A não-consolidação de programas de governo de esquerda na América Latina ocorre de duas formas distintas. A primeira forma, por meio do golpe de estado, foi apresentada pela análise da situação vivenciada no Chile durante o governo da Unidad Popular. A segunda forma, deslocamento do conteúdo dos programas de governo, foi apresentada por meio da análise do conteúdo econômico das propostas de Lula e Tabaré.
A dimensão econômica, aqui analisada, foi o centro das transformações por que passou parte da esquerda para atingir o poder. Assim como, para Allende, a implementação dessa dimensão foi considerada a mais conflituosa e uma das variáveis fundamentais que motivaram o golpe. Enquanto Allende chega ao governo ostentando um conjunto de propostas contrárias ao livre mercado, Lula e Tabaré modificam seus programas, adotando um postura menos radical, respeitosa dos marcos da economia capitalista. O deslocamento ideológico ocorre de forma diferente nos dois casos estudados uma vez que Vázquez se torna candidato em uma coligação de partidos que já havia iniciado a transformação do programa em direção a uma maior aceitação dos limites de uma economia capitalista.
Marco Aurélio Garcia, assessor especial do presidente Lula, expõe a importância do exemplo de Allende para a esquerda latino-americana perguntando, essa que é uma questão tradicional da esquerda:
é possível uma experiência de esquerda na periferia do capitalismo, como é o caso do Brasil e de outros países? Essa experiência está condenada de antemão a ser inviabilizada e um governo de esquerda que se constituir vai terminar como terminou o governo de Allende ou como terminaram outros governos de esquerda na América Latina? Ou ele vai necessariamente trair o seu ideário? (GARCIA, 2005, p.63) Apesar de não responder a questão, Garcia destaca a existência de três possibilidades para um governo de esquerda. A primeira possibilidade é que a implementação de transformações dentro da democracia é viável, a segunda é que as demandas da esquerda são
eliminadas pelo deslocamento ideológico e a terceira, que o governo de esquerda é destituído pelo golpe de estado. O primeiro resultado não encontra respaldo empírico. Já os dois últimos resultados, que inviabilizam transformações à esquerda, são aqui agrupados como um mesmo fenômeno, a não-consolidação de programas de governo de esquerda. Considerar deslocamento e golpe como um mesmo fenômeno não implica, contudo, desconsiderar as diferenças internas de cada categoria e de cada caso analisado, já que o deslocamento ideológico é operado em uma etapa anterior ao golpe. Dito de outra forma, o deslocamento está intrinsecamente ligado ao que os eleitores manifestam de forma democrática nas urnas, enquanto o golpe condiz com o rompimento da democracia após a escolha do governo.
Por outro lado, o aumento do apoio popular é comum entre os casos estudados. Um aumento relativo no caso de Allende65, expresso em eleições ao executivo municipal e ao parlamento, onde os partidários da UP apresentaram desempenho eleitoral final acima do desempenho de Allende em sua vitória66; e, no caso de Lula e Tabaré, um aumento direto do eleitorado. Além disso, em ambas as situações foram necessárias alianças com partidos de centro, embora Allende não tenha conseguido concretizar essa aproximação. Nesse sentido, o deslocamento é dosado na medida dos resultados eleitorais, na capacidade e necessidade de realizar alianças e ampliar as bases de apoio político. O golpe, até certo ponto, ocorre pela ausência ou incapacidade dessa ampliação de alianças. Esses contrastes serão aprofundados no último capítulo do presente trabalho.
Por fim, o que une os três casos estudados é que a participação da esquerda na democracia latino-americana é marcada pela não-consolidação de suas propostas econômicas, portanto, a primeira alternativa sugerida por Garcia (2005), a de implementação de um projeto de esquerda, não ocorre na América Latina.
