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In document TRØNDELAG YTT (sider 28-31)

Esta dissertação objetivou analisar o currículo do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Estadual da Paraíba na perspectiva de gênero.

Considerando o histórico processo de feminização da profissão, inicialmente, discuti a naturalização da Enfermagem como escolha feminina, recuperando a história da profissão, o ensino focado no modelo nigthingaleano e o habitus incorporado que relaciona o cuidado de Enfermagem à prática eminentemente feminina. Ao revisitar o percurso histórico foi possível compreender que a Enfermagem brasileira, fundamentada no modelo nigthingaleano (1923), preservou os aspectos de submissão, abnegação e subserviência na formação e profissionalização. A ideologia do feminino, instrumento fundamental para manutenção do androcentrismo na sociedade, contribuiu para legitimar e manter o poder e a hierarquização do saber da Medicina/curativo sobre o saber em Enfermagem/cuidado.

Buscando o rompimento com esses estereótipos e a valorização profissional, a formação em Enfermagem apoiou-se na ideologia cientificista, delimitada pelo saber biológico no período 1949–1994. Entretanto, a ênfase no modelo biomédico da formação não foi suficiente para romper a visão estereotipada e a desvalorização da profissão que constituem o habitus profissional, pois nestas estão envolvidas complexas relações de poder, com destaque para as relações de gênero.

A partir da década de 1990, ocorreram transformações no cenário político e social conduzindo à mudança do paradigma da saúde, que propunha o deslocamento do enfoque biológico e tecnicista para a compreensão do processo saúde e doença como construção social, cultural e histórica. Norteado pelo paradigma da formação crítica, este novo direcionamento contribuiu para a reformulação dos currículos em Enfermagem, com vistas ao desenvolvimento de saberes e práticas que contemplem a atenção à saúde das pessoas considerando os aspectos relacionais que envolvem o processo saúde/doença, como as questões de classe, raça/etnia, geração, sexualidade e gênero. Verdonk et al (2009) destacam que, em contraposição à limitação dos modelos biomédicos, a perspectiva de gênero tem se mostrado importante na busca pela qualificação do cuidado em saúde, tendo

sido introduzida na análise das questões relativas à saúde dos indivíduos nos últimos anos, trazendo valiosas contribuições e reflexões sobre o processo saúde/doença.

Frente à importância da inserção crítica de gênero no processo formativo em Enfermagem como forma de questionar e desestabilizar os argumentos ideológicos que garantem a divisão sexual do trabalho, as relações de saber que sustentam a hegemonia do tratamento curativo sobre o cuidado, e as relações de poder que legitimam a hierarquia entre Enfermagem e Medicina, este estudo pautou-se nos seguintes questionamentos: Como o currículo em Enfermagem contempla as questões de gênero? O currículo desconstrói ou legitima estereótipos de gênero na formação? Sob quais perspectivas são representados os sujeitos no currículo? Quais saberes são valorizados no currículo? Quais saberes são silenciados? Para responder a estas questões foram analisados o Projeto Pedagógico, datado de 1999, os Planos curriculares de ensino referentes aos anos de 2007, 2008, 2009 e 2010 e, por último, os Trabalhos Acadêmicos Orientados desenvolvidos no período compreendido entre 2002 e 2009 do curso de Enfermagem de uma instituição superior pública no estado da Paraíba.

Por meio da análise do Projeto Pedagógico e Planos das disciplinas do curso, pude verificar a ausência da perspectiva de gênero na abordagem das questões de saúde. O enfoque biológico e a predominância de modelos mecanicistas da assistência, expressos nestes documentos, revelam uma visão parcial e limitada dos sujeitos (criança, adolescente, mulher, homem, idosa e idoso).

Considerando a importância e necessidade do exercício profissional sustentado por uma contínua busca de novos conhecimentos, o desenvolvimento da pesquisa constitui-se como uma importante estratégia para o fortalecimento da Enfermagem como ciência e profissão. Por meio da pesquisa é possível promover maior visibilidade, reconhecimento e consolidação da profissão e isto se reflete na melhor qualificação do ensino, orientado por uma prática de cuidado responsável com a vida e a saúde. Nesta direção, o curso investigado vem desenvolvendo na formação a competência investigativa na pesquisa para o exercício profissional da/o Enfermeira/o através da realização do Trabalho Acadêmico Orientado (TAO) ao final do percurso formativo.

Do universo de 510 TAOs, 243 foram selecionados para compor os dados da análise por focalizar o sexo ou gênero do sujeito e/ou objeto de estudo nos diferentes ciclos de vida (criança, adolescente, mulher, homem, idosa e idoso). Nos demais trabalhos eram focalizados apenas o tema sem especificar o sexo ou gênero o que impediu a categorização por ciclo de vida. As análises apontaram que os principais grupos de interesse de pesquisa dos TAOs no conjunto de trabalhos selecionados foram, respectivamente, a mulher (51,9%), a criança (17,3%), a pessoa idosa (15,2%), a/o adolescente (11,9%) e o homem (3,7%).

