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A análise intersubjetiva do tempo dedicado às fases do processo tradutório (i.e., orientação, redação e revisão), bem como aquela relativa ao tempo total destinado à execução da tarefa, apontam a inexistência de um padrão no comportamento dos quatro sujeitos. Tal assertiva pode ser observada na TAB. 1, em que se apresentam as distribuições relativas dessas fases por sujeito e tarefa tradutória bem como o tempo total gasto por cada sujeito para a realização de cada tarefa tradutória.

TABELA 1

Distribuição relativa das fases de orientação, redação e revisão e tempo total despendido para a tradução dos textos cujo conhecimento de domínio demandado é correlato à subárea de atuação dos sujeitos (TCorr) e dos textos cujo conhecimento de domínio demandado não corresponde à subárea de atuação dos sujeitos (TNCorr)

Fases Total

Sujeito Tarefa Orientação (%) Redação (%) Revisão (%) % n (s) S1 TCorr 0,54 87,12 12,34 100,00 8765 TNCorr 1,74 72,42 25,84 100,00 7255 S2 TCorr 1,67 88,53 9,80 100,00 3070 TNCorr 9,36 77,35 13,29 100,00 4220 S3 TCorr 7,05 73,28 19,67 100,00 4240 TNCorr 16,27 79,81 3,92 100,00 5101 S4 TCorr 0,40 52,02 47,58 100,00 3560 TNCorr 0,79 63,90 35,31 100,00 3662 Total TCorr 2,10 77,99 19,92 100,00 19635 TNCorr 6,82 73,77 19,41 100,00 20238

Constata-se que há variações consideráveis entre todos os valores intersubjetivos, independentemente de o texto ser correlato ou não à subárea de atuação dos sujeitos. Em relação ao tempo total destinado à execução da tarefa, por exemplo, S2, em um extremo, realizou a tarefa cujo texto demandava conhecimento de domínio correlato à sua subárea de atuação (TCorr) em 3070s; ao passo que S1, no outro extremo, necessitou de 185,50% a mais de tempo (8765s) para concluir o mesmo tipo de tarefa. Em se tratando das fases do processo tradutório, observa-se, por sua vez, que, enquanto S3 dedicou apenas 3,92% do tempo à fase de revisão da tarefa cujo texto demandava conhecimento de domínio não-correlata à sua subárea de atuação (TNCorr), S4 despendeu 35,31% de seu tempo a essa mesma fase.

Os dados relativos à distribuição das fases ao longo do processo tradutório podem ser mais bem visualizados nos GRAF. 1 e GRAF. 2. O primeiro se refere à distribuição relativa, por sujeito, das fases encontradas na realização da TCorr. No segundo, tem-se essa distribuição para a TNCorr.

87,12% 88,53% 73,28% 52,02% 9,80% 19,67% 47,58% 0,40% 1,67% 0,54% 7,05% 12,34% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% S1 S2 S3 S4 S u je it o Tempo relativo

Orientação Redação Revisão

GRÁFICO 1 – Tempo relativo das fases de orientação, redação e revisão quando da realização da tarefa cujo conhecimento de domínio demandado é correlata à subárea de atuação dos sujeitos (TCorr)

Nota: S1 = sujeito 1; S2 = sujeito 2; S3 = sujeito 3; S4 = sujeito 4.

Verifica-se, pelo GRAF. 1, um comportamento heterogêneo entre os sujeitos para a realização da TCorr, sobretudo no que diz respeito às fases de orientação e revisão. Enquanto S1 e S4 dedicaram pouco tempo à fase de orientação para a execução da TCorr, S3 despendeu um tempo relativo consideravelmente superior (7,05%) a esse mesmo momento de seu processo tradutório. Esse dado parece refletir, ainda que parcialmente, o depoimento de S3, em sua entrevista semi-estruturada, segundo o qual é importante, para uma tradução, que o indivíduo leia tudo antes e revise depois. Já quanto à fase de revisão, observa-se que S2, em um extremo, despendeu 9,80% de seu tempo total, e, em contrapartida, S4 chegou a investir mais de 47% nessa fase.

No GRAF. 2, a seguir, pode-se constatar a mesma heterogeneidade entre os sujeitos para a realização da TNCorr.

16,27% 72,42% 77,35% 79,81% 63,90% 13,29% 35,31% 1,74% 9,36% 0,79% 3,92% 25,84% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% S1 S2 S3 S4 S u je it o Tempo relativo

Orientação Redação Revisão

GRÁFICO 2 – Tempo relativo das fases de orientação, redação e revisão quando da realização da tarefa cujo conhecimento de domínio demandado não corresponde à subárea de atuação dos sujeitos (TNCorr)

Nota: S1 = sujeito 1; S2 = sujeito 2; S3 = sujeito 3; S4 = sujeito 4.

No que diz respeito à fase de orientação exibida no GRAF. 2, S3, por um lado, é o indivíduo que dedica maior proporção de seu tempo a essa fase (16,27%), pois lê detidamente a introdução, o resumo e as referências bibliográficas, além de proceder a uma leitura geral de todo o artigo. Por outro lado, S4 apresenta a menor porção de tempo dedicada à fase de orientação, iniciando seu processo tradutório praticamente assim que toma contato com o texto de partida. Já no que toca à fase de revisão, S3 dedica apenas 3,92% de seu tempo a essa fase, enquanto S2, S4 e S1 destinam, respectivamente, 13,29%, 25,84% e 35,31% a essa mesma fase.

Em suma, constata-se que, em função da amplitude dos valores obtidos tanto para a TNCorr como para a TCorr, não se pode estabelecer um padrão intersubjetivo de dedicação a cada fase do processo tradutório, o que sugere a adoção de estratégias tradutórias

intersubjetivamente distintas.