Se os partidos analisados reconheciam as reduzidas opções para um possível governo de esquerda dentro dos marcos da democracia (inviabilização por golpe ou inviabilização por deslocamento ideológico) não significa que houve a escolha deliberada por uma opção específica. Como foi visto, especialmente no caso de Allende, a escolha foi tornada necessária, contudo, não foi possível realizá-la devido às limitações conjunturais. Por um
65 Em termos teóricos, os resultados de eleições em outras esferas podem ser questionados como medida para afirmar que o apoio popular ao governo da UP aumentou, porém, a interpretação, tanto da UP quanto dos partidos da oposição, naquele contexto, foi que representava o aumento da aceitação. Dito de outra forma, o resultado contribuiu para o clima e os intentos golpistas.
66 Prothro e Chaparro (1976) apresentam pesquisas eleitorais realizadas pelo jornal Ercilla, em setembro de 1972, que mostram que Allende mantinha grande aceitação da população e que, pela intenção de voto, se repetido os mesmos candidatos à presidência de 1970, venceria novamente, com uma margem ainda maior.
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lado, estava a esquerda mais radical, que demandava avanzar sin transar, por outro, a direita, que lutava contra as transformações econômicas e, por outro, o centro temeroso da radicalização do governo. Os registros documentais não permitem afirmar categoricamente se Lula e Tabaré optaram pelo deslocamento de seus programas, contudo, existem pequenas evidências, como discursos e documentos afirmando a necessidade estratégica de buscar alianças e modificações do programa, que indicam o posicionamento influenciado pelo reconhecimento dos limites vivenciados por Allende67.
Mesmo que não haja uma opção deliberada, as transformações dos programas de Lula e Tabaré parecem acompanhar as diversas descrições que a teoria política vem realizando sobre a realidade e sobre a adequação da política às novas conjunturas socioeconômicas. É o caso da noção de que a transformação do conteúdo, tanto da esquerda quanto da direita, mas principalmente da primeira, é resultado do processo de desenvolvimento praticamente inevitável do modelo econômico capitalista. Ou de que a alteração da base social central da esquerda, do proletário para o excluído, leva à modificação das propostas para atender a necessidade de inclusão. Ou, ainda, que as reivindicações por redistribuição são substituídas por reivindicações por reconhecimento identitário, característico de sociedades pós- socialistas68. Se o abandono da oposição ao livre mercado, por parte da chamada nova esquerda, é resultado dos processos de transformação dos valores, do juízo do que é melhor ou do desenvolvimento de condições socioeconômicas específicas, elas expressam a existência, além da escolha individual, como na teoria do voto racional (DOWNS, 1957), de uma dimensão comum de valores sociais que atuam sobre o que se considera a base da democracia, a liberdade individual de opinião.
Assim, o argumento de que a preferência individual, expressa nas eleições por meio do voto, é fator explicativo das transformações da esquerda pode ser problematizado. Esse questionamento será desenvolvido no capítulo seguinte quando se apresentará a não- consolidação como um fenômeno passível de ser estudado pelas ciências sociais. Isso, pois, se argumentará que existem bases ideológicas que permeiam a sociedade como parte da socialização, mas que, devido à hegemonia, garantem a manutenção do modelo de livre mercado capitalista. Por isso, não apenas conduzem ao deslocamento ideológico, mas, como
67 Em Amaral (2003) as transformações são consideradas intencionais, mas não vinculadas à experiência da UP chilena.
68 Descrição esta que parece caber à realidade da dita nova esquerda que, conforme foi dito anteriormente, passa a abarcar um novo eleitorado, composto por minorias políticas (mas maiorias populacionais). É o caso das reivindicações identitárias étnicas, raciais, de gênero, da juventude, dos homossexuais, entre outros, deixando de lado somente a representação da classe proletária e, no caso latino-americano, do campesinato.
será apresentado, impedem o desenvolvimento de propostas que visem romper com o livre mercado capitalista. Definindo-se, portanto, o que aqui se denomina como restrição de abrangência ideológica da democracia.