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5.4 Informants
Começou com Garrett a alusão à memória dos Descobrimentos e continuou com Varnhagen, “perpetuar este monumento as gloriosas recordações marítimas passadas” (Varnhagen 1842, 37 e 38). O historiador viu na simbólica do lugar e nas recordações de uma época de ouro, dois dos principais motivos de atenção no monumento.
82 Já Haupt ligou não só os Jerónimos aos Descobrimentos, mas em geral a arquitetura do Renascimento em Portugal, por ter sido uma época que mudou a conceção do mundo abrindo portas para a era moderna. E o Infante D. Henrique, enquanto grande impulsionador das navegações, teria sido “a pedra angular e o marco dos tempos modernos” (Haupt 1986, 8).
O arquiteto não se preocupava demasiado com a datação precisa dos factos, se o pedido para fundar o mosteiro teria sido anterior ao regresso da viagem à Índia, mas deu extrema importância à simbólica dos mesmos, à presença de Vasco da Gama na igreja “antiga” antes da sua partida, afirmando que foi pelo sucesso da viagem que o rei decidiu eternizar ali esse feito com a construção de um grande mosteiro.
Reynaldo dos Santos admite o Mosteiro como um “lugar à parte pelas originalidades da sua arte e pela significação histórica que alcançou” (Santos 1930, 5), mas apesar dessa significação histórica de que fala, desmistifica a sua construção como agradecimento pelo sucesso da viagem à Índia, sabendo que o pedido de D. Manuel ao papa para a fundação foi anterior ao regresso dos navegadores. Porém, não coloca de parte a importância que as riquezas da Índia tiveram para a edificação de uma obra tão monumental e, por este motivo e não outro, não pôde deixar de associar Santa Maria de Belém à época da Expansão.
Mais pragmático sobre a influência das Descobertas, Dias pouco relacionou o manuelino com o mar, a importância desta ideia teria surgido com o revivalismo do final do séc. XIX e tomou a forma de neomanuelino: “A gramática do estilo manuelino baseia- se no emprego de elementos colhidos da natureza (…), mas está pouco relacionada com o mar” (Dias 1982, 364).
Atanázio (1984) teve das opiniões mais críticas sobre os revivalismos do séc. XIX, nomeadamente sobre a responsabilidade dos revivalistas sobre o Portal Sul. Quando todos atribuíam a sua execução a Castilho, o autor considerou que as obras do séc. XIX lhe teriam juntado elementos: os apóstolos, as molduras ao lado das figuras, as coroas das virgens. A iconografia misturava temáticas que não eram correntes no séc. XVI, como o novo e antigo testamento, a virgem, o arcanjo e o infante, no meio de tudo isso, como fator determinante alusivo às Descobertas.
Pereira (1990) teve também uma opinião muito crítica sobre a simbólica que se começara a atribuir em geral a todos os monumentos do manuelino. A mentalidade que se teria instalado no séc. XIX, nacionalista e revivalista, contribuíra para um afastamento do “real” e uma aproximação ao “imaginário”, quer com isto dizer, o manuelino “passou a ser o que «se queria que ele fosse»” (Pereira 1990, 20), passando por exótico,
83 marinheiro, heroico… Noções que revelam a evolução do próprio conceito e o modo como as gerações foram olhando os testemunhos que ficaram.
Apoiando-se nos estudos de críticos de Paul Evin sobre o simbolismo marítimo, firma a posição de que o estilo português adota o naturalismo tanto nas formas da Natureza como nas formas do quotidiano. Especificamente em Belém, referiu as espigas de milho no claustro, as alcachofras e folhas de louro por todo o mosteiro, a tecelagem nas colunas do claustro e a cordoaria também por todo o mosteiro. Entender o simbolismo dessas figuras através do ponto de vista de Evin permitiu-lhe concluir que uma das principais falhas do olhar oitocentista sobre a arte manuelina foi a ausência de ceticismo relativamente à temática da Expansão. Para Pereira, existiam alusões ao mar, mas dispersas e pontuais, relacionadas não com os Descobrimentos, mas com a espiritualidade. O “Tema da Navegação” surge como uma “demanda interior em busca de Deus, aceder finalmente à nau de Salomão, alegoria da igreja” (Pereira 1990, 72).
Alves reforçaria a importância do Mosteiro de Belém na atualidade. Eleito monumento nacional a 10 de Junho de 1907 e depois reafirmado a 16 de junho de 1910, foi a peça mais nobre das Celebrações do Centenário de 1940, classificado como Património Mundial pela UNESCO em 1983 e lugar da assinatura do Tratado de Adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia em 1985 e do Tratado de Lisboa em 2007, o mosteiro ficaria ao longo dos tempos “consagrado como a sala dourada do país” (Alves 1991, 297).
Neto e Soares (2013) alertaram para a importância do enaltecimento de Camões, durante o séc. XIX e levado a cabo em grande parte por Garrett, para a construção de uma nomenclatura estilística e uma atribuição de valor ao reinado de D. Manuel e à produção artística dessa época. Ainda que a ligação entre os Descobrimentos e a obra, a nível temporal, económico e discursivo, fosse inquestionável, o séc. XIX soube apropriá-la para que a nação portuguesa pudesse rivalizar com qualquer império europeu. Pouco importava se a construção era anterior ou posterior à descoberta do caminho marítimo, mas sim enfatizar a simbólica do Lugar. Valorizavam-se as linhas exóticas, a originalidade e extravagância de alguns elementos decorativos, colocaram- se conchas, âncoras e caravelas para intensificar o imaginário romântico, especialmente o dos visitantes britânicos. Portugal e Belém entravam nos roteiros turísticos da Europa. Em 1940, com a Exposição do Mundo Português a mobilização do lugar ganharia novo ímpeto. A escolha do sítio não terá sido despropositada, era um dos eventos políticos e culturais mais importantes e seria feito num dos lugares mais gloriosos da Nação. O Mosteiro de Santa Maria de Belém e a Torre de S. Vicente eram as peças principais da exposição, toda ela construída em torno de um discurso historicista. Investiu-se na
84 monumentalização do lugar, foi desenhada a Praça do Império e ergueu-se o Padrão dos Descobrimentos (provisório). Na década de 60, pela celebração dos 500 anos da morte do Infante foi edificado o Padrão definitivo e concluída a transferência do Museu de Marinha para a ala poente do mosteiro (Neto e Soares 2013).
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