Chapter 3. Methodology
C. Sibutu Island Communities
3.4 Informant Selection and Size
Qual seria o cenário ideal para uma aula com experimentação? Como deveriam estar dispostos equipamentos, bancadas e materiais? Quais seriam os comportamentos desejáveis para alunos/as e professores/as em tal atividade? Se entrássemos numa aula de ciências, tendo a direção da literatura especializada acerca da experimentação em seu início no espaço escolar, facilmente nos depararíamos com o cenário de bancadas altas e limpas, microscópios, pinças, cadinhos, bisturis, lenços e vidrarias dispostos intencionalmente. Instrumentos esterilizados, luz adequada e grupo-controle pronto de modo a dominar as possíveis variáveis. Palco armado, o/a professor/a traja os princípios da ciência ao vestir o jaleco branco. Seus objetivos seriam: “testar uma lei científica, ilustrar ideias e conceitos aprendidos nas 'aulas teóricas', descobrir ou formular uma lei acerca de um fenômeno específico, 'ver na prática' o que acontece na teoria, ou aprender a utilizar algum instrumento ou técnica de laboratório específica” (BORGES, 2002, p. 05).
Nesse cenário, poderíamos imaginar que o/a professor/a solicitaria aos/as seus/as alunos/as a realização de atividades práticas, o que envolveria observações e medidas acerca de fenômenos previamente determinados por ele/a ao seguirem as instruções prescritas em um roteiro. Aos/às pupilos/as, passaria as instruções para tal prática, exigiria empenho para que a experimentação confirmasse uma teoria científica, descoberta por um grupo de grandes cientistas, que há pouco aprenderam na sala de aula. Por fim, solicitaria que os/as estudantes anotassem tudo o que observaram e as conclusões a que chegaram para compor o relatório da aula experimental.
A natureza que ali adentra está para ser ordenada por uma lógica científica e, por meio de métodos rígidos, teorizada. Afinal, desde Comte, a humanidade aprendeu, no século XIX, que “toda desordem aparece como uma imperfeição, uma causa de inquietude
e, até mesmo, uma forma do Mal” (JAPIASSU, 2007, p. 12-13). Tornaria-se necessário descobrir uma ordem para o universo caótico do natural. Assim, para pôr fim à desordem e criar uma narrativa ordenada sobre o mundo, recorreria-se ao legado deixado por Francis Bacon, no século XVII, quando se preocupou com métodos indutivos38 de experimentação. Segundo ele, chegar à verdade “consiste em saltar das sensações e das coisas particulares aos axiomas mais gerais e, a seguir, em se descobrirem os axiomas intermediários a partir desses princípios e de sua inamovível verdade” (BACON, 1988, p. 16).
David Hume, também empirista, no século XVIII, acreditava que “todo raciocínio provável não é senão uma espécie de sensação” (2009, p. 133). Isto é, para ele, cientistas e filósofos dependeriam, unicamente, da experiência. Em suas palavras: “embora devamos nos esforçar para tornar todos os nossos princípios tão universais quanto possível, rastreando ao máximo nossos experimentos, [...] ainda assim é certo que não podemos ir além da experiência” (HUME, 2009, p. 23). Porém, desde Aristóteles, na Grécia Antiga, já se acreditava que “os homens têm, por natureza, o desejo de conhecer” (ARISTÓTELES, 1984a, p. 11). Esse conhecimento poderia ser atingido por meio da arte, ciência, sabedoria prática, filosofia ou razão intuitiva. Por permear os modos de conhecer o mundo real, haveria de dar destaque à experiência sensível, o que fundaria a ideia de um sujeito empírico. Assim, contrariando seu mestre Platão (1965), – para quem o mundo sensível é o mundo da opinião, da doxa, da aparência, da matéria –, Aristóteles considerou o mundo sensível como o da experiência, em que a ciência deveria basear-se (DUCLÓS, s/d).
