Paper III: Duration of labour was longer in women with fear of childbirth than in women without fear of childbirth
6.2 Methodological considerations
6.2.2 Information bias – Information bias arises when the available information is erroneous 133 . Misclassification is termed differential or nondifferential 133
Fatiha, de 31 anos, que gere a pequena loja de crepes marroquinos em Essaouira, mesmo por baixo do apartamento que aluguei para a minha estadia na cidade, trabalha com outras mulheres. Na parte escura e traseira da loja, estas amassam os crepes, enquanto Fatiha atende simpaticamente os clientes. Sana é a sua melhor amiga, vivem juntas. Como já foi referido, Fatiha é divorciada. Sana, a sua amiga, é solteira e nas alturas de maior trabalho junta-se à amiga na produção dos crepes. Sana trabalha como cozinheira num hotel em Sidi Kaouki67 e fala razoavelmente francês, ao contrário das demais mulheres da loja. Sana é, aos trinta anos de idade, uma «solteirona». Contou-me em tom de brincadeira que, em Marrocos, se uma mulher não está casada aos trinta, as pessoas acham que ela tem um problema qualquer. Defende-se, dizendo que ainda não encontrou o homem certo. Quando se casar quer deixar de trabalhar e dedicar-se exclusivamente ao marido. Perguntei-lhe, «mas não gostas do que fazes?». «Gosto» respondeu, «mas quero um marido que seja rico o suficiente para que eu possa ficar em casa, para que eu não tenha que trabalhar e tratar da casa ao mesmo tempo. Quero dedicar-me a ele, à casa e aos nossos filhos». No entanto, dizia que, caso o marido fosse gentil e lhe pedisse para trabalhar, não se importaria de o fazer.
Ao longo de cerca de um ano que estive em Essaouira fui conhecendo mulheres que partilhavam estas mesmas opiniões relativamente ao casamento; em alguns casos mulheres com cursos universitários e empregos relativamente estáveis que abandonaram a vida profissional com a vontade e o desejo de se dedicarem exclusivamente à nova unidade conjugal. Também conheci mulheres que recusaram várias propostas de casamento pela razão inversa, porque os maridos queriam que elas deixassem de trabalhar depois de se casarem; outras ainda que quebraram noivados à medida que, em contacto com os noivos, compreenderam que estes esperavam mudanças radicais nas suas vidas, que não estavam dispostas a fazer. No devido momento, darei conta das circunstâncias e especificidades dessas histórias.
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Este capítulo pretende apresentar de que forma as expectativas e os desencontros dão conta das continuidades e mudanças familiares em Marrocos. Importa compreender o que as expectativas nos dizem das pessoas enquanto seres-no-mundo, em construção processual e sempre motivadas, consciente ou inconscientemente, para a acção. Ao analisar as expectativas não se tem por objectivo conceber, pelo menos do ponto de vista analítico, um «futuro expectável» (Pina-Cabral 2010), ou seja, não se pressupõe que elas devam/tenham que ser cumpridas, mas sim entender quais as condições em que são formuladas e o que favorece ou impede a sua concretização.
As expectativas femininas sobre a conjugalidade dão conta das disposições sociais face ao casamento, às relações de género e finalmente às relações familiares. Não devem ser entendidas como representações colectivamente construídas e, portanto, imagens estanques e repetidas, mas sim como valores que, sendo partilhados, são sempre individualmente concebidos e imaginados. As expectativas são sonhos, esperanças e desejos, são no fundo tentativas de encontros, de consonância entre aquilo que se quer, o que se espera e aquilo que é possível. São projecções sobre um futuro. Por outro lado, os desencontros são também a expressão emocionalmente investida de que aquilo que se projecta não é concretizável.
