O objetivo deste capítulo é o de apresentar a pesquisa de campo ocorrida em uma refinaria no interior do estado de São Paulo e que serve como base prática para o desenvolvimento desta tese.
Os casos selecionados, a partir dos critérios estabelecidos e apresentados no capítulo de Método e Pesquisa de Campo, são expostos em três partes: (1) Análise ergonômica do trabalho; (2) Desenvolvimento de projeto conceitual; e, (3) Considerações acerca dos suportes de simulação utilizados.
A apresentação das etapas de análise possui grande importância para a compreensão dos processos de projeto realizados visto que tal desenvolvimento, incluindo os suportes escolhidos, o tempo de duração e a decisão pela implementação, tem uma ligação direta com a origem e contexto da demanda, tarefas prescritas e a atividade realizada nas situações de trabalho. Buscou-se nesta apresentação manter a fidelidade das análises realizadas pelos especialistas durante sua realização. A principal fonte de consulta foram os sistemas de informação do próprio grupo de pesquisa (sistema Intervir) e da empresa. Como explicitado anteriormente, cada caso possuiu uma dinâmica própria, sendo refletida para esta pesquisa na quantidade de informações disponíveis e, portanto, no grau de detalhamento dado, especialmente na etapa de análise.
A exposição dos desenvolvimentos dos projetos conceituais busca revelar os processos não lineares, as descobertas, decisões, discussões e a aplicação de diferentes suportes técnicos que caracterizaram tal etapa. Para reconstruir tal curso de ação, além dos sistemas citados, o autor buscou nos projetos armazenados no servidor do grupo de pesquisa, em seus arquivos pessoais e comunicações eletrônicas (e-mail) todas as referências e informações relacionadas a cada um dos casos. Tal material apresentou-se muito farto e necessitou de um trabalho de compilação para a presente pesquisa. Desta forma o relato foca na utilização de diferentes suportes ao longo de cada processo e o contexto no qual foi aplicado.
Por fim, para cada caso são apresentadas considerações acerca dos suportes aplicados com o objetivo de uma primeira reflexão que auxilie nas considerações gerais e na caracterização das diferentes formas que a simulação pode se apresentar para instrumentalizar os processos de projeto.
O primeiro caso abordado tem como objeto de análise e concepção diversos acessos utilizados por operadores em um parque de tanques com produtos armazenados (petróleo e derivados). Tais acessos, distribuídos em uma extensa área da refinaria, se davam entre as áreas dos tanques e destes com as vias de circulação (ruas e avenidas do entorno).
O segundo caso recupera o desenvolvimento de dispositivos em um laboratório de engenharia com o objetivo de, em um primeiro momento, atender a recomendações de uma auditoria interna e, posteriormente, melhorar o armazenamento e movimentação de corpos de prova a partir da perspectiva da atividade dos operadores.
O terceiro caso, situado em uma sala de operação de uma área industrial, surge de uma demanda típica da ergonomia: análise e seleção de mobiliário. A partir da análise e reformulação da demanda, o mesmo é desdobrado em três frentes com desenvolvimentos dependentes e paralelos: projeto de uma máscara para interface de um painel; modificação da estrutura física do console do painel para melhor acomodação dos membros inferiores; e, análise, seleção e testes de cadeiras para operação no console.
Por fim, o quarto e último caso, difere-se dos demais por se tratar de uma situação completamente nova e apresentar uma dinâmica de atuação da equipe de ergonomia nas etapas iniciais do projeto de instalações e como esta atuou nas situações encontradas, em especial, sobre o projeto de uma plataforma de abastecimento de produtos químicos em uma estação de tratamento de despejos industriais.
4.1. Caso 1: Plataformas e Escadas de Acesso – Transferência e Estocagem
O parque de tanques da refinaria analisada ocupa uma área aproximada de 700 mil metros quadrados, correspondente a cerca de 15% do espaço total da mesma. Tal área é basicamente dividida em duas partes, sendo uma contendo a matéria-prima do processo (cerca de 50 tanques e 20 esferas) e outra com os produtos derivados do refino (40 tanques aproximadamente).Como os tanques estão, em sua maioria, organizados em quadras contendo cada uma quatro tanques e cada um destes possui um acesso direto pela rua e outros 2 acessos internos para os tanques laterais, no total cada quadra possui, em média, 8 acessos. Para um total aproximado de 90 tanques (matéria prima e produto acabado) tem-se aproximadamente 180 acessos distintos na área da tancagem. Tal quantidade, no entanto, não reflete uma situação única (idêntica em cada acesso), mas sim situações com características específicas relacionadas ao processo, produto, relevo do local, iluminação, vegetação, entre outras. Assim, a demanda original registrada em 2006 foi desmembrada em 122 demandas entre os anos de 2007 e 2010. A Figura 11 ilustra uma quadra com quatro tanques e oito pontos de acesso (quatro acessos internos e quatro acessos para as vias de circulação).
