dessa dança dramática e popular. A estética faz parte do universo dessa manifestação que busca mostrar a beleza do bailado em coreografias de seus personagens.
No sotaque de orquestra, os personagens índias e índios vêm ganhando destaque como já disse em outras passagens deste trabalho. E não é exagero dizer que esses personagens são vistos como o maior diferencial do sotaque. O grupo que possui as índias mais bonitas é especialmente ovacionado nas apresentações. Os seus corpos sarados e atléticos são uma atração a mais nos grupos, chegando ao ponto de uma seleção rígida para interpretar tal personagem.
As índias do boi Brilho da Ilha são jovens bonitas e com um corpo bonito. A maior preocupação dos bois de orquestra é com as índias que hoje são o cartão de visita dos bois, chamando atenção por onde vão. Eu não vou dizer que concordo ou não, pois não entendo muito do assunto. Mas eu vou falar de minha vivencia. A atração dos bois quando eu era criança, e hoje tenho 54 anos, era o boi, a brincadeira em si. Não tinha essa cosia de índia ou índio bonito. Tinha era o caboclo trabalhador que à noite vestia sua fantasia e brincava ate de manhã. Mas que hoje as meninas índias chamam atenção isso é inegável. São outros tempos. Vi aqui garotas saírem chorando por não ser escolhida índia. (João Neto, morador do bairro do Ipase, 54 anos, vigia).
Nos grupos de sotaque de orquestra a seleção das índias e índios é semelhante a um concurso de beleza, como já foi dito. A personagem índia/índio teria uma função estética, enquanto amo e vaqueiros representariam os símbolos centrais do boi. De acordo com Albernaz (2004) as índias, do sotaque de orquestra, tem um perfil de tom da cor da pele mais claro, porém bronzeado, cabelos lisos ou levemente ondulados e estatura mediana. Recente de homens caracterizados de índios vem atraindo o público, sobretudo o feminino, com seus corpos malhados e pouca ou quase nada de roupa. Vale ressaltar, que o Brilho da Ilha, tem preferencia por índias negras, mulatas e cabelos cacheados.
As índias estão presentes em todos os estilos de Bumba-meu-boi. Em alguns recebem a denominação de tapuias. Dançam em cordão ou fila, em conjunto, com marcações definidas de movimentação. Nos grupos dos sotaques da Ilha e da Baixada têm indumentária confeccionada com penas de ema. Os Bois da Baixada sediados em São Luís, têm cordão de índios, que é chefiado por um cacique e alguns Bois de Zabumba possuem personagens equivalentes chamadas “tapuios”. Recentemente alguns grupos de Bumba-meu-boi de Orquestra introduziram índios no rol de suas personagens, a partir da releitura que o Bumba-meu-boi de Morros fez do auto do Bumba-meu-boi. (IPHAN, 2011, 150).
Nas negociações do hibridismo na cultura popular do boi, fica nítido que todos os envolvidos
negociam sua participação e se envolvem nas mudanças. Então, estar dentro do “padrão índia/índio” é uma escolha do brincante que concorda e contribui ativamente para a introdução do “novo” no Bumba-meu-boi. Não poderia ser diferente, como já foi dito, os
brincantes vivem e se relacionam com o seu tempo.
O enredo central do Bumba-meu-boi é a dramatização do auto, a partir da vivência do cotidiano das pessoas, dos grupos e das classes que o reproduzem. A música faz exaltação da
beleza e da personagem “índia guerreira”, que a todos encanta, seja por sua dança, seja por sua beleza singular. Vejamos a música “índia guerreira” do Brilho da Ilha:
Índias guerreiras do amor! O teu olhar me enfeitiçou Quero sentir teu calor
Índia como é lindo o teu bailar Sua beleza encantar,
Guerreira tupinambá. O grito forte ecoou O teu sorriso que clareia Incendeia a fogueira E as estrelas vêm brilhar
Tribo guerreira, do Brilho da Ilha! Índias que encantam noite e dia!
(composição de Adão, música! “Índias guerreiras” do Brilho da Ilha, 2014).
O culto pela beleza das índias e índios, requeridos nos grupos de sotaque de orquestra vem recebendo críticas de pesquisadores (LIMA, 2002), AZEVEDO NETO (1997), ALBERNAZ, (2004, 2005).
A imagem relacionada à estética do feminino e do masculino apresentada pelos meios de comunicação indicam padrões e modelos impostos pela sociedade de consumo atual. A
imagem mostrada são mulheres e homens magros, atléticos, sorriso com dentes “perfeitos” e
demonstrando sensualidade. No boi de orquestra não é diferente. Esta imagem é objeto de desejo dos personagens. Para ser índia destaque ou índia guerreira no Brilho da Ilha, as
candidatas se destacam por sua beleza e corpo “perfeito” e tem a “obrigação” de mantê-lo ou
perderá a posição.
Percebe-se que o corpo como elemento chave de acesso ao personagem índia de orquestra acaba criando desigualdades internas de três tipos principais, a saber: primeiro só pode ser índia quem possuí esse padrão corporal, pois como visto, as demais candidatas desprovidas desse modelo ideal são alocadas para outros personagens onde o corpo não é critério de participação, assim de uma maneira geral há uma desigualdade entre as mulheres; segundo, ter esse padrão corporal pode implicar em não poder escolher o personagem que se quer representar uma vez que pelo fato de estar em acordo com o padrão exigido, aquelas que o detêm são pressionadas pelos dirigentes a ser índia. E por último, o escalonamento da beleza entre elas em graus diferenciados que implica numa desigualdade dentro do grupo de índias como exemplo os batalhões que as subdividem pelo corpo mais bonito. (LIMA, P. 2013,40).
