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Em relação a eventos narrativos, é interessante ressaltar que o definimos e adotamos como sendo configurações das descrições de cenários emergentes da disposição das palavras na narrativa. Destas, surgem modelos de pessoas (personalidade), objetos, lugares e ambientes ativados na memória do compreendedor.

Observamos ainda que, embora o evento narrativo seja organizado em sequências de sentenças estruturadas sistematicamente e configurado nas descrições de cenários, ele apresenta maior complexidade. Isso porque, no processo de compreensão, o compreendedor atravessa as fronteiras das expressões textuais e estéticas da narrativa, integra as informações fornecidas pelo narrador às suas experiências humanas vivificadas e constrói a representação mental acerca do tempo, espaço e do personagem dentro da narrativa, relacionando-a com o mundo que o rodeia.

10 Chamamos de dispositivos dêiticos os termos linguísticos que servem como pistas que identificam e capturam

Dessa forma, intuímos que a construção dos eventos narrativos está relacionada com os Centros Dêiticos – que dizem respeito ao personagem (QUEM), situado no espaço (ONDE) e no tempo (QUANDO) –, e que, por meio deles, no percurso da narrativa, são criados modelos de situação das pessoas, objetos, locais e ações vivificados e experienciados nas situações delineadas na história.

Com essa compreensão da criação e mudança de eventos na narrativa, presumimos que as pessoas (personagens) existem, movimentam-se e interagem nos ambientes e que, consequentemente, o Centro Dêitico se move na narrativa temporalmente e espacialmente. Assim, à medida que a narrativa avança, situações são criadas e modeladas a partir dos eventos descritos, os chamados modelos de situação, que constroem as representações mentais e, consequentemente, facilitam a compreensão da narrativa (Zwaan, 1999), conforme descrito posteriormente no item 2.5.

Para compreendermos melhor a construção de eventos nas narrativas e qual a relação com os Centros Dêiticos, esboçamos algumas situações. Como a atenção do compreendedor está sempre voltada para os personagens e assume sempre a perspectiva de um dos tipos deles, iniciamos descrevendo os tipos de QUEM relacionados aos personagens, situados no espaço (ONDE) e no tempo (QUANDO) narrativos.

a) Personagem (QUEM)

Rapaport et al (1994) sugerem que os leitores reconhecem quatro tipos de entidades psicológicas em uma narrativa – o QUEM focal, o QUEM não focal, QUEM narrador e o QUEM focalizador, os quais se diferem de acordo com a forma como o Centro Dêitico é construído e manipulado. Isso significa dizer que, de acordo como a perspectiva assumida pelo compreendedor, definimos o tipo de QUEM e, consequentemente, as coordenadas de tempo e lugar. Vejamos agora uma breve descrição de cada uma das entidades psicológicas, segundo os autores, com exemplificações retiradas de recortes do corpus utilizado para pesquisa.

(I) O QUEM focal captura o Centro Dêitico e indica sua coordenada espacial, temporal e psicológica, independentemente de o compreendedor ter ou não informações sobre os estados internos (sentimentos, julgamentos e pensamentos) do personagem. O compreendedor centra sua atenção nessa entidade e nela perspectiva o evento, situando-o no tempo e no espaço.

(7) “Quando meu pai (7a) chegou em casa, notei que ele estava com uma aparência triste, mas pensei que fosse cansaço, ou algo assim. Não imaginaria que fosse algo tão terrível como foi.

Ele (7a) entrou no quarto e passou muito tempo por lá conversando com minha mãe, (7b) até quarenta minutos depois ele sair de lá junto com minha mãe (7b) e vir em direção ao meu quarto.”

No exemplo (7), destacamos “meu pai” (7a) e como lemos no exemplo, o personagem (no exemplo o pai) passa a ser o centro. De forma que o pai é o QUEM focal. Ele captura a atenção para si e direciona o olhar para as situações em cena. É possível afirmar isso porque, logo que lemos a sentença, percebemos que há um destaque do termo enunciado. Assim, ancorado nesse QUEM focal, compreendemos a cena e construímos o evento, no qual o pai (personagem) divulga a má notícia e provavelmente todos a ouvem.

(II) O QUEM não focal é mencionado, mas não desloca o Centro Dêitico para ele. Assim, o QUEM focal não perde lugar para ele, e nem o compreendedor tem acesso ao mundo subjetivo do personagem não focal.

Com esses argumentos, é compreensível que digamos que “minha mãe” (7b) é o QUEM não focal. No fragmento, a citação da mãe no evento não muda o foco do QUEM focal que, no exemplo, é o pai, isso significa dizer que o compreendedor não tem acesso ao mundo subjetivo do personagem não focal, fato que pode ser acompanhado na descrição do evento, no qual quem está no foco é o pai.

