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Não foi possível realizar o encontro previsto, porque os adolescentes tiveram que assistir ao documentário Lixo Extraordinário43 (2010). Essa atividade obrigatória consistia em uma proposta de um produtor teatral contratado pela Fundação para montar o Espetáculo Favelas, a ser estreado no segundo semestre de 2013 em teatros de Fortaleza. O espetáculo, subsidiado por recursos de um edital lançado por uma instituição estatal, tinha como objetivo mostrar que, mesmo no cotidiano da periferia urbana, no Pirambu, faz-se arte, formam-se sujeitos, profissionalizam-se artistas.

De antemão, sublinho algumas contribuições.

Primeiro, o discurso do ensino da arte voltado para crianças e adolescentes pobres tem sido propalado, principalmente, pela mídia, como uma estratégia para “tirar adolescentes das ruas/do tráfico de drogas”, vista como o lugar de perigos eminentes. No Brasil, principalmente com o fortalecimento das políticas neoliberais, os projetos sociais de cunho educativo, implementados por organizações do terceiro setor (ONGs, associações comunitárias, fundações, entidades filantrópicas, entre outros) junto às juventudes empobrecidas da população, passaram a se legitimar como espaço de desenvolvimento da cidadania através da arte.

No processo de captação de recursos por essas organizações foram desenvolvidas parcerias com programas e/ou instituições governamentais, o que reforçou em termos sócio históricos, segundo Fernandes et al. (2006), a constituição de uma cultura política brasileira baseada na desmobilização das lutas de direitos em benefício das políticas assistenciais e compensatórias.

Ao cooptar recursos estatais para financiar seus projetos sociais, organizações do terceiro setor, como a Fundação em estudo, tanto qualificam a arte como um processo de criação

43 Este documentário trata do desdobramento, durante dois anos, do trabalho do artista plástico brasileiro Vik Muniz, naturalizado americano, no maior aterro sanitário do mundo, no Jardim Gramacho, município de Duque de Caxias, Rio de Janeiro. A proposta inicial do artista era produzir retratos dos catadores do aterro. Contudo, ao longo das filmagens, impera-se uma dimensão subjetiva sensível na relação entre o artista e seus retratados.

quanto como instrumento de adaptação da pobreza à lógica de funcionamento neoliberal da sociedade. Nessa perspectiva, toma relevo uma reflexão acerca da escolha do dispositivo pedagógico adotado: o filme documentário.

Larossa (1995) desenvolveu uma interessante associação entre teorizações foucaultianas e práticas educativas, que produzem ou transformam a experiência que as pessoas têm de si mesmas. Essa experiência de si, segundo o estudioso, consiste na própria ontologia do sujeito, a qual Foucault, em um deslocamento pragmático, denominou de subjetivação. Desse modo, “a experiência de si, em suma, pode ser analisada em sua constituição histórica, em sua singularidade e em sua contingência, a partir de uma arqueologia das problematizações e de uma pedagogia das práticas de si” (LAROSSA, 1995, p. 43).

Com o objetivo de mostrar como o homem se fabrica no interior de aparatos pedagógicos de subjetivação, Larossa (1995) estudou as dimensões fundamentais que constituem os dispositivos pedagógicos de produção e mediação da experiência de si: a) dimensão ótica: o que é visível para o sujeito em si mesmo; b) dimensão discursiva: o que o sujeito pode e deve dizer acerca de si mesmo; c) dimensão jurídica: como o sujeito deve julgar a si mesmo segundo uma trama de normas e valores sociais; d) dimensão narrativa: como se dá a construção temporal da experiência de si do sujeito; e) dimensão prática: o que o sujeito pode e deve fazer consigo mesmo.

Ao assumir essa abreviada tessitura teórica no processo de análise do dispositivo filme-documentário destaco algumas dimensões.

Conforme o professor de teatro a proposta da exibição era motivacional. O documentário narra biografias de pessoas, em situação de extrema pobreza, que retiravam sua subsistência familiar catando lixo em um aterro sanitário. Por meio da arte fotográfica, essas pessoas encontram uma possibilidade de resistir às condições adversas, experimentando um contato consigo mesmas. Diante desse enredo, pressupus que as expectativas dos profissionais da Fundação eram que os meninos e meninas sensibilizassem com aquela realidade. Contudo, a maioria dos jovens, durante a exibição, mostraram-se dispersos; alguns conversando e outros dormindo.

