4 Effort Provision in a Game of Luck
4.8 Appendix A
4.8.3 Full information: Effort is visible to everyone, Cause of output is
Cr ít ico f er r enho da lit erat ur a se dest inar apenas às classes mais f avorecidas economica- ment e da sociedade, o escr it or Lima Bar ret o t em sido cr it icado pela sua f or ma de escr ever , muit o dif er ent e de out r os de seus pares, pr incipal- ment e do Rio de J aneir o. Par a ele, a lit er at ur a deve ser acessível a t odos, sem dist inção. Veement e na def esa do que acr edit a ser cor r et o, t em colhido achincalhes, cr it icas mordazes, per dido opor t unidades de empr egos e danif icado a saúde. Mesmo sem t er conseguido ingr essar na Academia Br asileir a de Let r as, apesar de duas t ent at ivas e uma desist ência que ser ia a t er ceir a, Lima Bar r et o é um dos mais impor t ant es escr it or es br asileiros. Encont r amo-lo, par a est a ent r evist a, numa mesa do Caf é J ava, local dos mais f r eqüent ados pela int elect ualidade car ioca, no Cent r o da cidade do Rio de J aneiro.
Repórter – Em alguns moment os, os seus escr it os são pur o pr ot est o. É pr ot est o
cont r a os descaminhos da República, cont r a ar bit r ar iedades da polícia, f avoreciment os da municipalidade, cont r a o f azer lit er ár io do Sr . Coelho Net o, enf im pr ot est o. Por quê?
Lima Bar ret o – Eu não me canso nunca de pr ot est ar . Minha vida há de ser um
pr ot est o cont r a t odas as inj ust iças.
Repórter – A r espost a cur t a é um pr ot est o cont r a a per gunt a?
Lima Bar r et o –Eu f ico aqui sempr e com os meus pr ot est os163.
Repórter – Falemos de lit er at ur a, como o Sr . vê as nossas obr as lit er ár ias?
163BARRETO, Lima. Padr es e f r ades. I n: Toda cr ônica. Or ganização Beat r iz Resende e Rachel Valença.
Lima Barret o – Falt am nas obr as br asileir as as car act er íst icas das lit er at ur as
r icas: aut onomia, independência de pensament o e var iedade de execução. Ent ão, em ver so, é uma lást ima! quem sai f or a dos moldes, leva pedradas. O poet a novo é t ant o melhor quant o mais bem past icha o passado. É o cr it ér io da academia...164
Repórter – O Sr . é um escr it or engaj ado. Est á sempr e pr ont o a def ender , em
seus escr it os, aquilo que j ulga adequado. Ser ia essa a missão da lit er at ur a?
Lima Barret o – A missão da lit er at ur a é f azer comunicar umas almas com as
out r as, é dar -lhes um mais per f eit o ent endiment o ent r e elas, é ligá-las mais f or t ement e, ref orçando desse modo a solidar iedade humana, t or nando os homens mais capazes par a conquist a do planet a e se ent enderem melhor , no único int uit o de sua f elicidade. Os lit er at os, os grandes, sempr e souber am mor r er de f ome, mas não r ebaixar am a sua ar t e par a simples pr azer dos r icos. Os que sabiam alguma cousa de let r as e t al f aziam, er am os hist r iões; e est es nunca se sent ar am nas sociedades sábias...165
Repórter – Mas no j or nalismo brasileir o alguns desses hist r iões t êm assent o.
Lima Barr et o – O mais cur ioso, nest e nosso j or nalismo moder no, é que, como
muit as de t odas as out r as coisas da nossa at ividade ment al, sej am chamados a f alar de cer t os assunt os homens que não t iver am a educação e a inst r ução par a ist o, mas que, simplesment e com uma inst r ução de mer os guarda-livr os e auxílio do dinheir o de ar gent ár ios, se ar r ogam o dir eit o de f alar sobr e quest ões sociais e polít icas. O Br asil, como t odo o mundo, pr ecisa f icar livr e desses maus past or es, e t odo o esf or ço que se f izer par a isso t er á t odo o apoio dos homens independent es.166
164O meu conselho. Toda cr ônica. Vol. I I . p. 428 165Hist r ião ou lit er at o. Toda cr ônica. Vol. I . p. 319 166Ao Caio M. de Bar r os. Toda cr ônica. Vol. I . p. 281
Repór t er – O Sr . leva a cr ít ica ao j or nalismo à lit er at ur a, com o r omance
Recor dações do escr ivão I saías Caminha, ao f azer uma car icat ur a de f igur as
pr oeminent es das r edações car iocas, levando-as inclusive ao r idículo, como t ambém o diár io Cor r eio da Manhã. Tem-se a impressão de que o seu obj et ivo, com essas cr ít icas, t ambém ser ia de chamar at enção par a a obr a.