Uma das difíceis questões a resolver nas ciências sociais é a teorização da mudança e a sua coordenação com estruturas e continuidades historicamente constituídas. Neste capítulo, pretende-se colocar em evidência a interacção entre essas estruturas continuadas e noções de modernidade relativamente recentes que ao interagirem, reelaboram os sentidos da hierarquia e da assimetria entre pessoas. No capítulo IV abordaram-se comportamentos como a obediência e a dissidência no contexto marroquino e a sua constituição histórica. Expôs-se também como é que as hierarquias são constituídas no quotidiano, integrando factores que são marcadores sociais, como a idade e o género e outros, de âmbito comportamental, como a devoção ou a vigilância. Este capítulo pretende mostrar como, ao nível das relações conjugais, estes factores interagem para formar as expectativas e os desencontros. As expectativas de casamento assentam recorrentemente na criação de uma unidade conjugal onde homens e mulheres têm diferentes interesses e responsabilidades. Ao mesmo tempo que se assiste à replicação de assimetrias entre homens e mulheres, na medida em que implicam diferentes graus de obediência e dedicação à vida familiar, elas vão sendo reconfiguradas, pois as noções da conjugalidade vão sofrendo alterações. Estas mudanças são processuais e vão ocorrendo ao longo do tempo e da vida conjugal, não
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independentes das condições sociais e da vigência/recorrência de determinados valores em detrimento de outros.
Para analisar o que são as expectativas da conjugalidade é preciso ter em mente que a própria noção de conjugalidade tem que ser construída contextualmente, na medida em que implica concepções específicas do que é ser homem e mulher, marido e esposa, pai e mãe, filhos e pais, no fundo do que é ser pessoa. As expectativas de muitas mulheres partem de um conjunto mais ou menos partilhado de concepções e características sobre o casamento, onde se cruzam interesses partilhados e interesses singulares. Vejamos de que forma essas expectativas se expressam e como ocorrem os desencontros.
SUSTENTO
Maryam tinha acabado de se divorciar quando cheguei a Essaouira. Vem de uma família da região. O pai fixou-se na cidade e abriu uma pequena loja de especiarias, que é gerida por um irmão dela. Vive actualmente com a filha, ocupando um pequeno quarto no andar onde residem os pais, num prédio familiar que o pai construiu com a ajuda de alguns irmãos, numa zona relativamente pobre da cidade. Depois de se casar, Maryam mudou-se para Casablanca, a cidade onde o marido residia. Deixou o seu trabalho como cabeleireira e começou a usar véu e jilāba, algo de que não gostava, mas que o marido esperava que fizesse. Ao chegar a Casablanca, descobriu que as promessas do marido, que tinha conhecido através de um anúncio de jornal, não correspondiam à realidade. Este não tinha condições económicas para sustentar a vida dos dois e por isso partilhavam um pequeno apartamento com dois irmãos dele, o que criava grande desconforto para Maryam. Ele era costureiro, mas não ganhava o suficiente e, por essa razão, Maryam acabou por lhe dar algumas das suas jóias do casamento (prendas, que normalmente são património exclusivo da mulher), para que ele pudesse comprar novos tecidos para o seu ofício, ou ainda coisas necessárias para a casa. Sabendo-se grávida, Maryam pediu ao marido para voltar a Essaouira. Queria ficar perto da mãe e da irmã, que a ajudariam após o nascimento da criança. Depois de uma espera dolorosa e silenciosa, o marido permitiu mas apenas quando faltava pouco tempo para o parto. Maryam veio para Essaouira e teve a filha no hospital. Foi a sua mãe que pagou as despesas do hospital assim como um valor extra que os enfermeiros habitualmente exigem para tratar bem dos pacientes. De acordo com Maryam, o marido não contribuiu
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com nada. Depois disso, Maryam decidiu não mais voltar a Casablanca. O marido veio com o seu pai e mãe, para tentar convencer Maryam a voltar para casa. Nesse dia, perante todos, Maryam declarou que queria divorciar-se.
Muito embora eu não tenha conhecido Maryam através da AFBK, a sua história assemelha-se a muitas que vim a ouvir através do Centro de Escuta, falando com as mulheres, com o advogado ou com a Presidente. A constituição de uma nova unidade familiar assenta sobre expectativas partilhadas de que a responsabilidade principal é assumida pelo homem, na medida em que deverá ser ele a dar sustento, isto é, deverá garantir as condições para que o novo agregado familiar se concretize: a casa, a alimentação, o vestuário tanto da mulher como dos filhos.