Uma das índias destaque do Brilho da Ilha nos conta:
Quando houve o papel de destaque no boi para índia, fiz de tudo para ser meu. Malhei bastante para acentuar meu corpo, passei a não faltar nos ensaios e a me dedicar mais. Consegui primeiramente ser destaque na frente do cordão. Hoje fui escolhida para ser uma das índias guerreiras. Tenho que manter postura e não me descuidar com o corpo. Sou mãe, trabalho e tenho um dia corrido, mas pelo boi, por mim e pela cultura vou desempenhar bem meu papel. Não acho sacrifício manter o corpo. É saudável. E quem não gosta de ver uma pessoa de corpo atlético? Os turistas e o publico querem ver isso. Damos a eles o que querem e recebemos deles aplausos e reconhecimento. (Solange, conhecida no grupo por Sol. Índia guerreira do Brilho da Ilha desde 2013).
Ou seja, como a sociedade muda e acompanha o seu tempo, o brincante também. É comum, brincantes, principalmente índias e índios adotarem a academia, como pratica de exercícios para se manterem em forma e assim permanecerem com seus personagens ou até mesmo destacarem-se mais, os vaqueiros e vaqueiras também buscam um corpo “perfeito’, mas não a há certa exigência.
Reforçamos que atualmente, aparentemente, as mulheres podem ocupar todas as posições dentro do boi, o que não ocorria antes. Contudo, tal mudança não implicou a supressão dos significados de gênero existentes para as práticas e posições de homens e mulheres nessa brincadeira. Por exemplo, as mulheres que atuam como índias passaram a serem vistas de maneira mais positiva e a receber mais estímulo do que se ocupassem a posição de amo ou de miolo. Por sua vez, o aumento da participação das mulheres coloca em evidência uma classificação dos sotaques de
bumba-meu-boi de acordo com o gênero, uma vez que os sotaques podem ser mais ou menos masculinos ou femininos. A essa classificação soma-se a classificação racial. (LIMA e ALBERNAZ, 2013,497-498).
O boi de orquestra, caso do Brilho da Ilha, que possui índias e vaqueiros/vaqueiras bonitos, atléticos, com indumentárias bem elaboradas recebem mais cachês e têm mais patrocinadores, daí a escolha criteriosa pelos personagens, de acordo com os donos dos bois e a exigência do publico e patrocinador.
Não é à toa que os bois de orquestra, principalmente aqueles que possuem maior prestígio na capital, têm uma participação mais considerável na questão número de apresentações locais (com patrocínio público e privado), como também em viagens internacionais que promovem a cultura regional. O cachê pago a esses bois varia de acordo com os números de apresentação, e por sua vez, o número de apresentação tem a ver com o prestigio que o boi tem junto ao público. Isto quer dizer que os bois mais populares (..) são um dos primeiros na lista dos órgãos contratantes. (LIMA, P.31, 2013).
Outro fato que chama atenção nestas mudanças é que cada vez mais os grupos realizam apresentações pequenas, restritas, onde o contratante pede, por exemplo, 6 ou 10 brincantes e invariavelmente são escolhidas as mais belas índias para representar o grupo. Algumas vezes, não tem nenhum representante de vaqueiros. A explicação de Caroline, índia e esposa de fundador do boi:
O boi cresceu muito, tem um nome de destaque e com isso é contratado para grandes e pequenos eventos. O contratante é quem manda: ele expressa que quer somente índias, a orquestra e o boi. Então o que fazer? Temos que atender a quem contrata. Quando temos a oportunidade de se apresentar em um grande arraial, levamos todos os brincantes e mostramos toda a coreografia, Catirina, a charrete, a burrinha. O público, principalmente o turista quer ver o belo, por isso a escolha das índias levar em conta padrões de beleza. Eu não concordo com isso, mas é o que pede o mercado, o próprio governo que dá mais contratos para grupos famosos de índias bonitas. (Junia Caroline Pereira Quadros, Brincante e também administra o Brilho da Ilha desde 1998, Técnica em radiologia).
O presidente e dono do boi Brilho da Ilha, Claudio Sampaio reluta em colocar índios no
grupo, porém sabe que a cada ano mais grupos vêm selecionando rapazes e teme ficar “para trás”. Em conversas informais com alguns brincantes do grupo, percebi que alguns querem a
introdução da figura do índio no enredo da brincadeira.
Neste contexto, podemos afirmar que as mudanças que ocorrem em todos os setores da sociedade incidem também sobre o fomento de políticas para o turismo e para a cultura, muitas vezes correlacionadas. E esta relação reforça padrões de beleza rígidos e estereótipos
femininos e masculinos, como indica o caso das índias e índios nas apresentações de bois de orquestra.
Para Albernaz (20013), porém, a beleza exigida das índias, é apenas um pormenor. Para ela, a grande preocupação que se deve ter atualmente é a estética do boi em termos mais amplos:
A “beleza das índias” tem atraído mais público para este tipo de boi, o foco da polêmica é relativo à estética do folguedo: tipo de adereços, formato das roupas, coreografia executada, que estariam desafiando os códigos tradicionais sobre o que é ou não adequado para o bumba meu boi deste sotaque, evidenciando uma disputa simbólica pelos conteúdos da tradição. (ALBERNAZ, 2013,04).