Pude verificar que nos trabalhos analisados predomina a noção essencialista de saúde em contraposição à noção de saúde integral que envolve as dimensões física, emocional, social, cultural, intelectual, espiritual e profissional. A formação voltada para o cuidado integral deve ampliar seus referenciais para compreensão dos problemas de saúde, para que dessa forma seja capaz de mudar positivamente os determinantes dos processos de saúde e doença. O cuidado integral, proposta do cuidado em Enfermagem, requer da/o profissional uma postura critica e reflexiva frente a questões que transcendam o biológico. Essa perspectiva do cuidado foi verificada apenas em alguns trabalhos desenvolvidos acerca da pessoa idosa.

Nos demais trabalhos analisados a perspectiva de gênero foi mencionada no título de apenas um trabalho32 e utilizada como categoria de análise em 633. Miriam

Adelman (2003) explica que a incipiente inserção desse campo teórico pode ser atribuída ao pouco conhecimento e à necessidade de transpor barreiras disciplinares convencionais da academia. Até mesmo no único trabalho que discutiu a questão dos preconceitos e estereótipos e a busca pela autonomia e valorização profissional em Enfermagem a categoria gênero foi omitida34

32 TORRES, Renata da Silva. O filho não é só da mãe! - A paternidade (des)assistida e as (des)orientações para o cuidar: uma análise de gênero a partir da Enfermagem (2007).

. Através do conjunto de trabalhos

33TAOs com abordagem de gênero: RODRIGUES, Mônica. Formação de soldados femininos no

Batalhão de Polícia Militar: androcentrismo e implicações para a saúde da mulher (2009); ARAÚJO,

Antônio. Prevenção do CA de próstata na ótica de servidores públicos (2008); TORRES, Renata da Silva. O filho não é só da mãe! - A paternidade (des)assistida e as (des)orientações para o cuidar: uma análise de gênero a partir da Enfermagem (2007); CAVALCANTE, Fabrício. Concepções

de enfermeiras e agentes comunitários de saúde sobre a demanda dos usuários masculinos nas unidades básicas de saúde da família (2006); GABINO, Vanessa. Saber e prática de uma população masculina sobre o planejamento familiar (2005); SILVA, Márcia. Perfil epidemiológico das mulheres vítimas de violência sexual: fatores condicionantes (2005).

34 RODRIGUES, Lígia. O desenvolvimento da Enfermagem: preconceitos e estereótipos históricos e a busca pela autonomia e valorização social (2008).

examinados depreende-se que a ideologia do feminino, a submissão e a desvalorização da profissão não são alvo de interesse das pesquisas, embora estas questões estejam no centro dos debates das/os profissionais de Enfermagem (CAVALCANTE, Rosangela, 2004; TORRES, Marta, 2007; SILVA, Francisca, 2007).

Diante das implicações da categoria analítica gênero para a compreensão do processo saúde/doença/cuidado, a incorporação das questões de gênero e de outras problemáticas sociais como a violência, durante a formação em Enfermagem na UEPB, tem ocorrido de forma incipiente e pontual. Assim, a formação em Enfermagem, não diferente de outros cursos da área de saúde, tem ignorado a produção e circulação de saberes na contemporaneidade; assim, centra-se no tecnicismo e forma profissionais indiferentes a questões relevantes como as relações de gênero e suas implicações para a saúde.

Através do olhar sobre o Currículo de Enfermagem da Universidade Estadual da Paraíba na perspectiva de gênero, posso afirmar que o conhecimento perpetrado pelo currículo representa a reprodução acrítica do modelo hegemônico (biomédico) em saúde, o que contribui para a legitimação e fixação do paradigma formativo androcêntrico. Para romper essa trajetória reprodutiva aponto a reformulação de conteúdos curriculares e a introdução do conceito crítico de gênero como forma de dar visibilidade às relações de saber e poder e, assim, possibilitar a contestação e transformação dos estereótipos que dificultam a expansão da Enfermagem como atividade autônoma, crítica e socialmente valorizada.

Neste sentido, dentre os trabalhos futuros que podem seguir os princípios apresentados nesta dissertação, apresento como sugestão a realização de oficinas com docentes e alunas do curso objetivando apreender e refletir acerca do saber balizador das práticas de ensino e aprendizagem na perspectiva das relações de gênero.

Considero oportuno ressaltar que o curso analisado nesta dissertação encontra-se em processo de reformulação da proposta pedagógica para atendimento às Diretrizes Curriculares Nacionais (2001), sendo este o momento adequado para o desenvolvimento, em conjunto com as/os docentes do curso, de uma experiência pedagógica de inserção da categoria gênero nos processos de trabalho (ensino, pesquisa e assistência).

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