Rio de Janeiro – Autorretrato198 (Marcelo Bauer, 2011) é um projeto transmídia que compreende, além do webdocumentário, um filme com versões de 15 minutos para o cinema e 26 minutos199 para televisão. Seu tema social é explorado a partir da visão de três fotógrafos do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, formados pela Escola de Fotógrafos Populares. AF Rodrigues, Jaqueline Félix e Ratão Diniz narram suas vidas em meio a um cenário cheio de contrastes, marcando a distância entre a realidade e a posição de cartão postal brasileiro que a cidade ocupa, como uma das mais bonitas do mundo. Os fotógrafos fazem um retrato das alegrias que permeiam o dia a dia, ao lado das dificuldades enfrentadas por quem convive com a violência e em meio a condições urbanas muito precárias.
O projeto apresenta em sua introdução um vídeo com pequenos depoimentos e imagens relativas aos três fotógrafos retratados e, a seguir, como um videoclipe, imagens estáticas de pessoas e locais da cidade se sucedem, não havendo opções de navegação além do comando de “Pular intro”. Ao final dessa exibição, nova interface é apresentada (figura 62), subdividida em quatro janelas temáticas – “Cidade”, “Pessoas”, “Sonhos” e “Vida Cotidiana” – correspondendo a elas uma foto respectiva, sendo simulado sob cada foto um conjunto de fotografias, amontoadas umas sobre as outras. Ao se apontar o cursor do mouse para cada uma das janelas temáticas, a interface se recompõe e desfaz o agrupamento, formando um mural dinâmico com 9 fotos, dispostas em 3 colunas e 3 linhas. Apontando-se novamente o cursor do mouse para qualquer imagem, dá-se nova alteração formando um painel gigante, com uma só imagem e um pequeno texto alusivo à temática em um dos quadrantes inferiores. A navegação é igual para todos os temas, variando apenas imagens e textos (figura 63).
198 O projeto foi vencedor do 33º Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, categoria Internet,
entre outras premiações e distinções para curta e média metragens. Disponível em: http://www.riodejaneiroautorretrato.com.br/. Acesso em: 17 jan. 2017.
199 A versão de 26 minutos do filme pode ser visualizada em: http://curtadoc.tv/curta/povosidentidade/rio-de-
Figura 62 – Interface inicial de navegação com hiperlinks, em Rio de Janeiro - Autorretrato
Fonte: http://riodejaneiroautorretrato.com.br/dev2011/Content/Swf/index_portugues.html.
Figura 63 – Etapas sequenciais de navegação pela temática “Pessoas”, em Autorretrato
Só é possível um clique em um mesmo mural, que direciona o usuário para um só resultado: a exibição de um vídeo – que pode variar entre 5 e 7,5 minutos - contendo depoimentos dos três fotógrafos e locações que retratam pessoas dentro da perspectiva temática. São oferecidos ao usuário os comandos de pausar e recomeçar, mas não há como acelerar ou retroceder as cenas e nem ir diretamente ao final do vídeo. O final da reprodução remete o usuário ao menu principal, sem a necessidade de alguma ação. Alguns ícones (figura 64) surgem na interface durante a reprodução do vídeo.
Figura 64 – Interfaces com lógica de ligação reativa, em Autorretrato
Fonte: http://riodejaneiroautorretrato.com.br/dev2011/Content/Swf/index_portugues.html.
Ao serem clicados, os ícones apresentam os menus possíveis de navegação: a seta superior à esquerda dá acesso a “Retornar ao menu principal” (janelas temáticas), “Vida cotidiana”, “Cidade”, “Pessoas”, “Sonhos”, “Fotógrafos” e “Créditos”. A caixa de diálogo
logo abaixo dá acesso a links para compartilhamento em redes sociais, para “Enviar comentários” e para “Exibir todos os comentários”. À direita, o bloco de texto dá acesso a “Versão texto” – escolha que abre janela sobreposta com transcrição das falas dos fotógrafos no vídeo.
Autorretrato apresenta características de um documentário interativo no modo hipertextual, similar nesse aspecto a Filhos do Tremor, apresentando uma lógica de ligação reativa na interface e uma base de dados fechada. Aproxima-se, segundo as estratégias de participação do usuário propostas por Gaudenzi (2013) – quem, o que e quando – dos projetos Out My Window e The Thousandth Tower, pois em Autorretrato se dá o fenômeno dos sujeitos-produtores, em que os sujeitos retratados se envolvem em alguma fase do projeto – pré, produção (neste caso em autorrepresentação) ou pós. Como sujeitos-produtores, os fotógrafos trazem ao webdocumentário seus olhares e pontos de vista, abrindo espaço para evidenciar a imagem dos próprios moradores acerca da sua cidade, no caso o Rio de Janeiro. O projeto apresenta uma abordagem uma abordagem centrada e uma navegação disseminada.
A abordagem, limitada ao município carioca, também permite extrapolar essa realidade enfrentada pelos moradores de bairros populares para outras grandes cidades de países em desenvolvimento, possibilitando igualmente que eles questionem a forma pela qual veem a sua própria realidade e o que fazem para modificá-la. Da mesma forma, infinitos fotógrafos que enfrentam as mesmas condições podem produzir novos filmes, numa possibilidade de trazer novas navegações idênticas dentro da mesma temática.
Assim como justificado por Penafria (2013) com o exemplo de Defense d’afficher (webdocumentário sobre 8 artistas de rua, apresentados em 8 vídeos), em Autorretrato também não é possível deixar algum testemunho, mas percebe-se uma estrutura que tende para o acréscimo de outras navegações idênticas e infinitas. Com potencial para ser constituída por infinitos filmes sobre moradores de bairros populares de outras metrópoles ao redor do mundo, se aproximando de Out My Window - que avançou nesse sentido de forma inovadora, através de outro projeto vinculado, Participate.