Lima Barret o – Se lá pus cer t as f igur as e o j or nal, f oi par a escandalizar e
pr ovocar a at enção par a a minha br ochur a. Não sei se o pr ocesso é decent e, mas f oi aquele que me sur giu par a lut ar cont r a a indif erença, a má vont ade dos nossos mandar ins lit er ár ios.167
Repórter – O Sr . t em cr it icado as t ent at ivas do governo par a equilibr ar as
f inanças do país, as quais aliam aument o de impost os com dispensa de f uncionár ios públicos. Poder ia explicar isso melhor ?
Lima Bar ret o – A nossa burguesa f inança gover nament al só conhece dous
r emédios para equilibr ar os or çament os: aument ar impost os e cor t ar lugar es de amanuenses e ser vent es. For a desses dous paliat ivos, ela não t em mais beber agem de f eit iceiro par a cur ar a crônica molést ia do déf icit .
Essa pesada massa de impost os, ger alment e sobr e gêner os de pr imeir a necessidade, devendo ser democr at icament e igual par a t odos, vem ver dadeir ament e r ecair sobr e os pobr es, ist o é, sobr e a quase-t ot alidade da população br asileir a, que é de necessit ados e pobr íssimos, de f or ma que as t axas dos Colber t s da nossa r epr esent ação par lament ar conseguem est a cousa mar avilhosa, com as suas medidas f inanceir as: ar r anham super f icialment e os r icos e apunhalam mor t alment e os pobres.
167Cor respondência. São Paulo: Br asiliense, 1956. p. 238. Tomo I [Car t a a Esmar agdo de Freit as,
Desde que o governo da República f icou ent r egue à vor acidade dos polít icos de São Paulo, obser vo que o seu desenvolviment o econômico é guiado pela seguint e lei: t ornar mais r icos os r icos; e f azer mais pobr es os pobres.168
Repórter – Por que São Paulo?
Lima Bar ret o –Eu me explico. Os polít icos, os j or nalist as e mais engrossador es
das vaidades paulist as não cessam de ber rar que a capit al de São Paulo é uma cidade eur opéia; e é bem de ver que uma cidade eur opéia que se pr eza não pode deixar de of erecer aos f orast eir os o espet áculo de misér ia mais pr of unda em uma par t e da população.169
Repórter – Em seus escr it os, o senhor chega a br incar com a palavr a loucur a e,
algumas vezes, at é mesmo a se declar ar louco. O que ser ia a loucur a, em sua visão?
Lima Barr et o – É assim como uma sepult ur a em vida, um semi-ent er r ament o,
ent er r ament o do espír it o, da r azão condut or a, de cuj a ausência os cor pos r ar ament e se r essent em. A saúde não depende dela e há muit os que par ecem at é adquir ir mais f or ça de vida, pr olongar a ex ist ência, quando ela se evola não se sabe por que or if ício do cor po e par a onde...170
Repórter – Como assim?
Lima Bar ret o –Quem uma vez est eve diant e dest e enigma indecif r ável da nossa
pr ópr ia nat ur eza, f ica amedr ont ado, sent indo que o ger me daquilo est á deposit ado em nós e que por qualquer coisa ele nos invade, nos t oma, nos esmaga e nos sepult a do mundo. Cada louco t r az em si o seu mundo e par a ele não há mais
168N o aj ust e de cont as. I dem. p. 336-337 169I bid. p. 337
semelhant es; o que f oi ant es da loucur a é out r o muit o out r o do que ele vem a ser após.171
Repórter – O mist ér io da loucur a....
Lima Barret o – O angust ioso mist ér io que ela encer r a, f eit o não sei de que
inexplicável f uga do espír it o daquilo que se supõe o real par a se apossar e viver das apar ências das coisas ou de out r as apar ências das mesmas.172 Enf im, a
loucura declar ada, a exalt ação do eu, a mania de não sair , de se dizer per seguido, de imaginar como inimigos, os amigos, os melhor es.173
I magem 9 – O Caf é J ava, no cent r o do Rio de J aneir o, er a local de encont r o da int elect ualidade carioca
Repórter – Alguns, na cidade, o chamam de louco e de escr it or pouco cuidadoso
com o vernáculo...
Lima Barreto – Não me abor r ecer ia com essas consider ações a meu r espeit o se
elas não envolvessem duas cousas: a loucur a e a calúnia à lit er at ur a.174
Repórter – Tais conside-r ações a seu r espeit o de-nunciar iam, ent ão, uma cr i-t ica
à sua post ur a lit er ár ia, ou mesmo uma censur a?