Figura 11 Identificação de tanques na área de Transferência e Estocagem
Fonte: Elaborado pelo autor.
Para o presente caso é utilizado como principal referência a análise ergonômica da demanda original, no entanto, utiliza-se dados e situações analisadas e projetadas em demandas desdobradas desta.
4.1.1. Análise ergonômica do trabalho
A demanda para intervenção na área de tanques da gerência de Transferência e Estocagem (TE) é anterior à chegada da equipe de ergonomia na unidade de refino. Como apresentado anteriormente, antes do início do contrato entre a refinaria e a equipe de ergonomia vinculada à universidade, os membros do Comitê Local de Ergonomia realizaram um levantamento inicial de demandas (registrando 30 demandas), sendo que algumas possuíram algum tipo de análise e outras chegaram até a etapa de implementação (5 demandas). Assim, a demanda inicial havia sido registrada em agosto de 2006 e possuía registro fotográfico de visitas técnicas à alguns locais do parque de tanques. A descrição inicial dada pelo Comitê de Ergonomia foi: “Risco de acidentes ocasionado pela precariedade do acesso ao parque de tanques: falta de guarda-corpo”.
Desta forma, a demanda pela adequação de plataformas e acessos da tancagem (como também é conhecido o parque de tanques) foi uma das primeiras situações a serem analisadas e projetadas pela equipe de ergonomia em seu primeiro ano de atuação. As visitas de reconhecimento da demanda foram iniciadas em abril de 2007.
A área analisada inicialmente, conhecida como 322, armazena um tipo de produto acabado (gasolina) e foi selecionada pela própria gerência da TE pelo fato de ser uma das mais acessadas pelos operadores. Na ficha de Caracterização Geral da Área o analista da equipe de ergonomia descreve o ambiente de produção como:
“Área em campo aberto, sujeita às condições climáticas. Deslocamento em automóvel e caminhando. Durante a rotina expostos a: animais peçonhentos, colisão, atropelamento, explosão, hidrocarbonetos, campo eletromagnético, descarga atmosférica, H2S, radiação solar e ruído.”
A análise sobre a organização do trabalho levantou que na área atuavam 15 operadores de campo (todos do sexo masculino) divididos em 5 grupos de 3 operadores com rodízio alternado em 3 turnos (7-15h / 15-23h / 23-7h). Além destes,
no turno das 7-15h, trabalhavam mais 2 operadores de produção e no turno administrativo (7h30-16h30) mais 1 operador de manutenção.
Na Ficha de Descrição da Tarefa a análise registrou os diversos processos, operações, locais, equipamentos e observações percebidas pelo analista. A distância entre o local da análise e a base dos operadores foi um dos primeiros pontos característicos da demanda, assim como o ambiente à “céu aberto” obrigando os operadores a se deslocarem caminhando sob chuva, sol, vento, em pisos arenosos (ocasionalmente com lama, devido à chuvas), mato alto, obstáculos (canos e tubulações, por exemplo), atravessando canaletas e vãos, com pouca ou nenhuma sinalização e iluminação. A Figura 12 ilustra alguns dos primeiros registros realizados pela equipe de ergonomia.
Figura 12 Espaço físico de alguns acessos no parque de tanques
A ferramenta de análise ergonômica de postos de trabalho EWA foi utilizada para a compreensão dos fatores de risco presentes no local de trabalho. No Quadro 7 é apresentada a síntese do resultado de sua aplicação.
Quadro 7 Síntese do resultado do EWA para a demanda – Caso 1
Item Fator de Risco Avaliação
1 Espaço de Trabalho 1
2 Atividade Física Geral 2
3
Posturas de Trabalho e Movimentos
Comentários do Analista: “Nas movimentações necessárias para acionamento de válvulas e transposição de obstáculos, principalmente de coluna, joelhos e punhos.”.
3
4
Ferramentas Manuais e Outros Equipamentos
Comentários do Analista: “Apoios para equilíbrio na passagem por obstáculos e movimentação de válvulas mal posicionadas”.
3
5 Cargas Cognitivas 1
6 Cargas Organizacionais e Repetitividade
Comentários do Analista: “Comunicação somente via rádio, trabalho em campo”. 2 7
Risco de Acidente
Comentários do Analista: “Quedas e fraturas por ausência de proteção, irregularidades do piso, possibilidade de ferimentos por animais”.
4