Numa política de segurança, de qualidade e melhoria contínua dos cuidados prestados pelos profissionais de saúde, é crucial que o exercício profissional seja baseado em ferramentas e metodologias de gestão de risco, as quais têm por objetivo promover um ambiente seguro e de qualidade, quer para clientes, quer para profissionais. O BO é propenso à ocorrência de acidentes, dado que nele coexistem ingredientes para que essa situação ocorra, nomeadamente: “stress
excessivo, ocorrências inesperadas (vertente diagnóstica, dificuldade técnica, impreparação, equipamento, falhas técnicas), interface humanos-equipamentos muito variadas e nem sempre ergonómicas, dinâmica de equipa com as suas disfunções usuais, falhas da organização, falhas técnicas por avaria e claro, o erro humano!” Fragata, (2010, p 20). O cuidar perioperatório é
caraterizado pela sua complexidade, com equipas multiprofissionais, com uma forte dependência e contribuição operacional individual (human technical skills), exercida no contexto de um subsistema e de uma organização complexos, em que os fatores de equipa (human non technical skills) e os fatores organizacionais (system), têm um papel fundamental, em constante interação, num ambiente pautado por humanos, máquinas e equipamentos (Fragata, 2013).
Na área perioperatória a atividade do cuidar é envolvida por procedimentos complexos, plenos de variação e incerteza, operacionalizados em condições ambientais dominadas pela pressão e
stress (Healey et al, 2007); (Leval et al, 2000); (Dias Pinheiro e Martins, 2006), pelo que a segurança
da pessoa e profissionais é um foco da prática, num ambiente de alta tecnologia e de vasta especialização, sobretudo quando prestamos cuidados diferenciados, especializados, seguros e de qualidade. Também “o número de pessoas envolvidas, a elevada carga de trabalho, o stress, a fadiga,
as estruturas hierárquicas e a organização inadequada contribuem para um ambiente favorável ao erro.” DGS (2010, p 122). Na gestão dos cuidados, os enfermeiros, na sua prática clínica focalizam as
suas intervenções “na complexa interdependência pessoa/ambiente.” OE (2001, p 7), sendo da competência do enfermeiro de cuidados gerais, o cuidado pelo ambiente seguro, tal como podemos ler no enunciado o enfermeiro “Cria e mantém um ambiente de cuidados seguro através da utilização de
estratégias de garantia da qualidade e de gestão do risco; utiliza instrumentos de avaliação adequados para identificar riscos reais e potenciais” OE (2003, p 22).
Em ambiente perioperatório, a maioria das pessoas encontra-se numa fase de grande vulnerabilidade, acrescida de perda total ou parcial da consciência, estando completamente suscetível ao ambiente que o rodeia. O enfermeiro perioperatório deve assegurar um ambiente seguro e
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terapêutico mantendo padrões de boa prática. Neste contexto, ele é responsável pela segurança e pelo conforto, tendo presente um conhecimento profundo do meio envolvente (Dias Pinheiro, Costa e Rodrigues, 2006). Os Guias de Boa Prática constituem ferramentas essências para a prestação de cuidados seguros, de qualidade, eficazes, eficientes e efetivos, uma vez que estão baseados na melhor evidência existente ao nível das fontes de informação.
3.1.3 – PRÁTICAS RECOMENDADAS DA AESOP
A aplicação dos resultados da pesquisa à prática dos cuidados é um processo inerente à boa prática clinica, uma vez que encontrada a melhor evidência, devemos de seguida proceder à respetiva aplicação nas atividades de cuidados. Para a consecução dessa operacionalização devemos construir protocolos de atuação, também designados por Guias de Boa Prática. Consideramos que parte integrante das funções do enfermeiro perioperatório consiste em garantir a segurança, salvaguardando as condições ideais do ambiente cirúrgico. Nesse contexto, o enfermeiro perioperatório deve elaborar protocolos, que devem ser organizados por forma a promover uma orientação dirigida e adequada à realidade das necessidades sentidas e manifestadas pelos clientes pelos profissionais, e pelos subsistemas e organizações de saúde (Cambotas, 2006). Na área perioperatória a prestação de cuidados é uma atividade de risco, a qual poderá ser minorada com “pessoal competente e treinado,
políticas claras, procedimentos normalizados e um verdadeiro trabalho em equipa” (Dias Pinheiro e
Martins, 2006: 63).