A partir dessa perspectiva, simulamos todo o evento na coordenada espaço-temporal: quando o pai chegou em casa, a aparência triste, o deslocamento até o quarto da mãe, a saída de lá para o quarto da filha, o tempo gasto durante a conversa com a mãe. Vimos então que, a partir dessa percepção, o QUEM focal indica os Centros Dêiticos que contribuem para o processo de compreensão da narrativa.

(III) O QUEM narrador é uma entidade psicológica que conta uma história, cujas ações estão restritas a narrar ou escrever fatos. Podem ser narradas em níveis diferentes como, por exemplo, em um nível epistemológico11 diferente da história em si, numa narração retrospectiva; ou em nível ontológico, quando os personagens usam ações para dar sentido às suas vidas. Por exemplo,

(8) “Eu me lembro que quando tinha uns seis anos meus tios do brasil vinheram visita a minha família. Falavam muito estranho, eu gostei deles, isso faz muito tempo, nem sei como eles são hoje”.

No exemplo acima, o "eu" que se lembra é logicamente o mesmo "eu" Que, quando criança, recebeu a visita e conheceu os parentes, mas epistemologicamente eles não são os mesmos. O tempo presente "pertence" ao QUEM narrador, o passado para a criança. Isso significa dizer que um narrador pode ter a mesma identidade de um personagem, mas linguisticamente têm características diferentes.

(IV) O QUEM focalizador é uma entidade psicológica cujo foco está centrado nas experiências de vida de um personagem, descritas no evento narrativo pelo QUEM. Essas experiências podem ser perceptuais, cognitivas ou cinestésicas – comunicação corporal –, podendo representar reações, pensamentos, sentimentos, sons, visões ou desejos inconscientes experienciados pelo QUEM focalizador, conforme Rapaport et al (1994). Considerando que o QUEM focal é a entidade psicológica que é topicalizada pelo texto, o QUEM focalizador é uma entidade psicológica, cujo processo vivencial topicaliza outras entidades e eventos no mundo da história.

No exemplo a seguir, temos uma situação na qual o QUEM narrador reproduz um pensamento.

(9) “(...) Quando acabamos de almoçar ele disse que íamos mudar de país! Pois ia ser gerente de uma filial no Brasil! Todos ficaram felizes, mas eu então pensei: (9a) Como vai ficar meus amigos? Será que nunca mais os verei de

novo?”

Dizemos que no exemplo destacado (9a) temos um QUEM focalizador porque, nesse momento, o QUEM narrador externa seus pensamentos, seus sentimentos em relação aos amigos. São experiências que podemos dizer cinestésicas, assumindo então a posição do QUEM focalizador.

O QUEM focalizador não é comum em narrativas. Nós o identificamos, quando o QUEM media experiência de vida de um personagem. Isso exige do compreendedor um monitoramento subjetivo do Centro Dêitico por meio do QUEM focalizador até que haja uma mudança em que os elementos da narrativa objetiva sinalizam que a perspectiva mediada não é mais operativa, ou seja, não é mais o entendimento do compreendedor a partir das informações subjetivas do focalizador, mas a percepção daquilo que lhe é apresentado no mundo da narrativa, as coisas e eventos passados de forma declarativa.

Em algumas situações, podemos ter casos em que um personagem reflete sobre sua própria experiência. Nessa situação, o QUEM focal e o QUEM focalizador são correferenciais, isto é, podemos imaginar a mesma entidade com características diferentes sem que as duas atribuições sejam referencialmente dependentes uma da outra.

Dizemos que o personagem (QUEM focal) e o narrador (QUEM focalizador) são correferentes porque as atribuições descritas são designadas para as duas pessoas, que, mesmo assumindo posições diferentes, representam a mesma entidade psicológica focada, sem que nenhuma delas dependa da outra. No entanto, é perceptível a relação entre eles. É nesse aspecto que consiste a correferencialidade.12

B) Espaço (ONDE)

A mudança de espaço (ONDE) na narrativa é indicada por dispositivos dêiticos que se referem ao "aqui" do compreendedor no mundo da história e fornecem pistas contextuais que permitem a construção, modificação e compreensão das informações nos eventos.

Por isso, a construção e modificação do Centro Dêitico é muito importante para a compreensão da narrativa, visto que está na mente do compreendedor e fará com que ele acompanhe a locomoção das entidades e mudanças de espaço nos eventos narrados.