Para as mulheres, a vida de casada implica uma mudança estrutural na sua
corporalidade e expressão física, na medida em que assumem uma outra forma de se
expor no espaço público. O casamento implica que aceitem limitar alguns dos seus movimentos na esfera pública, não só porque passam mais tempo em casa mas também para reduzir a sua exposição pública. Exige que mudem a sua aparência, substituindo as
jeans e camisas da juventude pelas jilāba-s e véus, tal como aconteceu no caso de
Maryam. Por exemplo, muitos maridos sentem-se no direito de impedir as mulheres de viajar sozinhas, dentro ou para fora do país. A filha da presidente da associação queria assistir, com outra funcionária da associação, a uma formação (sobre violência doméstica) em Casablanca. Quando lhe perguntei quando iria, disse-me que a viagem ainda não estava confirmada. Precisava de saber se a sua mãe também iria, porque só assim o marido o permitiria. Muitas vezes, as mulheres não apresentam uma razão concreta para este tipo de impedimentos por parte dos maridos (questionei quais os medos que poderiam ter e nenhuma resposta concreta me foi dada). Na realidade, razões religiosas podem ser apresentadas, como vários ḥādīth-s que reportam que a mulher só pode viajar acompanhada de um mahram (ou seja, um parente com quem o casamento seria considerado incestuoso, pais, avós, irmãos). No entanto, limitam-se a repetir que os maridos não gostam, que é um costume antigo e que essa realidade não iria mudar tão cedo. A funcionária da associação afirmava que muitos maridos sentem-se perturbados quando outros homens os questionam sobre as liberdades permitidas às mulheres, como se tal os colocasse em causa como figuras maritais. Mas, no fundo, o que está em causa, é a persistência de uma concepção generalizada de que os direitos do marido incidem sobre a corporalidade da mulher – não só a sua aparência, como a sua movimentação.
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Muito embora seja assim que muitas mulheres e homens concebem o casamento e as diferentes responsabilidades e direitos que ele implica, existe um choque entre o ideal (o que é expectável) e as condições práticas da sua concretização. Nem sempre os maridos conseguem encontrar um trabalho bem pago. Entre os jovens rapazes é particularmente difícil cumprir tal requisito e, por isso, nem sempre contam toda a verdade às raparigas e às suas famílias sobre as suas reais condições económicas, alimentando o sonho ou a expectativa de que o negócio vá dar certo ou que venham a ser contratados para um trabalho bem pago.
De acordo com os dados estatísticos de 2006, a população activa desempregada caracteriza-se pela sua juventude. 39,1% dos desempregados têm menos de 25 anos (37,0% em meio urbano e 47,9% em meio rural, num país onde a escola é abandonada cedo) (Royaume du Maroc, 2006). Este desencontro entre expectativas e condições reais vem redefinir a moralidade do casamento, onde a obediência e a autoridade são dois pólos que estruturam a união conjugal, pólos esses que se legitimam nas assimetrias de género. Para o marido, a autoridade é resultado da sua maior exposição às adversidades do mundo, conseguindo providenciar pela família. Para a mulher, a obediência, manifesta primeiramente na mudança da corporalidade, é a expressão de um consentimento, que supõe que ela seja dispensada de assumir encargos económicos. Até 2004, a Lei da Família atribuía ao marido o papel de decisor e chefe do casal. Tal veio a ser modificado, em parte graças às reivindicações das ONG feministas e de direitos humanos.
As expectativas masculinas em relação ao casamento assentam na ideia da mulher como responsável da casa. De acordo com o inquérito realizado por Moustafa Aboumalek (1994) entre a população de Casablanca, sobretudo de baixo estrato social, o ideal da mulher doméstica é vigente. O autor constatou que pelo menos três quartos da sua amostra de esposos se mostram hostis à ideia da mulher exercer uma profissão. Esta concepção encontra-se ligada a noções sobre a masculinidade e a feminilidade; o domínio doméstico pertence à esfera de acção da mulher enquanto o trabalho público e a exposição são vistos como masculinos. No que se refere ao casamento, a principal qualidade do cônjuge ideal, identificada no Inquérito Nacional sobre os Valores levado a cabo no âmbito do Relatório «50 anos de desenvolvimento humano em Marrocos e perspectivas para 2025», é a justiça e a seriedade, seguidas de qualidades diferenciadas
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para homens e mulheres: a origem familiar e a hadga68 são qualidades procuradas na mulher e o salário estável no homem (Bourquia et al. 2005). O mesmo inquérito identifica que 79% dos inquiridos consideram que a obediência da esposa ao marido favorece a harmonia no seio da família, 12% não são a favor de uma obediência sistemática e apenas 4% desaprovam o princípio da obediência da mulher69. No entanto, estas expectativas nem sempre são alcançadas uma vez que são frequentemente as mulheres que têm maior facilidade em encontrar trabalho, não só pela própria natureza do mercado de trabalho (marcadamente informal), mas também porque facilmente mobilizam as suas redes de solidariedade (cf. Mir-Hosseini, 1993).
