• No results found

2. LA LITTÉRATURE THÉORIQUE

2.2. Influences et manipulations : La publicité

Fonte: Acervo pessoal

CAPÍTULO III - AS FESTAS RELIGIOSAS E OS FESTEJOS NO MANGAL

Há sempre algo descentrado no meio cultural, na linguagem, na textualidade, na significação; há algo que constantemente escapa e foge à tentativa de ligação, direta e imediata, com outras estruturas. (Stuart Hall)

As festas que encontramos em Mangal/Barro Vermelho ajudam os moradores a atualizarem laços de solidariedade, valores, promovem a coesão do grupo ao mesmo tempo em que realimentam o próprio grupo na continuidade da luta travada no seu cotidiano.

A possibilidade de discutir as festividades presentes em Mangal/Barro Vermelho como formas de resistências encontradas por esses sujeitos para a manutenção da identidade individual e coletiva do próprio grupo, nos ajuda a compreender a importância da tradição, que mesmo com as mudanças trazidas pelo tempo, apontam elementos que se constituíram ao longo desse período como formas de resistência, presentes no cotidiano desses sujeitos. Aqui também nos utilizaremos da metodologia da história oral para rememorar esses fragmentos da memória, que fazem o papel dos nossos retalhos em construção, ajudando a recontar essas práticas de resistência.

Acreditamos na possibilidade de trabalhar as questões que envolvem as populações rurais negras tradicionais a partir do diálogo com a realidade empírica, a partir da qual procuramos compreender a diversidade cultural, as experiências e os modos de vida dos moradores do Mangal/Barro Vermelho. Vislumbrar essas histórias levando em conta a cultura, que, para Williams (1979, p. 25), deve ser pensada “como um processo social constituído, que cria ‘modos de vida’ específico e diferente”. As manifestações culturais em Mangal são diversas: passam pelas folias de reis, roda se São Gonçalo, festejos de São Sebastião, Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora da Conceição, sem deixar de lado as homenagens para Nanã Burokê, todas essas festividades são permeadas de muita animação, farta comida e manifestações culturais como: a marujada, o boi virá, o samba de roda, entre outras.

Observar, nesse sentido, que entre as comunidades negras a busca pela construção de identidades com base em significações atribuídas ao passado tem se tornado mais intensa nos últimos anos.

Neste sentido o contexto social e cultural é de extrema importância. O que definimos como nossa cultura estará na base de nossas lembranças do presente e do passado. Falando sobre cultura Paul Claval (2001, p. 63) aponta que:

A cultura é a soma dos comportamentos, dos saberes, das técnicas, dos conhecimentos e dos valores acumulados pelos indivíduos durante suas vidas e em outra escala, pelo conjunto dos grupos que fazem parte. A cultura é herança transmitida de uma geração a outra. Ela tem suas raízes num passado longínquo, que mergulha no território onde seus mortos são enterrados e onde seus deuses se manifestaram. Não é, portanto um conjunto fechado e imutável de técnicas e de comportamentos. Os contatos entre povos de diferentes culturas são algumas vezes conflitantes, mas constituem uma fonte de enriquecimento mútuo. A cultura transforma-se, também, sob o efeito das iniciativas ou das inovações que florescem no seu seio.

A cultura é permeada por manifestações festivas a base de concepções e movimentos onde a alegria e o riso se fazem presentes, ao falar sobre o riso Bakhtin (1999) comenta que “foram as festas que sancionaram o riso”. Além do carnaval, “em muitas festas religiosas da Idade Média o riso era uma constante, o riso pascal e o riso de Natal” são bons exemplos. Mas, sua existência mais constante foi nas festas de alternância das estações e do ciclo lunar. Nesses casos, o riso possuía um sentido mais amplo e profundo, de acordo com análise de Bakhtin (1999, p. 70), ele concretiza “a esperança popular num futuro melhor, num regime social e econômico mais justo, numa nova verdade”.

O riso para Bakhtin não é indício apenas de alegria, mas também do humor que muitas vezes impregna e marca as festas populares. Pode indicar comportamentos e atitudes de sátira aos poderosos, ou aos costumes considerados indesejáveis pela comunidade. O riso pode ser alegre ou até mesmo triste e irreverente.

Os festejos populares em Mangal também são marcados pela alegria dos participantes, principalmente no samba de roda, onde todos se divertem homens, mulheres, jovens e crianças. Esses festejos são marcados pelas histórias dos mais velhos que contam como as festas aconteciam no tempo em que eram jovens. Albertino Lobo comenta: A graça daqui é a mesma rizada de lá (risos) é tudo na santa paz.102

A referência ao riso também aparece em outro momento de sua fala: É samba de roda, um sapateia, outro sapateia, um atrás de uma dozinha de pinga branca (risos).103

102 Albertino Lobo dos Santos. Entrevista concedida em 26 de julho de 2012. 103 Idem.

Outra de nossas entrevistadas, dona Luiza Lobo, irmã de seu Albertino, fala em uma das passagens do verso que catam ao Santo Reis que são a alegria da festa. Somos alegria de festa na boa entrada do ano, na boa entrada do ano.104

Assim se constituem os momentos de alegria, onde as conversas e os risos são jogados ao vento.

A participação dos mais velhos ajuda a manter a tradição dos festejos, assim como, a participação dos jovens atualiza essas tradições, traz um “sangue novo”, renova a alegria nos tempos de festa.

Tradição aqui compreendida como modo de vida, que se renova e atualiza no tempo presente, incorporam novas vivências, agrega outros elementos se moderniza.

As culturas fundamentadas nas tradições herdadas dos antepassados vinculam o tempo ao lugar, constituindo-se em uma das bases da vida cotidiana. Porém, é no presente que os sujeitos sociais acionam o passado. Assim se processa nas comunidades remanescentes de quilombo: espaço e tempo coincidem amplamente. A historicidade das comunidades quilombolas é assinalada por diversos eventos que resignificam e dinamizam as suas estruturas sociais e territoriais, sobretudo no que se refere aos conflitos fundiários. Tais conflitos quase sempre acarretam uma perda de espaço do território, que redefine a estrutura social do grupo. Esses movimentos culturais vivênciados pelo grupo se mantêm vivos no tempo e são imortalizados na memória coletiva por meio da lembrança.

As comunidades remanescentes de quilombo enquanto grupos sociais são responsáveis pela continuidade das tradições que remontam a sua própria identidade de grupo, assinalada pelo aspecto da ancestralidade comum. A sua memória, portanto, possui a temporalidade de existência do próprio grupo.

Nesses festejos, que são apresentados e representados na comunidade de Mangal, percebemos que aspectos da vida comunitária como a partilha, a solidariedade são bastante valorizados nessas manifestações, a arrecadação de dinheiro para compra de produtos no comércio de Paratinga, produtos que eles não encontram na comunidade como olho, açúcar, biscoito, arroz, macarrão, sal, entre outros, as coletas de alimentos para fazerem as refeições do dia da festa, o trabalho coletivo na preparação desses alimentos. Em algumas festas, como a da padroeira Nossa Senhora do Rosário, são servidas três refeições, aos marujos e convidados, pessoas que vem de outras comunidades, ou de outros municípios, ali é servido

farto café da manhã, com bolo, biscoitos, maça em geral, café, leite e refrigerante, um almoço com fartura de carne, arroz, feijão e macarrão, e uma janta onde se repete os mesmos elementos do almoço. Como podemos observar nas fotos 14 e 15.