Pode-se observar, portanto, o intuito dos profissionais da Fundação em apresentar um mecanismo “projetivo” através do qual o indivíduo se reconheceria e identificar-se-ia com as imagens exibidas. Para Larossa (1995), a partir de uma análise foucaultiana da visibilidade, o

dispositivo filme-documentário se subsidiou no pressuposto implícito da metaforização ótica do autoconhecimento, compreendido como um algo exterior que fora convertido em objeto como um espelho, através do qual a pessoa poderia se ver.

O autoconhecimento aparece assim como uma modalidade particular da relação sujeito- objeto. Só que o objeto percebido, neste caso, é a própria imagem exteriorizada que, por uma certa propriedade da luz ao bater nas superfícies polidas, está diante do sujeito que vê (LAROSSA, 1995, p. 59).

Entretanto, em uma orientação marcadamente foucaultiana, Larossa (1995) afirma que a visibilidade consiste em qualquer forma de sensibilidade, qualquer dispositivo de percepção, o que implica que tanto o objeto quanto o sujeito são variáveis dos regimes de visibilidade e dependem de suas condições.

De tal modo, não poderia precisar os motivos do desinteresse daqueles jovens. Porém, aponto algumas pistas, como o fato de o vídeo ser de longa duração e no formato de documentário, com alternância entre depoimentos, entrevistas e imagens do lixão. Grande parte do mesmo era em inglês, por isso tinha legendas, o que consistiu em um obstáculo para os jovens que apresentavam defasagens de leitura. Além disso, muito provavelmente as histórias ali narradas não se aproximavam do cotidiano deles, ou seja, eles não se viam naquela realidade.

Outra questão levantada foi o cenário a ser retratado no espetáculo, como o próprio título anunciava, uma favela. Esta, em tese, representaria o Pirambu, carregado de suas significações negativas como as precárias condições de moradia, a deficiente infraestrutura urbana, carência de equipamentos socioculturais eficazes, escassas oportunidades de emprego formal etc.

Após exibição do documentário, os jovens retornaram à sala de aula para discutirem o mesmo e lhes fora dado um texto intitulado, “Sapatilhas no morro: meninos de favelas cariocas conseguem virar o destino e se consagram no balé clássico”, de autoria de Antônio Gonçalves filho44, para auxiliar no debate.

Não posso relatar como foi desenvolvido tal debate, pois não o acompanhei, mas na sala do NIV foram expostos desenhos confeccionados pelos jovens, retratando geograficamente uma favela. A partir de uma simples análise, observou-se que os jovens retrataram uma favela na

44 Publicado na Revista Época, em 20/02/2009, e disponível nesta pesquisa no ANEXO D – A mídia como dispositivo pedagógico: “arte na favela”.

forma de “morros”, semelhantes aos cariocas tão propalados pela mídia televisiva/internet.45 O que suscita certa incongruência, visto que, segundo Santos (2006), o litoral fortalezense compreende duas (2) unidades geoambientais: a planície litorânea e os tabuleiros pré-litorâneos, compartimentados entre duas zonas: a leste e a oeste. Na zona oeste, onde fica o Pirambu, o revelo é de planície litorânea, ou seja, há uma faixa de praias por toda a extensão da orla, com larguras irregulares, concentrando sedimentos dunares em formação, modelados por processos eólicos, marinhos e fluviais.

Aqui, chama-se a atenção para uma construção discursiva acerca do ambiente social “favela”, atravessada pela estigmatização e, consequentemente, descontextualização da realidade empírica.

Segundo Larossa (1995), o tema da visibilidade foucaultiana tece paralelismo, apesar de não ocorrer identificação, com o tema da dizibilidade. Nessa concepção, o discurso é um mecanismo autônomo que funciona “inseparável dos dispositivos materiais nos quais se produz, da estrutura e dos funcionamentos das práticas sociais nas quais se fala e se faz falar, e nas quais se fazem coisas com o que se diz e se faz dizer” (LAROSSA, 1995, p. 67).

Foi nesse sentido que apareceram o filme-documentário e a matéria da revista, dispositivos pedagógicos da mídia, que, para além de uma fonte de informação e lazer, consistiram tanto no aparato material quanto na prática social responsável pela produção e veiculação de valores, concepções e representações relacionadas às expectativas normativas sobre como é uma favela.