Ao longo do séc. XX e em contexto urbano, as mulheres saem de casa como trabalhadoras assalariadas para as fábricas (em 2012, 49,2% dos empregados da industria têxtil são mulheres), como domésticas (33,6%), ou ainda, trabalhando nos serviços sociais fornecidos à comunidade (41,6%) (Royaume du Maroc 2013)70. Ora, o trabalho assalariado assumiu assim um papel central na vida de muitas mulheres (no campo, esse trabalho sempre existiu e inscreve-se no âmbito das relações familiares), o que veio a influenciar as dinâmicas familiares e como já referido, as expectativas de reclusão e segregação, tanto de homens como de mulheres71.
Por isso é frequente que, quando os maridos não conseguem assumir essa responsabilidade, sejam elas a fazê-lo. A análise dos dossiers de 47 mulheres que foram à AFBK em 2011, mostra que 35 referem não ter qualquer profissão. Entre as mulheres menos instruídas, o trabalho não representa à partida uma forma de emancipação ou de melhor qualidade de vida. É antes do mais uma necessidade que se impõe quando os maridos não conseguem trazer o suficiente para casa, ou finalmente, quando se divorciam. Entre as classes populares e médias baixas, o trabalho é frequentemente informal, esporádico, extremamente mal pago e, para as mulheres, nem sempre em
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Uma qualidade associada à actividade física da mulher, sobretudo nas tarefas domésticas.
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Num inquérito realizado nos anos noventa aos jovens entre os 12 e 30 anos, foi perguntado qual o grau de obediência que a esposa deve ao marido. Entre os jovens do sexo masculino 49,4% considerava que deve obedecer frequentemente, 47,5% responderam que deve obedecer por vezes e apenas 3,1% respoderam que não deve obedecer. Entre as jovens do sexo feminino, 18,8% responderam pela obediência frequente, 73,3% responderam por vezes e 7,9% afirmaram que não deve qualquer obediência (Bourquia et. Al. 2000). Estas respostas mostram que a obediência é, mesmo entre os jovens, um importante valor atribuído ao sexo feminino dentro da unidade conjugal.
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Optou-se por utilizar, quando possível, os dados de 2012 pela maior proximidade ao momento de realização do trabalho de campo (em 2011). A variação de categorias demográficas presentes nos vários documentos estatísticos obriga a que nem todos os dados possam referir-se ao mesmo tipo de informação recolhida ou contemplar sempre um intervalo de anos, o que permitiria uma comparação temporal.
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Apesar desta cada vez maior presença das mulheres nas actividades assalariadas, as estatísticas continuam a indicar uma maior taxa de femininização entre a população (+ 15 anos) inactiva do que entre a população activa (incluindo ocupada e desempregados). Ver mais à frente os dados estatísticos.
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locais vistos como apropriados (ou seja trabalhos que envolvem exposição pública e contacto com homens estranhos à família) (cf. Jansen 1987, Macleod 1991). A condição laboral ou situação no emprego/na profissão das mulheres para 2012 em contexto urbano é a seguinte: 20,3% da população feminina é assalariada, 14,7% é independente ou empregador, 57,3% realiza ajuda familiar72 e 44,2% tem «outro estatuto» (Royame du Maroc 2013). O conceito estatístico de trabalho informal é difícil de quantificar, mas esta categoria de «outro estatuto» parece referir-se à amálgama de situações de emprego a que nos temos vindo a referir e que caracteriza a realidade predominante das vidas das mulheres das classes populares marroquinas. Como refere Ennaji: «Uma parte considerável da mão-de-obra feminina é iletrada e ocupa empregos não especializados ou semiespecializados. Consequentemente, uma taxa de empregabilidade mais alta entre as mulheres não significa necessariamente um maior grau de desenvolvimento económico das mulheres.» (Ennaji 2011:205).