Com esse pressuposto, Aristóteles definiu o conhecimento científico como “um estado que nos torna capazes de demonstrar” (ARISTÓTELES, 1984b, p. 143). Tal demonstração do que se julga conhecer do real poderia ser feita por indução ou por silogismo. “Ora, a indução é o ponto de partida que o próprio conhecimento do universal pressupõe, enquanto o silogismo procede do universal” (ARISTÓTELES, 1984b, 143). Concluiu, porém, que existiriam pontos de partida, de onde procederiam os universais, que não poderiam ser alcançados por esses. Assim, seria somente por indução, e não por silogismo ou lógica, que os pontos de partidas seriam adquiridos. É por esse aspecto que caracterizo, aqui, mesmo considerando-o de tradição racionalista, esse filósofo como o primeiro, se não o mais importante, a formular uma episteme empirista. Vale ressaltar que
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tal empiria aristotélica difere da empiria moderna, em que haveria a necessidade de interferir na natureza para dela extrair uma resposta.
O pensamento aristotélico esteve presente, igualmente, por toda Idade Média, propondo-se a entender os fenômenos da natureza por meio dos sentidos elementares do ser humano guiados por sua relação natural com o fenômeno, sendo a observação o principal mediador entre sujeito e objeto (GIORDAN, 1999). Porém, com a idealização da ciência da modernidade, no final do referido período, a empiria e a racionalidade passariam a andar juntas. Em meio ao predomínio de um sujeito empírico idealizado pela ciência, fundaria-se um sujeito racional: aquele que explora o universo empírico por meio da observação e do pensamento lógico. Eis que o discurso racionalista e sua racionalidade demandada passariam a ser o eixo central para diferentes pensadores que vão se empenhar, desde então, na busca de uma marca fundamental da espécie humana.
Se os desejos de um sujeito humano que conheça e domine a si mesmo e à natureza podem ser encontrados nos filósofos antigos, foram os arquitetos do Iluminismo, no século XVIII, com o projeto da modernidade baseado em uma fé na razão, que produziram uma narrativa do homem como sujeito que descobriria a verdade (PRESTES, 1996). O sujeito iluminista seria um indivíduo “centrado, unificado, dotado de razão, de consciência e de ação, cujo ‘centro’ consistia num núcleo interior, que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia” (HALL, 2001, p. 10). O mundo seria algo estático, uma realidade a ser descoberta pelas verdades desse sujeito.
Convencido da necessidade e da urgência de estipular um método experimental da ciência, sob a égide da dedução39, Descartes ensinou, no século anterior, que seria fundamental seguir quatro regras: 1) tomar por verdadeiro apenas aquilo que parecer evidente; 2) conduzir as ideias começando pelas mais simples e fáceis; 3) analisar e decompor os problemas; 4) por fim, enumerar os problemas (DESCARTES, 1973a). Esse autor nos diria que “as pessoas são capazes de estabelecer as verdades necessárias por meio da luz natural de sua razão” (CHALMERS, 1994, p. 56). Tal caráter verdadeiro da realidade seria guiado pela racionalidade interior e obtido pelos métodos não-aristotélicos. Um cruzamento entre discurso racional e empírico que funda uma ciência moderna em que: racionalidade instrumental, observação, objetividade, organização, empirismo,
39 Experimentação que consiste em “adotar a precisão da medida da variável como critério mais adequado de
julgamento do fenômeno, que durante o advento [dessa] fase racionalista da ciência passa a ocupar o lugar da prática aristotélica de privilegiar os sentidos na abordagem do fenômeno” (GIORDAN, 1999, p. 45).
pensamento cartesiano e universalismo passariam a ser peças fundamentais nesse cenário. Institui-se, então, um conjunto de práticas discursivas que passaria a formar “os objetos de que falam” (FOUCAULT, 2005, p. 56): o sujeito moderno, o real e a verdade.