A análise intra-subjetiva e intersubjetiva das fases do processo tradutório e do tempo total investido na tarefa tradutória também revela, à exceção da fase de orientação, a inexistência de um padrão no comportamento dos sujeitos em função da variável conhecimento de

demandado é correspondente à sua subárea de atuação não implicou, de forma unidirecional, maior ou menor tempo relativo dedicado à fase de redação ou revisão, tampouco maior ou menor tempo total despendido na realização da tarefa tradutória. A título de exemplo, S1 e S2 destinam maior tempo à fase de revisão quando da realização da TNCorr (25,84% e 13,29%, respectivamente) em relação à execução da TCorr (12,34% e 9,80%, respectivamente); mas, em contrapartida, S3 e S4 seguem a direção inversa, ou seja, despendem respectivamente 3,92% e 35,31% do tempo total à fase de revisão quando da realização da TNCorr e 19,67% 47,58% do tempo total a essa mesma fase ao realizarem a TCorr.

Como já mencionado, a única variável dependente (relativa às fases do processo de tradução) que parece ter sofrido influência da variável conhecimento de domínio foi a fase de orientação. Esse impacto pode ser verificado tanto em termos absolutos como relativos. Os dados relativos já foram exibidos na TAB. 1, e os dados absolutos e a respectiva variação percentual desses dados são apresentados na TAB. 2, a seguir.

TABELA 2

Tempo, em segundos, destinado à fase de orientação e respectiva variação percentual intra-subjetiva Sujeito Tarefa n % S1 TCorr 1082 TNCorr 1875 73,29 S2 TCorr 301 TNCorr 561 86,38 S3 TCorr 200 TNCorr 834 317,00 S4 TCorr 1293 TNCorr 1694 31,01

Nota: TCorr = Tarefa cujo conhecimento de domínio demandado é correlata à subárea de atuação do sujeito; TNCorr = Tarefa cujo conhecimento de

domínio demandado não corresponde à subárea de atuação do sujeito.

Nota-se que, para todos os sujeitos, o fato de traduzir um texto envolvendo conhecimento de

domínio que não corresponde à sua subárea de atuação implicou um aumento considerável no

tempo destinado à fase de orientação. Verifica-se que, para todos os sujeitos, a variação percentual foi positiva e, mais notoriamente, que S3 apresenta uma variação percentual de 317,00%, ou seja, esse sujeito mais que quadruplicou o tempo investido em sua orientação. O reflexo desses dados pode ser encontrado nos dados relativos: S1, S2, S3 e S4 empregam, respectivamente, 0,54%, 1,67%, 7,05% e 0,40% do tempo para se orientarem na realização da

TCorr, mas aplicam, respectivamente, 1,74%, 9,36%, 16,27% e 0,79% na fase de orientação ao realizarem a TNCorr.

Cumpre ressaltar, aqui, a natureza qualitativa desses dados. Em função da pequena amostra (4 x 2), não foi realizada nenhuma medida estatística para averiguar a significância desses dados. Todavia, o cruzamento desses dados com aqueles fornecidos nos protocolos pode fortalecer essa correlação negativa entre tarefa demandando conhecimento de domínio correlata à subárea de atuação dos sujeitos e tempo (absoluto e relativo) destinado à orientação. Nos Exemplos 1 e 2, a seguir, apresentam-se relatos que ajudam a compreender o que ocorreu quanto à orientação dos sujeitos.

Exemplo 1

S3: Claro que, como eu li também os métodos e os resultados – só não li a discussão –, eu pude entender melhor o que ele [autor do texto de partida sobre doença de Chagas] ia fazer.

Exemplo 2

S1: Eu não li o texto. Só li a introdução, porque é um assunto que eu mais ou menos domino. Então, eu não senti a necessidade de ler o texto todo [...].

S3: [...] eu não li o texto inteiro. Como eu já sabia do assunto, então eu já sabia o que ele ia falar.

No Exemplo 1, coletado após S3 ter realizado a TNCorr, o sujeito revela uma necessidade maior de ler outras partes do artigo impresso fornecido aos sujeitos para consulta (i.e., as seções de métodos e resultados) para melhor compreender o texto de partida. As verbalizações do Exemplo 2, por sua vez, foram coletadas logo após S1 e S3 terem realizado a TCorr. A partir desse exemplo, infere-se que a motivação primordial para a diminuição do tempo destinado à fase de orientação deve ter residido no fato de os sujeitos já conhecerem o assunto e assumirem que, por essa razão, não precisariam de dados que aparecem nas outras seções do artigo para compreender a introdução do mesmo.

Compete ainda apontar que os dados de S3 e S4 configuram dois extremos na amostra. Por um lado, S4 é o sujeito que envida menos tempo para a fase de orientação e mais tempo para a fase de redação em ambas as tarefas (i.e., TCorr e TNCorr); e, por outro lado, S3 é o sujeito

que despende, tanto na TCorr quanto na TNCorr, mais tempo na fase de orientação. Entretanto, no que diz respeito à fase de revisão, os dados parecem apontar que – em razão de seu apoio eminentemente interno para a resolução de problemas de tradução (cf. subseções 3.2.2.3 e 3.3) e de sua busca por apoio externo baseada em seu conhecimento discursivo ou no seu conhecimento de domínio (cf. subseção 3.2.2.4), S3 envida tempo consideravelmente pequeno nesta fase (=3,92%) para a execução da TNCorr, donde pode-se supor que o sujeito assumiu haver pouco (além de questões ortográficas) a ser feito nesta fase, dado seu menor

conhecimento de domínio para a realização desta tarefa.