Dada a diversidade de subsistemas operatórios no País e a panóplia de especializações cirúrgicas, a AESOP, enquanto associação profissional, considerou de interesse para a promoção da qualidade e da segurança na área perioperatória, a criação de um Guia de Boas Práticas, que pudesse servir de base para o cuidar perioperatório. Com este instrumento pretendeu fornecer linhas orientadoras fundamentadas cientificamente e relacionadas com os procedimentos no BO (Guia et al, 2006). Os Guias de Boa Prática podem ser definidos como recomendações que emergem da interação entre os dados científicos e a opinião clínica do profissional, as quais, elaboradas através de uma metodologia científica podem ser consideradas válidas para a prática clínica (Atallah, 1998). Relativamente aos Guias de Boa Prática, aquele autor acrescenta que são “…sugestões de condutas
clínicas, baseadas nas melhores evidências cientificas existentes, produzidas de maneira estruturada (…), com senso e honestidade” (Atallah, 1998).
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A cirurgia é uma componente dos cuidados de saúde a nível nacional e internacional. Cerca de 234 milhões de cirurgias são realizadas anualmente, e as complicações cirúrgicas são comuns, podendo ser evitáveis (WHO, 2008; WHO, 2009; Haynes, et al, 2009). No ambiente perioperatório a gestão de risco e a segurança de clientes e profissionais constitui um foco da prática segura, tal como interpretamos na afirmação: “controlar os riscos e os perigos que ameaçam a capacidade profissional
promove a qualidade dos cuidados, (...) é para proteger a pessoa dos riscos (actuais ou potenciais) e minimizar as sequelas que muitos actos profissionais são realizados. De forma prudente, preventiva ou precautória (...) e no sentido da segurança” (Nunes, 2006). Também para Nunes (2013) “(…) caminhos plausíveis para cuidados seguros seriam então: Respeitar e cumprir os deveres profissionais; (…) Controlar o risco; (…) identificar, analisar e tratar potenciais riscos num contexto de prática circunscrita; (…) desenvolver e avaliar políticas e procedimentos que definam guidelines na instituição e para a prática directa; (…) informação e discussão de casos; (…) formação dos profissionais; (…) produzir recomendações para mudanças nas políticas e/ou nos procedimentos; (…) Zelar pelo ambiente; (…) Desenvolver o conhecimento (…)”.
A AESOP, enquanto Associação Profissional, preocupada com a segurança e a qualidade dos cuidados, elaborou um conjunto de Guias de Boa Prática designadas por Práticas Recomendadas (PR), constituindo recomendações que devem ser operacionalizadas, baseadas em evidências de eficácia, obtidas através da literatura publicada, investigações e opiniões de peritos. Representam a posição oficial da AESOP, constituindo um instrumento que apoia a prática perioperatória com o objetivo de atingir um ótimo nível de cuidados na área (AESOP, 2010). Mas, não importa só a elaboração das PR, igualmente importante é que as mesmas sejam aplicadas e por isso, o enfermeiro perioperatório deve cumprir e fazer cumprir os protocolos vigentes, uma vez que “orientam formalmente
a respetiva atuação” Cambotas et al (2006, p 154). As PR constituem um guia orientador para a prática
dos cuidados estando relacionada com projetos de qualidade, os quais “só serão consequentes e
robustos se incidirem no próprio modo como os profissionais interagem com os doentes e utilizam o conhecimento e as tecnologias de que dispõem. Bons procedimentos dão mais segurança aos doentes, previnem riscos e garantem melhores resultados” Delgado (2009, p 46).
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