É evidente que, para haver a construção de cenários e eventos narrados, é preciso que sejam identificados os dispositivos dêiticos que marcam esse centro espacial (ONDE) entre uma cena e outra, ou entre um momento e outro. Esse acompanhamento dá-se cognitivamente no desenvolvimento da narrativa, normalmente, em espaços de tempos diferentes, isto é, num espaço e tempo de cada vez, compreendido pelo deslocamento do Centro Dêitico na narrativa. Visto assim, vivenciamos o espaço narrativo como representações mentais experienciadas, que consistem das construções espaciais marcadas pelos dispositivos dêiticos, utilizados para localizar e acompanhar o QUEM no mundo da narrativa.

Essas experiências levam-nos a compreender que a narrativa progride, os personagens movimentam-se, interagem e constroem noções de orientação. O ONDE pode mudar, e a história se deslocar de local para outro. Esse deslocamento é guiado por dispositivos dêiticos que possibilitam ao compreendedor acompanhar o desdobramento do personagem no tempo e no espaço da narrativa.

De acordo com Rapaport et al (1994), o ONDE indica o lugar no mundo da história a partir do qual o leitor percebe os objetos e eventos descritos. Serve como o aqui para que o

leitor construa um referencial dêitico, ou seja, um lugar no qual o enunciador se encontre ou quando o pressupomos. Esse aqui funciona da mesma forma que o aqui no mundo real, ou seja, não ficcional. No exemplo a seguir, ilustramos a situação.

(10) “Hoje estou me sentindo horrível pois eu e minha irmã recebemos a péssima noticia de que iremos se mudar para o Brasil (10a) Justo agora que eu estou começando ‘auge’ aqui na Itália(10b), pois eu estou começando a amenizar a ausência do diálogo aqui em casa..”.

A compreensão da narrativa ocorre quando entendemos que o aqui (10b) na narrativa corresponde ao local no qual se encontra o personagem, em sua casa, na Itália. Se formos destacar o evento, temos um cenário em que o lugar é Itália e outro que nos é pontado para o Brasil. Com a expressão locativa “para o Brasil” (10a), indica-se um novo ONDE. Com o verbo “ir”, entendemos que haverá um deslocamento do personagem do local de origem, Itália, para o Brasil.

C) Tempo (O QUANDO)

Mesmo tendo mencionado isso antes, aqui reiteramos que o tempo pode ser identificado a partir do QUEM e do ONDE. Dessa forma, para modelarmos e compreendermos as relações temporais entre as sequências de eventos e as situações descritas nas narrativas, é necessário que adotemos alguns posicionamentos e criemos mentalmente as várias facetas na narrativa. É preciso identificar o QUEM e sua atuação na narrativa, representar as relações espaciais e temporais entre as pessoas e o evento, para então fazer uso de pontos referenciais específicos (ONDE), integrar esses pontos ao momento dos acontecimentos nos eventos narrativos para, a partir daí, pela interação do QUEM, construir a estrutura temporal da narrativa.

De acordo com Almeida (1995), esse tempo de referência pode ser entendido como o momento atual da narrativa, o qual é concebido como o ponto agora. Sua identificação acontece por meio dos dispositivos dêiticos que se referem ao tempo do próprio ato enunciativo, no momento em que o evento ocorre. Para entender melhor, dizemos que esse ponto agora funciona dentro da narrativa, semelhantemente ao presente “real”, ou seja, ao momento em que o narrador se encontra. Assim, quando nos ancoramos nesse ponto de funcionamento das informações espaciais, a partir da expectativa desse momento na história, processamos mentalmente que tudo que vem antes do ponto agora está no passado no mundo da história e tudo que vem depois é futuro. Mesmo que a compreensão da narrativa seja concebida dessa

forma – numa sequência temporal cronológica baseada no passado, presente, futuro –, também entendemos que, quando os textos narrativos são escritos no tempo passado, no decorrer da narrativa, o tempo avança, ou seja, há uma evolução e avanço dos eventos dentro da narrativa mesmo que esta esteja totalmente no passado.

O prosseguimento da narrativa dá-se pelo processamento das informações acionadas pelos conhecimentos do compreendedor, quando usa procedimentos como selecionar, organizar, manipular e integrar informações para atingir objetivos. Além disso, há outro posicionamento que precisa ser observado para o processo de compreensão temporal da narrativa: o princípio da inércia dinâmica. Nessa situação, concebemos um QUANDO estável13

que se move para frente em eventos sucessivos, na sequência em que são mencionados na narrativa. Estes estão centrados nas impressões do narrador acerca de determinada realidade, constituída apenas pelas experiências mínimas vividas pelos personagens. Talvez possamos dizer que, sutilmente, a narrativa passa de um ângulo a outro, aqui e ali.