171Obra cit ada. p. 58 172Op. cit . p. 58 173I dem. p. 59
Lima Barret o – Compr e-endo per f eit ament e esse est ado de espír it o policial ou
cost umeir o, à vist a da car est ia da vida e da necessidade em que est á o lit er at o que t er f ama de não dizer nada, andar bem-vest ido e f azer par t e da cor t e de algum Cunhambemba polít ico. Não sou desse f igur ino e sei que ir r it o os alt os espír it os dos manequins int elect uais, quando me vêem o nome com qualquer apelido lit er ár io.175
Repórter – Como supor t ar , ent ão, cr ít icas dest r ut ivas?
Lima Barreto – Tent e e não se impor t e com a Academia e out r as consagr ações,
r ompa com elas; não se incomode que os “delambidos” e dout or es lit erár ios condenem as suas peças, por não ser em comédia, nem dr ama, nem t r agédia, nem lá o que eles ent endem, segundo os velhos cânones lit erár ios. Alar gue os quadros, mist ur e uns com out r os gêneros, mas, sem esquecer o seu post ulado, de modo que cont ent e o público e f aça cousa de pensament o e r enda.176
Repórter – Pensament o e r enda nos lembr a, de alguma f or ma, quest ões polít icas.
Por f alar nisso, como o Sr . vê a polít ica no nosso país?
Lima Barret o – Não gost o, nem t r at o de polít ica. Não há assunt o que mais me
r epugne do que aquilo que se chama habit ualment e polít ica. Eu a encar o, como t odo o povo a vê, ist o é, um aj unt ament o de pir at as mais ou menos diplomados que explor am a desgraça e a misér ia dos humildes. Nunca querer ia t r at ar de semelhant e assunt o, mas a minha obr igação de escr it or leva-me a dizer alguma coisa a r espeit o, a f im de que não par eça que há medo em dar , sobre a quest ão, qualquer opinião.177
Repórter – Mas a polít ica não é algo essencial ao nosso pr ogresso?
175I dem. p. 450
176Sobr e o nosso t eat ro. Toda cr ônica. Vol. I . p. 479 177A polít ica r epublicana. Toda cr ônica. Vol. I . p. 392
Lima Barr et o – A polít ica não é aí uma gr ande cogit ação de guiar os nossos
dest inos: por ém uma vulgar especulação de car gos e pr opinas.178 A polít ica r esume-se num descar oçar de at as f alsas, na expr essão de um pr of issional, ou numa discur seir a vazia de int eligência mas cheia de palavr ões e sent enças acacianas.179
Repórter – Se muit o polít ico é vazio de int eligência, como consegue se
sobr essair?
Lima Barreto – Convém que o seu nome saia nos j or nais, par a isso deve cult ivar a
amizade dos j ornalist as de t odas as opiniões do moment o, desde os f amosos at é o mais obscur o. Pr ocur e mesmo que os r apazes dos j or nais o t r ocem.180
Repórter – A polít ica do I mpér io se assemelha à da República?
Lima Barreto – No impér io, apesar de t udo, ela t inha alguma gr andeza e beleza.
As f ór mulas er am mais ou menos r espeit adas; os homens t inham elevação mor al e mesmo, em alguns, havia desint er esse. Não é ment ir a ist o, t ant o assim que muit os que passar am pelas maiores posições mor r er am pobr íssimos e a sua descendência só t em de f or t una o nome que r ecebeu.181
Repórter – E a República?
Lima Barreto – A r epública, por ém, t r azendo à t ona dos poder es públicos a bor r a
do Br asil, t r ansf or mou complet ament e os nossos cost umes administ r at ivos e t odos os “ar r ivist as” se f izeram polít icos par a enr iquecer .
Repórter – O Sr . não est á sendo muit o dur o com a República?
Lima Barreto – A r epública no Br asil é o r egímen da cor r upção. Todas as opiniões
devem, por est a ou aquela pr aga, ser est abelecidas pelos poderosos do dia.
178Os bruzundangas. Rio/ São Paulo/ For t aleza: ABC Edit or a, 2006. p. 71 179Vendo a Brigada St egomya. Toda cr ônica. Vol. I . p. 62
180Procur em a sua J osef ina. Toda cr ônica. Vol. I . p. 440 181A polít ica r epublicana. Toda cr ônica. Vol. I . p. 392
Ninguém admit e que se divir j a deles e, par a que não haj a divergências, há a “ver ba secr et a”, os r eser vados dest e ou daquele minist ér io e os empreguinhos que os medíocr es não sabem conquist ar por si e com independência.182
Repórter – Mesmo sem gost ar muit o dessa def inição, o Sr . é um int elect ual.
