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Embora se considere geralmente que a proto-sexologia começou na segunda metade do século XIX, ela tem raízes anteriores, como por exemplo os tratados sobre a masturbação de Tissot (1768) (século XVIII) ou (Daston, 2000). Os proto-sexólogos iniciaram uma nova disciplina próxima da medicina e da psicologia, mas carecia de conceitos ou ideias filosóficas, religiosas ou antropológicas. Médicos e cientistas assumiram o ensino da sexualidade, encarada sob o ponto de vista das ciências médicas e biológicas. O sexo era visto como uma função biológica, tal como o comer.
Enquanto campo de estudo, a sexualidade passou a ser delimitada a partir do século XVIII, quando passaram a proliferar discursos específicos a respeito dos corpos e do sexo (Foucault, 1979). Este movimento funcionou como um dispositivo de poder, “conjunto decididamente heterogéneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetónicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas” (Idem, p. 243, 244).
Podemos considerar dois momentos instituintes da sexualidade (Béjin, 1982). O primeiro, corresponde à sexualidade, enquanto reprodução biológica, ligada ao coito heterossexual. O segundo momento, com início na segunda metade do século XIX, dá origem à sexologia contemporânea, permitindo a separação entre a sexualidade com fins reprodutivos e a reprodução/prazer. Iniciaram-se pesquisas dando relevo aos aspetos biológicos, psicológicos e ético-sociológicos da sexualidade. Alguns investigadores deram relevo ao estudo da sexualidade.
A partir dos meados do século XIX, vão progressivamente sendo postas em causa as posições escolásticas em matéria de amor, sexualidade e casamento que, desde a idade média, reduziram o casamento à procriação e à fidelidade. As ideias médicas, contra a rígida moral de então, começam a levantar-se, afirmando, entre outras ideias, que a masturbação não produz doenças físicas, podendo apenas levar a perturbação a nível das relações sexuais heterossexuais. A limitação progressiva do conceito biológico de degeneração permitiu o estudo de fatores psicológicos como influência etiológica dos transtornos psiquiátricos em geral e entre eles, sexuais.
O padrão médico-normativo criado no final do século XIX procurou enquadrar a sexualidade em critérios diagnósticos, mas sem procurar compreender o significado da dificuldade sexual de uma pessoa ou mesmo visando melhorar a interação dessa pessoa com o meio ambiente. Na época, critérios como a reprodução eram vistos como normais, enquanto outros como a masturbação e a homossexualidade eram encarados como anormais.
39 Richard von Krafft - Ebing (1886), como já foi dito atrás, fez uma abordagem aos distúrbios sexuais, como a que é utilizada para transtornos psiquiátricos em geral, isto é, um ponto de vista médico. Krafft-Ebing considera que a reprodução é a finalidade da sexualidade e que qualquer forma de sexo recreativo representa uma perversão do desejo sexual. Daí, ele concluiu que homossexuais padecem de perversão sexual, porque as práticas homossexuais não podem levar à reprodução. Em alguns casos, a líbido homossexual foi classificada como um vício moral induzido pela prática precoce de masturbação. Propõe uma teoria da homossexualidade como biologicamente anómala com origem na fase embrionária e fetal de gestação, que evoluiu para uma "inversão sexual "do cérebro. Em 1901, num artigo no “Jahrbuch für sexuelle Zwischenstufen”, substitui o termo biológico de anomalia por diferenciação. A primeira edição em 1886, de Psychopathia Sexualis introduz uma delimitação do campo das perversões sexuais e nomenclaturas - que incluem termos que seriam posteriormente consagrados como sadismo, masoquismo e fetichismo, e um rigor classificatório que a tornarão uma referência incontornável para todos os estudos posteriores nesse campo, incluindo a obra freudiana. A aversão pelos crimes sexuais é desviado para os desvios e a extrapolação para toda a manifestação sexual é correlativa. É desse modo fácil passar da criminalização do sexo para a sua condenação e por conseguinte, à sua repressão. Psicólogo e médico, Havelock Ellis (1966), no entanto, apresenta os desvios sexuais, mas para melhor compreender qualquer expressão sexual (sexualidade "normal" ou corrente). Ellis foi o primeiro a realizar um estudo objetivo sobre a homossexualidade, sem cair na tendência da época, de a caraterizar como doença, imoralidade ou crime. A sua obra apresenta o amor homossexual como transcendendo os tabus de idade, bem como os tabus do género. Sete dos vinte e um casos de estudo, são casos de relacionamento inter-geracional. A grande inovação deste precursor da sexologia é a introdução do relativismo individual (não-egocêntrica) e cultural utilizando exemplos da antropologia ou da história cultural e mais tarde, da zoologia. Os modelos biológicos de sexualidade abundaram durante os séculos XIX e XX. O comportamento sexual era visto como o resultado de impulsos naturais e biológicos, que estão na base de uma série de experiências sociais (Mottier, 2010). A normalidade sexual e o desvio da norma passaram a ser definidos relativamente à natureza biológica dos instintos reprodutores humanos essenciais. Enquanto força instintiva e potencialmente avassaladora, o sexo era ao mesmo tempo visto como uma fonte possível de desordem social. Geddes e Thomson (1914), biólogos escoceses do século XIX, alertaram para o “elemento vulcânico no sexo, quase subjacente ao resto da nossa natureza e por esse motivo a abalá-la nas suas fundações com tremores e até catástrofe.” Assim, concluíram que os instintos tinham que ser mantidos na ordem pela sociedade através do controlo moral, da educação sexual e da legislação. Reich (1927) limita ainda a sexualidade a uma mera função biológica, definindo a potência orgástica como o centro da sexologia reichiana.