Se penso a experimentação como dispositivo, é porque vejo-a como aquela que possibilitou à ciência produzir novos ditos, livrar-se de práticas e concepções medievais, autorizar ainda mais verdades sobre a natureza, a humanidade. Ela foi necessária, em dado momento histórico, portanto, para a invenção do mundo moderno. A medida que experimentos foram sendo desenvolvidos, novos saberes sobre os fenômenos naturais passaram a ser formulados e utilizados no governo de uma cultura que buscava a cientifização de suas práticas. Ao estudar a experimentação no início da ciência moderna, Stengers (1990) escolhe Galileu por considerá-lo um dos primeiros operadores de tal ciência e o mais lembrado, quase que obrigatoriamente, cientista na atualidade. O legado deixado por Galileu celebra “não apenas um ‘novo sistema do mundo’, mas também uma nova maneira de argumentar, à qual ele confere o poder de mergulhar os seus adversários no ridículo, e de obrigar Roma a inclinar-se e modificar a interpretação das Escrituras” (STENGERS, 2000, p. 85). Assim, as formulações de Galileu não apenas alteraram a forma de conceber a velocidade ou o movimento planetário. A partir de Galileu, o mundo é “um mundo que ninguém pode interrogar diferentemente dele” (STENGERS, 2000, p. 99).
Depois de Galileu, muitos outros cientistas valeram-se de experimentações para inscrever seus nomes na história da ciência. No século XVII, Boyle desenvolveu experimentos para desvendar os mistérios da natureza da matéria (ZARTEKA, 2006). Newton fez experimentos para estudar óptica, por exemplo (SILVA, MARTINS, 2006). No século XVIII, Boerhaave realizou experimentos com metais, o que o fez ser considerado um marco da época (GOLDFARB, FERRAZ, 2006). Haller reuniu um conjunto de experimentações sobre a fisiologia humana, sendo sucedido, décadas depois, pelo Claude Bernard – que fundou manuais dessa disciplina – e Louis Pasteur – primeiro a conseguir provar por experimentações a existência de microrganismos e a impossibilidade da teoria da geração espontânea (PORTER, 2004). No século XIX, Mendel construiu as leis de transmissão de caracteres a partir de experimentos simples. No século XX, Watson e Crick montaram um modelo para o DNA e suas atividades (KECK, RABINOW, 2009).
Tais cientistas, “filhos” dos fundadores do método científico, buscaram concretizar o sonho moderno. Seus esforços foram motivados “pela crença na necessidade de impor-se um procedimento sistemático e rigoroso no grande número de observações da natureza que
proliferaram” (PRESTES, 2006, p. 250). Vale ressaltar que a experimentação que se realizara “na base da revolução científica dos séculos XV-XVII é um empirismo racional” (COSTA, 2006, p. 257-258). Apesar da importância desse início para a consolidação da ciência moderna, o termo moderno ciência “só se impõe a partir da segunda metade do século XIX, com a sistematização do método experimental por Claude-Bernard (1865)” (JAPIASSU, 2007, p. 44). A experimentação se distingue, a partir daí, do empirismo antigo e medieval ao pôr em cena: método, empiria e racionalidade. Torna-se a nova máquina de produzir saberes. É quem dita o verdadeiro, quem testa e prova. Isso mostra que não se trata da história do conhecimento, “mas sim da maneira pela qual a produção da verdade tomou a forma e se impôs a norma do conhecimento” (FOUCAULT, 2007, p. 66).
O dispositivo da experimentação é um operador que, ao mesmo tempo, concerne às coisas e aos homens (LATOUR, WOOLGAR, 1997). Afinal, a ciência confere, a quem se diz cientista, a quem atende aos seus critérios de demarcação, “direitos e deveres” (STENGERS, 2000, p. 32). Ao passo que a experimentação surge como um dispositivo, com a “função estratégica dominante” (FOUCAULT, 2007d) de demarcar o que conta como ciência moderna, não mais medieval, o sujeito da experimentação é solicitado. Um operador da experimentação, em suas práticas de laboratório, buscará, desde então, atender aos seus deveres – racionalidade, objetividade, empiria, ordenação, lógica – e saberá usufruir dos seus direitos de autoridade.