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5. Results From the Data Collection

5.1 Influences of Integrated Contracts

Os contos deixam transparecer toda a carga emotiva de quem ficciona uma realidade vivida, e por isso diferentemente abordada. Com uma escrita profundamente adjetivada e uma visão piscilinea, escrita que se detém no corpo, “as mãos finas e nervosas” (p.

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, e na minudência descritiva das crianças, da sua fome, do desespero da mulher, numa partilha, numa comunhão. A mesma comunhão que enleia os gritos de emancipação que as mulheres chinesas lançam do fundo das páginas dos contos de Deolinda Conceição.

As mulheres de Deolinda da Conceição são mulheres sofridas, mulheres que povoam um universo de luta contra a submissão, mesmo quando essa luta se vence pela morte. Na construção do universo feminino, Deolinda carreia, naturalmente, a sua conceção de vida, de mundo “Vida, mãe carinhosa para alguns e madrasta cruel para outros! (…) Vida chama-se àquela existência tormentosa onde não brilha sequer um raio de esperança, e vida chama-se também àquela cadeia contínua de alegrias e contentamento que vai (…) deslizando para o seu termo, acabando como tinha começado, docemente, suavemente”; onde a euforia efémera do momento é contraditada pela disforia permanente, pela impossibilidade ao alheamento.

Porque os contos nos falam, sobretudo, dos anos trinta num vasto espaço que medeia Xangai e Cantão; porque dos contos emerge a mudança de

mentalidades e o confronto ente a tradição e a modernidade, e entrega-nos retalhos de uma sociedade que ainda mantinha a doutrina das “Três Obediências”, apesar de se encontrar num processo de mudança carreado pelo fim da dinastia

Qing e pelas convulsões politicas e sociais subsequentes, num quadro em que os

movimentos reformistas e revolucionários exigiam o repensar do sistema familiar tradicional baseado no modelo confucionista, que caraterizou as duas últimas dinastias do Império do Meio, pois , “this cultural critique of the traditional family was primarily an urban phenomenon” (Stockman:2000:101), consideremos o mundo que Deolinda Conceição conheceu na sua espácio-temporalidade,

As denominadas sociedades tradicionais resultam de um fechamento sobre si próprias e concomitantemente de um processo de evolução muito mais lento. Na china o tradictio cristalizou hábitos, crenças e valores no tronco nuclear da sua cultura, mantendo, ainda hoje, formas de solidariedade mecânica com um significativo consumo de bens simbólicos, substanciada numa filosofia ideológica- moralista que emerge no século VI A.C. no pensamento da Escola Confucionista e, embora tenha tido um momento de atenuação na dinastia Tang, corporiza-se com o Neo-Confucionismo da dinastia Ming (1368-1644) e mantêm-se até ao final da dinastia Qing e fim do Império Celestial.

A cultura chinesa ancorada na herança de Confúcio e dos seus discípulos norteou o modus faciendi e o modus vivendi do povo chinês carreando como primordiais os valores de persistência, perseverança e o sentimento de vergonha de acordo com o princípio “ordering relationships by status and observing this order” (Bond;1991:70.)148. Embora nos anos trinta estivesse já no início de um

processo de modernização, a China tinha alguma relutância ao confronto com o mundo ‘moderno’, que lhe estava a ser revelado pelo ocidente, por receio de fragilizar a sua cultura e ocidentalizar a sua identidade.

A condição da mulher, na sociedade tradicional chinesa era a de submissão absoluta à estrutura androcrática/tradicional, sem qualquer valor social. Um homem chinês não casava com uma mulher casava com uma nora; um casamento tradicional chinês correspondia a um negócio, entre duas famílias, sendo o objeto de transação uma mulher, que deixa de pertencer à sua família original e passa a ser propriedade da família do marido:

148 Também, segundo Alain Peyrefitte “ os grandes impérios foram fundados por grandes centralizadores

que (…) impuseram organizações hierarquizadas que lhes sobreviveram por muito tempo (…). Nenhuma foi construída mais solidamente do que o Império chinês, cujos arquitectos se chamam Confúcio e Qin Shihuangdi. Tudo nele está ordenado com vista a garantir a duração e a grandeza do estado, fazendo perecer o individuo, para apenas o exaltar na sua dimensão colectiva e quase religiosa. Cada um tem o seu lugar determinado numa hierarquia (…) assim a sociedade chinesa reproduz-se identicamente, do século III a.C. ao nosso século XX (…)”; (Peyrefitte:1995: 544-545)

The bride moved on marriage away from the village where she was raised to the village of her husband’s family, to take her place in their household; this pattern is referredto as ‘patrilocal’ or ‘virilocal’ marriage. The responsabilities of the new brideincluded servisse to her mother-in-law, who determined her duties within the household. The new member of the household had a very low status, which improved only when she had fulfilled her primary function of producing a male successor. (Stocckman:2000:96,97)

No último século, contudo, registou-se uma progressiva evolução da sociedade chinesa, embora com os ressaltos que advêm das conhecidas alterações politicas e sociais que plasmaram a sua história recente, e constata-se uma nova forma de encarar a mulher na sociedade, fruto nomeadamente das reformas das leis, que regiam a família, introduzidas primeiro pelo governo do Kuomintang:

“The Civil Code of 1931 established the principle of free-choice marriage and

garanted women rights in matters of divorce, inheritence and property more equal to those of men, though it maintained patriarcal authority in other respects (…)” (Stockman:2000:102).