40 No início do século XX, ocorreu uma mudança de perspetiva, dando-se mais ênfase ao comportamento sexual enquanto atividade, do que à reprodução em si. Assim, são considerados o desejo, o prazer, o orgasmo, dando lugar a uma panóplia de literatura relativa às terapias sexuais. Alguns autores tais como Kinsey nos anos 1940-1950, Masters e Johnson nos anos 1960 ou ainda Hite nos anos 1970-1980 são o reflexo deste investimento.
Mais tarde, no relatório de Kinsey, o autor entrevistou americanos de raça branca. Tentou pôr em causa algumas preocupações contemporâneas sobre os desvios sexuais provocando “uma onda de histerismo sexual” (Kinsey, Pomeroy & Martin al., 1948, 1953). O autor desenvolveu a sua análise do comportamento sexual segundo modelos redutores do biológico, argumentando que o sexo era algo natural e saudável. Kindsey defendia que o impulso sexual era uma força biológica e que a expressão deste impulso para obter prazer era aceitável e desejável. Pôs em causa algumas preocupações sobre o sexo pré-marital, defendendo que não deveria haver diferença entre o sexo antes ou depois do casamento. Enfatizou também as semelhanças entre o comportamento sexual dos homens e das mulheres.
A sua investigação mostrava que inúmeras expressões sexuais eram aceitáveis, dando importância ao papel do prazer sexual, tanto através da relação sexual como através da masturbação.
Masters e Johnson também enfatizaram a importância da atividade sexual. Os seus estudos, realizados em laboratórios, com heterossexuais de raça branca e classe média (Masters & Jonhson, 1966) analisaram mais de 10000 orgasmos femininos e masculinos. Analisaram as contrações e secreções corporais, a pulsação e as mudanças de cor dos tecidos; e descreveram o ciclo da resposta sexual em termos das seguintes fases: 1). Excitação; 2). Patamar ou plateau; 3). Orgasmo; e 4). Resolução. Demonstraram semelhanças entre homens e mulheres, e realçaram que os casamentos estáveis dependiam de relações sexuais satisfatórias. O prazer sexual podia assim ser melhorado através da educação e da terapia sexual. Também os autores referiram a masturbação como algo essencial à sexualidade, promovendo o sexo como fonte de prazer e não como reprodução.
Hite (1976,1981,1987) dedicou 20 anos à investigação sobre a sexualidade feminina e masculina. A principal conclusão é que a maioria das mulheres (70%) não atinge o orgasmo no ato sexual, mas sugere que elas podem aprender a aumentar a estimulação do clitóris no ato sexual, para aumentar o prazer. Hite explica o prazer das mulheres, não tanto pela penetração, mas sim, pela estimulação física.
O lançamento dos potencializadores de ereção, a partir de 1998, como por exemplo o Viagra, aponta para dois pontos importantes: primeiro, a influência do discurso sexológico na perceção da sexualidade; segundo, do quanto a sexualidade está a ser medicalizada para fortalecer a ideia de bom funcionamento sexual (Bozon, 2004).
41 O impacto da infeção do vírus da SIDA juntamente com outros riscos ligados à atividade sexual, tal como as gravidezes indesejadas, leva a considerar-se a sexualidade como uma urgência social e epidemiológica (Ogden, 1999), que traz impacto negativo na saúde.
Analisar a perspectiva histórica permitiu-nos compreender que a sexualidade acontece num dado contexto histórico-social, consoante as normas vigentes e influências particulares. Neste sentido, ela é dinâmica e construtivista, maleável e flexível. Ficou demonstrado que a sexualidade é uma área de estudo e interesse, multidimensional, particularmente relevante e pertinente, sendo uma entidade fundamental no funcionamento das pessoas.
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