casa (objeto) constituído unicamente em cada subjetividade. Dessa forma, o significado de um signo é sempre outro signo, e assim por diante.
Santaella (1983, p. 51) explica que:
Diante de qualquer fenômeno, isto é, para conhecer e compreender qualquer coisa, a consciência produz um signo, ou seja, um pensamento como mediação irrecusável entre nós e os fenômenos. E isto, já ao nível do que chamamos de percepção. Perceber não é senão traduzir um objeto de percepção em um julgamento de percepção, ou melhor, é interpor uma camada interpretativa entre a consciência e o que é percebido.
O fundamento é o suporte de um signo ou aquilo que funciona como signo, remetendo a algo para um interpretante. É por meio dele que o signo se remete por alguma causa a um objeto, seja a semelhança, a indicação ou a convenção.
O objeto que é exterior ao signo, denominado de objeto dinâmico, é espelhado no interior do signo, imagem esta que se denomina objeto imediato, como ilustra a figura explicativa, a seguir:
Figura 2: Signo
Portanto, o signo é uma relação indissociável de um fundamento, aquilo que permite ao signo funcionar como tal; de um objeto, aquilo que determina o que o signo é, ao mesmo tempo que ele é representado por outro signo; de um interpretante, o efeito que o signo representa em uma mente interpretadora qualquer, esse efeito que pode ser, por exemplo, um pensamento, uma reação, uma sensação ou uma simples qualidade de sentimento.
Exemplo: o desenho de uma casa é um signo; o fundamento – que é o corpo do signo em si – é o próprio desenho que se visualiza; na prática, é o veículo da informação. O objeto é o fato ou uma casa qualquer. O interpretante pode ser a interpretação que alguém venha a fazer do fato, é a casa que vem à mente quando deparada com o signo. Para a Semiótica não há comunicação sem significação e não há significação sem interpretação, isto é, sem a passagem que se pode fazer de determinados signos para outros signos e de códigos para outros códigos na busca de uma significação.
Os signos diferenciam-se, dependendo da relação entre os elementos que os compõem e de suas ações específicas. Quando um signo se relaciona consigo mesmo – primeiro elemento da tríade – pode ser classificado em quali-signo, sin-signo ou legi-signo. Quando um signo se relaciona com o seu objeto dinâmico, segundo elemento da tríade, pode ser classificado como ícone, índice e símbolo. Quando se relaciona com o(s) interpretante(s), terceiro elemento da tríade, o signo pode ser classificado como rema, dicente e argumento.
Na leitura de imagens, como as usadas em livros infantis, faz-se necessário a compreensão da relação do signo com o seu objeto dinâmico e segundo elemento da tríade: ícones, índices e símbolos.
Os ícones são signos que representam seus objetos, com características incorporadas do próprio objeto, independente de um objeto existir ou não. Nesse caso, o signo remete a um objeto por apresentar qualidades comuns a ele, na medida em que for semelhante a essa coisa e utilizado como um seu signo. Podem ser, por exemplo, fotografias, desenhos, diagramas, fórmulas lógicas e algébricas, imagens mentais.
Quanto ao índice, é um signo que se refere ao objeto. É determinado por uma conexão física com o objeto que representa e denota em virtude de ser realmente afetado por esse objeto. "O índice, como seu próprio nome diz, é um signo que como tal funciona porque indica uma outra coisa como a qual ele está factualmente ligado" (SANTAELLA, 1990, p. 90). Portanto, constitui-se não na semelhança, como o ícone, mas na dependência física com o objeto. Exemplos: dedo apontado para um objeto, pegadas na areia, cata-vento, fumaça como sinal de fogo.
O símbolo é um signo que se refere ao objeto, que denota em virtude de uma lei, extraindo um poder de representação que foi convencionado. O símbolo geralmente é uma associação de idéias gerais, que fazem com que ele seja interpretado como se referindo àquele objeto. Nessa categoria, sua definição é por convenção, e sua relação com o objeto é arbitrária. Exemplos: todas as palavras, frases, livros, bandeiras e outros signos convencionais.
É principalmente pela capacidade de interpretação dos leitores que o signo na sua modalidade símbolo se relaciona com o seu objeto. As associações mentais ocorrem por meio de uma agregação de idéias, que atua de forma que o símbolo seja interpretado como se fosse aquele objeto. Exemplo disso é a bandeira do Brasil (símbolo do Brasil) e as cores verde e amarelo, associadas à bandeira. Essa associação de cores (símbolo) traz a idéia do Brasil, que, por sua vez, fez-se referente a um costume, tradição, rotina, hábito ou lei adquirida, que faz esse símbolo representar algo diferente dele. Afinal, o símbolo é um signo que determinado indivíduo e/ou grupo convencionou e passou a ser aceito como representante de algo, do objeto dinâmico.