Essa dinâmica é quebrada quando surge um dispositivo dêitico que mostra um avanço do presente para o futuro, criando um foreshadowing, isto é, uma antecipação do que o personagem central vai ver, ou um flashback , quando há situação contrária, registro de um fato já ocorrido, mas inserido em um momento atual. É o que Clark e Clark (1977, apud RAPAPORT et al, 1994, p.13) proferem quando dizem “eventos são inferidos para ocorrer na sequência em que são mencionados, salvo se sinalizados fora de sequência”14(Tradução nossa). Visto assim, imaginemos uma situação em que se precise relatar fatos detalhados. O que comumente acontece é que o compreendedor mediante um outro ponto de vista, a partir de seus processos de pensamento, é levado, pela instabilidade narrativa, a se encontrar em outro ambiente. Mesmo havendo essas possibilidades de organização temporal nas narrativas, geralmente elas são relatadas no passado, isso porque, na maioria das vezes, os eventos da história estão no passado com relação ao tempo da narrativa. Segundo Almeida (1995, p. 171),

A relação entre os acontecimentos da história e do presente de verdade não desempenham nenhum papel na seleção do tempo. Assim, mesmo histórias de ficção científica sobre o (para nós) futuro distante são escritas no pretérito. Porque os eventos da história estão no passado em relação ao narrador (...). As referências ao passado da história são feitas usando o verbo no pretérito

13 Baseados em Clark & Clark (1977, apud RAPAPORT et al, 1994, p.13), no cenário narrativo, conceituamos o

princípio de dinâmica estável a pouca ou nenhuma mudança no ambiente, diferentemente do princípio de dinâmica, que sofre mudanças rápidas e constantes no ambiente.

perfeito, e as referências para o futuro da história são feitas com o verbo no futuro do pretérito. 15(Tradução nossa)

Diante do exposto, é de se concluir que o “agora” de uma narrativa, disposto nos acontecimentos do evento da história, não condiz com o momento de leitura/escuta do compreendedor.

No exemplo a seguir, vamos verificar as estruturas temporais utilizadas para expressar o momento das situações existentes na narrativa. Destacamos trechos em que os dispositivos dêiticos indicam o tempo.

(11) Compreensivo diário,

A dois ou três dias atrás (11a) eu já não sabia o que fazer, mais sabia que

não havia o que ser feito. O dia de minha partida se aproximava e eu estava cada vez mais angustiada com o dia de minha mudança.

(...)

Ontem (11b) já estava tudo programado, haveria uma festa surpresa para mim

(que não tão surpresa assim) mais a festa seria só para os amigos mais íntimos, cerca de 30 à 50 pessoas. Todos festejaríamos naquela noite. (11c)

A festa foi ótima, eu estava super animada e me diverti bastante. Me despedi de todos e chorei bastante e ao final da festa (11d) lá estava eu sozinha pensando na vida e após horas (11e) ali sentada eu estava psicologicamente preparada e decidida a mudar minha vida.

Em relação ao momento do evento, a narrativa acima está predominantemente no pretérito. Os marcadores adverbiais de tempo, destacados no exemplo, assinalam especificamente as relações temporais dentro do evento, e o ponto agora é identificado com o tempo de fala situando-se na perspectiva do leitor no momento da narrativa. Vejamos os exemplos destacados.

(11a) “A dois ou três dias atrás eu já não sabia o que fazer”. (11b) “Ontem já estava tudo programado”.

(11c) “Todos festejaríamos naquela noite”.

Situados a partir do ponto agora, os marcadores adverbiais em (11a) “A dois ou três dias atrás eu já não sabia o que fazer” e (11b) “Ontem já estava tudo programado”, no momento da fala, indicam que o evento já aconteceu. Vêm seguidos dos advérbios “atrás” e “já”,

15 “The relationship between the events of the story and the real present plays no role in tense selection. Thus, even

science fiction stories about the (to us) distant future are written in the past tense. Because the events of the story are in the past in with respect to the narrator (...). References to the story past are made using the past perfect tense, and references to the future are made using the future in-the-past tenses”.

respectivamente, que indicam que a ação foi realizada no tempo passado, antes do tempo de fala. Embora (11a) apresente um marcador de tempo no passado, o verbo “sabia” expressa um passado inacabado, um processo anterior ao momento da fala, mas que durou um tempo no passado, ou ainda, um fato casual.

Caso semelhante em (11c), em que temos a expressão adverbial que pontualmente marca o tempo passado “naquela noite” e o verbo “festejaríamos” no futuro do pretérito que indica que algo aconteceria. Essa ocorrência reforça que as referências para o futuro da história são feitas com o verbo no futuro do pretérito.

Nas situações acima descritas, os dispositivos dêiticos em negrito mostram uma volta (flashback) no momento da história. Essas mudanças forçam o leitor a construir mecanismos para recuperação e criação de uma situação modelo numa ordem cronológica correspondente ao momento da narrativa. Essas constatações reforçam a importância do Centro Dêitico na narrativa.