Nessa condição, como t êm sido as suas r elações com o cidadão comum?
Lima Barret o – Q uando saio de casa e vou à esquina da Est r ada Real de Sant a
Cr uz, esper ar o bonde, vej o bem a misér ia que vai por est e Rio de J aneir o. Mor o há mais de dez anos naquelas paragens e não sei por que os humildes e os pobr es t êm-me na cont a de pessoa impor t ant e, poder osa, capaz de ar r anj ar empregos e solver dif iculdades.183
Repórter – Ar r anj ar empr ego, o Sr .?
Lima Barreto – Per gunt a-me um se deve assent ar pr aça na br igada, pois há oit o
meses não t r abalha no seu of ício de car pint eiro; pergunt a-me out r o se deve vot ar no Senhor Fulano; e, às vezes mesmo, consult am-me sobr e casos embar açosos.184
Repórter – Que t ipo de casos?
Lima Barret o – Houve um mat ador de porcos que pediu a minha opinião sobr e
esse caso cur ioso: se devia aceit ar dez mil-r éis par a mat ar o cevado do Capit ão M., o que lhe dava t r abalho por t r ês dias, com a salga e o f abr ico de lingüiças; ou se devia comprar o canast r a por cinqüent a mil-r éis e r evendê-lo aos quilos pela r edondeza.185
Repórter – E aí...
182Obr a cit ada. p. 392
183O “muambeir o”. Toda cr ônica. Volume I . p. 224 184Obr a cit ada. p. 224
Lima Barret o – Eu, que nunca f ui ver sado em coisas de mat adour o, olhei os
ór gãos ainda f umar ent os nest as manhãs de cer r ação e pensei que o meu dest ino er a ser vigár io de uma pequena f r eguesia.186
Repórter – Bem, numa pequena f r eguesia t alvez nem se pr ecise de engenheir os.
Ao invés de quase vigár io, o Sr . f oi quase engenheir o. Por que não concluiu o cur so de engenhar ia?
Lima Barret o – Desde muit o que eu desej ava abandonar o meu cur so. Aquela
at mosf er a da escola super ior não me agr adava nos meus dezesseis anos, cheios de t imidez, de pobr eza e de or gulho. Todos os meus colegas, f ilhos de gr aúdos de t oda sor t e, que me t r at avam, quando me t r at avam, com um compassivo desdém, f or mavam uma ambiência que me int imidava, que me abaf ava, se não me asf ix iava.187
Repórter – I sso o desest imulou!
Lima Barreto – Fui per dendo o est ímulo; mas a aut or idade mor al de meu pai, que
me quer ia ver f or mado, me obr igava a ir t ent eando... Conj ugados... Moment os... Teor ia do pêndulo... Teor ia das áreas... Que sei eu mais? Nada!... Desgost ava-me e er a r epr ovado; e as minhas r eprovações desgost avam meu pai, t ant o mais que, a bem dizer , at é aí, não t inha sido r epr ovado.188
Repórter – O Sr . t em f eit o declar ações de que a ar t e deve ser acessível a t odos.
Poder ia explicar isso melhor ?
Lima Bar ret o –Domina nos gr andes j ornais e revist as elegant es da província, a
opinião de que a ar t e, sobret udo a de escr ever , só se deve ocupar com a gent e r ica e chique, que os humildes, os médios, os desgraçados, os f eios, os inf elizes não mer ecem at enção do ar t ist a e t r at ar deles degr ada a ar t e. De algum modo,
186I dem. p. 224
187Henr ique Rocha. Toda cr ônica. Volume I . Obra cit ada. p. 516 188I dem. p. 516
t ais est et as obedecem àquela r egr a da poét ica clássica, quando exigia, par a per sonagens da t r agédia, a condição de pessoas r eais e pr incipais.189
Repórter – E quant o à cr ít ica, como o Sr. convive com ela?
Lima Barret o – Sou um escr it or e, se mér it o out r o não t enho, me gabo de ser
independent e. Sendo assim, só admit o cr ít icas a meus livros e aos meus escr it os senão aquelas pr ovindas de escr it or es que como eu não dispõem de f or ça, nem de chanf alho.190 Uma vez ainda declar o que, f azendo lit er at ur a, não esper o f or t una, nem empr egos; e não se incomodem com o meu esbodegado vest uár io, por que ele é a minha elegância e a minha pose.191A minha vida é limpa, apesar de t er sof r ido
as maiores dif iculdades e t ambém gr andes t ent ações...192
189Os Br uzundangas. Obr a cit ada. p. 92
190A Maçã e a polícia. Toda cr ônica. Vol. I I . p. 510 191Q uem será, af inal? Toda crônica. Vol. I I . p. 453 192I dem. p. 452