Ainda de acordo com o autor, esta reforma teve algum impacto no seio da classe média urbana, contudo quase não se sentiu nos meios rurais, ou seja na maioria do território chinês, o que leva, pouco tempo depois o Kuomintang, ao abandonar a sua vertente revolucionária, a tentar reintroduzir uma nova ordem baseada na mistura das virtudes do confucionismo e do cristianismo.

Em 1950, por forma a explicitar a sua politica familiar, o Partido Comunista Chinês emana a Lei do Matrimónio que “ which aimed to replaced the ‘feudal’ patriarcal marriage system of the old society whith the ‘new democratic’ marriage system” (Stockman:2000:102) que garantia a livre escolha dos parceiros e a igualdade de direitos para ambos os esponsais e em todas as matérias subjacentes ao matrimónio. Contudo, sublinha Stockman, perante alguma resistência das populações rurais e o facto de a alteração da estrutura familiar ter coincidido com a reforma agrária, que alterou substancialmente a estrutura social das comunidades rurais, associado “ The need to retain the suport of the rural population,, especially the poor peasntry, also led the party go slow in the implementation of some provisions of the Marriage Law (…) (Stockam:2000:104)

levando a que nos meios rurais se mantivesse a formula denominada por ‘patriarcal-socialismo’; o mesmo não se passou nos meios urbanos onde a reforma do sistema familiar foi significativamente aceite.

A era reformista, já no período pós Deng Xiao Ping, tende a fazer uma reinterpretação do confucionismo, nomeadamente, no que concerne aos denominados lares-empresas, onde não se verifica a separação entre família e empresa, mas se acentuam as desigualdades sobretudo de género149, esta situação

corresponde ao que Riley refere como “two steps forward, one step back”, e que está subjacente ao que a China entende ser a mulher chinesa hodierna: “o seu novo traje é ocidental com características chinesas” (Alves;2007:172); mas espera desta nova mulher “ [que] seja doce, flexível e saiba assumir a sua feminilidade, bem como a sua vida familiar já que deve ser uma boa dona de casa” (Alves;2007:172), e, naturalmente permitindo o seu investimento em termos educacionais, desde que o faça “(…) de modo a poderem colaborar na modernização económica do pais (…)”150

Sobre Macau a autora não dá voz às mulheres da sua comunidade, mas fá-lo às mulheres chinesas de Macau e desvenda as fábricas e as misérias e as relações assimétricas com laivos coloniais; tal como em Senna Fernandes, há nestes contos a sombra da denuncia anti-colonial (Venâncio “2006) mas também alguma luz sobre as práticas coloniais que igualmente emergiam apesar da ‘especificidade’ do território, pois “ Nas constelações coloniais, no casamento inter-étnico ( para não falar do concubinato ou das relações passageiras) o protagonista masculino geralmente pertencia à categoria dos colonizadores (Schouten:2011:76)

Os contos remetem para a matéria da história dos seres humanos que às vezes o não são; em forma de conto; em forma de crónica jornalística, em forma de lenda chinesa; por eles se percorre os caminhos das mulheres num tempo da China em dois lugares da China: a sua imensidão e um recanto da cidade de Macau, o recanto Chinês.

149 Sobre esta temática ver também Riley (1997)

150 Ainda a propósito, Ana Cristina Alves menciona o facto de, mercê de uma aplicação real da lei ‘um

casal um filho’, “ (…) muitas [meninas] das que cresceram nos últimos anos, a caminho do século XXI, foram criadas como filhas únicas, em famílias de dimensões reduzidas ao jeito ocidental. (…) Desenvolveram-se rodeadas de cuidados (…) oportunidades educacionais e culturais. Têm mesmo uma cultura cosmopolita, sendo ocidentais muitos dos seus ídolos. (…) Não foram obrigadas a lutar, como aconteceu às suas mães, contra os obstáculos de uma mentalidade vincadamente patriarcal.” Contudo os pais chineses projetam nas filhas “as suas frustrações e sonhos (…) excesso de expectativas, (…) que exige um trabalho duro e constante da parte delas, a fim de estarem à altura das ideias dos progenitores (…) pensando que estão a contribuir para o aperfeiçoamento da descendência.” Esta situação carreia “vestígios da mentalidade tradicionalista, onde o estudo teórico e prolongado, com efeitos físicos penosos, era muito enaltecido.” (Alves:2007:173)

1.2. O livro de Contos – Cheong – Sam - A Cabaia