Quando trabalham, as mulheres acabam muitas vezes por assumir o sustento da família. Em termos estatísticos, a proporção de unidades domésticas dirigidas por mulheres é reduzida, muito embora tenha aumentado entre 1960 (11,2%) e 1971 (16,9%) (Lfarakh,1998:108), motivada pela viuvez, o divórcio ou o abandono da família pelo marido (Ibid., Chekroun 1996). Como refere Ziba Mir-Hosseini, que analisou casos referentes a disputas matrimoniais nos tribunais de Rabat e Salé:
«Os casos em tribunal que envolvem os pobres retratam uma situação em que, contrariamente ao modelo legal, as mulheres são economicamente activas e contribuem tanto como os seus maridos para a economia da unidade doméstica. Nalguns destes casos, a capacidade salarial da mulher é muito superior à do marido. Isto é particularmente verdade em Marrocos, onde a presença das mulheres é muito visível no mercado de trabalho. (…) Estas realidades económicas entre os pobres citadinos vão contra o próprio fundamento do modelo legal do regime matrimonial, que se baseia na capacidade dos homens de sustentarem a família sozinhos. As expectativas relativas aos papéis ideais exigem que os homens sejam responsáveis por governar a casa, ao passo que na prática as mulheres estão mais na liderança. É o choque entre o ideal e o possível que se encontra na origem das disputas matrimoniais entre os pobres, particularmente em Marrocos. (…) Duas respostas comuns por parte dos homens a estas tensões são a violência e o abandono.» (Mir-Hosseini 1993:120/121)
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A taxa de feminização do emprego segundo a situação de «ajuda familiar» é sobretudo alta em contexto rural: 60,1%. Em contexto urbano representa 24,3% (Royaume du Maroc 2013). Esta discrepância deve- se ao facto de muito do trabalho incluído dentro de «ajuda familiar» ser o agrícola ou florestal (apanha de lenha por exemplo, uma actividade essencialmente feminina)
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À semelhança do que Ziba Mir-Hosseini encontrou para os casos que analisou nos tribunais, também na Associação a violência e o abandono são respostas dos maridos ao desencontro entre aquilo que eles concebem como sendo o modelo socialmente valorizado e a sua vivência real. Em Essaouira, a impossibilidade de viver apenas com o rendimento de uma única pessoa é muito sentida entre os mais pobres, visto que a indústria é praticamente inexistente, o porto de pesca é rudimentar e o turismo é uma actividade sujeita a grandes oscilações anuais do número de visitantes. A região agrícola envolvente sofreu duas décadas de grande seca e muitas famílias migraram para a cidade à procura de uma vida melhor, que nem sempre encontraram. Nestas circunstâncias, os maridos sentem-se incapazes de garantir aquilo que o casamento implica. A violência, o abandono e a negligência familiar são em parte a manifestação deste desencontro.
Abu-Lughod afirma que a modernidade, entre os beduínos do Egipto, veio precisamente tornar as esferas económicas de menor interdependência entre homens e mulheres. A subsistência dos beduínos era baseada nos rebanhos e nos campos e homens e mulheres trabalhavam conjuntamente. A introdução de modos de subsistência dependentes de uma economia monetária relegou as mulheres para a esfera doméstica, confinando-as a um domínio separado e economicamente desvalorizado (cf. Abu- Lughod 1988). Também Vanessa Maher (1974) notou, ainda nos anos oitenta, que o estatuto matrimonial das mulheres da cidade era maior do que as mulheres do qaṣr (da aldeia), muito embora aquelas fossem mais isoladas que estas. De acordo com a autora, as mulheres da cidade, detendo um maior capital económico e simbólico, devido em parte ao casamento, eram mais dependentes da unidade conjugal do que as mulheres do
qaṣr, o que garantia às últimas maior liberdade de movimentos e de divórcio. As
mulheres da cidade, frequentemente originárias de outras regiões, tinham cortado os elos com a família extensa e isso colocava-as numa situação de maior dependência do marido. Maher analisou mudanças nas concepções de conjugalidade comparando a vida urbana e a vida rural. Pode-se afirmar que estas análises acabam por mostrar a valorização da vida doméstica como um sinal de modernidade, sobretudo em contexto urbano. Por essa razão, muitos homens e mulheres vêm a vida doméstica da mulher como um ideal a cumprir; no entanto, as condições reais nem sempre permitem que