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Tomás Antônio Gonzaga, pseudônimo arcádico, Dirceu, nasceu em Miragaia, freguesia da cidade portuguesa do Porto no ano de 1744. Era filho do desembargador brasileiro João Bernardo Gonzaga e da senhora portuguesa D. Tomásia Isabel Clark, de origem remota inglesa e ficou órfão de mãe no primeiro dia de vida.
Aos sete anos de idade, mudou-se com seu pai para Pernambuco, onde frequentou o colégio dos jesuítas na Bahia. Em 1761, retornou a Portugal para cursar Direito na Universidade de Coimbra, tornando-se Bacharel em Leis no ano de 1768. Depois de formado, exerceu alguns cargos de natureza jurídica. Pensando em lecionar, candidatou-se a uma cadeira na Universidade de Coimbra, apresentando a tese Tratado de Direito Natural, trabalho este dedicado ao Marquês de Pombal. No entanto, suas intenções mudaram de rumo, pois trocou as pretensões do magistério pela magistratura. Em 1778, foi nomeado Juiz de Fora de Beja, com exercício até 1781. No ano seguinte, já no Brasil, foi indicado para ocupar o cargo de Ouvidor Geral (espécie de juiz da época) na comarca de Vila Rica, em Minas Gerais.
Assim foi na florescente capital do ouro, em plena efervescência desse centro social e cultural, que ele iniciou sua atividade literária e intelectual e também sua vida amorosa, pois, apesar de ser um homem maduro, apaixonou-se por Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, uma jovem de dezesseis anos que foi cantada em seus versos com o pseudônimo de Marília.
De volta ao território brasileiro, reencontrou seu companheiro de Coimbra, Alvarenga Peixoto, morador da cidade vizinha, São João D'el-Rei. Conheceu Cláudio Manuel da Costa e muitos outros com quem se encontrava nos salões literários promovidos em suas casas. Destaca-se que foi Cláudio Manuel da Costa quem incentivou Gonzaga a escrever poesia.
Em 1786, foi promovido a desembargador da relação da Bahia, contudo, por estar preso ao ambiente e aos habitantes de Vila Rica, adiou o quanto pode essa transferência. Teve um romance com Maria Dorotéia, porém sendo pobre e bem mais velho do que a moça, a família, muito tradicional, opôs-se a esse relacionamento, mas aos poucos a resistência acabou. Assim, em 1788, pediu em casamento sua musa, marcando a cerimônia para o mês de maio de 1789.
No entanto, em 1789, todo o sonho de viver seu grande amor foi destruído, pois, nesse ano, foi acusado de participar da Inconfidência Mineira, sendo preso e mandado ao Rio de Janeiro, onde ficou encarcerado por três anos na Fortaleza da Ilha das Cobras. Foi, portanto, separado de sua amada, Maria Dorotéia.
Em 1792, foi condenado e transferido para a costa oriental da África, a fim de cumprir, em Moçambique, uma sentença de dez anos. No país africano, trabalhou como advogado e hospedou-se na casa de um abastado comerciante de escravos, vindo a se casar, em 1793, com a filha dele, Juliana de Sousa Mascarenhas (pessoa de muitos dotes e poucas letras). Dessa união teve dois filhos: Ana Mascarenhas Gonzaga e Alexandre Mascarenhas Gonzaga.
No exílio, ocupou os cargos de procurador da Coroa e Fazenda e o de Juiz de Alfândega de Moçambique (cargo que exerceu até sua morte). Em 1810, morreu louco e seus restos mortais foram trazidos ao Brasil somente no ano de 1937.
Vale destacar que Gonzaga foi um homem do seu tempo que lutava pelos ideais de uma sociedade mais justa e igualitária. Assim, nessa luta por justiça e igualdade, o poeta e ouvidor adquiriu inimigos e um deles foi o governador Luís da Cunha Pacheco Meneses, que governou a capitania de Minas de 1783 a 1788. É a ele que Gonzaga atribuiu seu poema satírico Cartas Chilenas.
De acordo com Maxwell (op.cit), Gonzaga considerava Cunha Meneses um homem que ostensivamente ignorava tanto o bem estar do povo quanto os ditames da lei, da tradição e da justiça. Na verdade, a ênfase das missivas era apontar as irregularidades de um governador corrupto que se vinculava ao ambiente de Vila Rica no tempo da preparação política da Inconfidência Mineira. Na essência, além do viés satírico, a obra constituiu também um interessante quadro dos costumes daquela época e um registro precioso do que era a corrupção no Brasil já desde os tempos da Colônia.
A respeito das atitudes de Cunha Meneses, Furtado (1997b:98), apoiado nas ideias de Eduardo Perié16, afirma que
Os desacertos do governador, ao cabo de algum tempo, acabaram por torná-lo malquerido de uns e detestado de outros, censurado e ridicularizado por muitos. É nesse momento que as “Cartas Chilenas”, tremenda acusação contra o mau governo e má administração do capitão-general, são ateadas à história da Inconfidência como a mecha acessa aplicada à mina do descontentamento público que não tardou a tomar um caráter de verdadeira conjuração.
As palavras de Perié mostram que realmente o governador de Minas Gerais era um homem de má índole e que Gonzaga, em suas missivas, atacava sem piedade os mandos e desmandos dessa autoridade mineira.
Outro fator destacado por Furtado (op.cit.b) é que Pombal era contra o governo de Cunha Meneses e a favor de Gonzaga. De acordo com o autor, Pombal promoveu Gonzaga e levou Cunha Meneses de volta ao reino. Assim, mediante dois decretos reais, Gonzaga foi nomeado desembargador da Relação da Bahia, enquanto seu inimigo foi substituído no governo de Minas por Luís Antônio Furtado de Mendonça, Visconde de Barbacena. Assim, em 1788, Cunha Meneses deixou seu posto e assumiu o governo de Minas Gerais o Visconde de Barbacena. Tomás Antônio Gonzaga, nesse momento, foi substituído por Pedro José de Araújo Saldanha.
Sem dúvida, Gonzaga foi um homem de letras jurídicas e de alta burocracia, dedicando toda sua vida a ofícios e pareceres. No entanto, houve, nesse quarentão sólido, prático e prudente, um lírico que Marilia fez despertar e um satírico destinado a delatar os maus feitos de um tirano.
Com certeza, depois de toda essa trajetória de vida, podemos nos pautar nas ideias de Bueno (1968) que diz que Gonzaga tornou-se imortal não somente pelo seu heroísmo de inconfidente, mas também pela dolorosa trama de amor que teve com Maria Joaquina Dorotéia de Seixas Brandão, sua doce Marília. Era então Dirceu, enamorado romântico e delicado, que o destino tornou infeliz e destruiu a vida. Condenado ao exílio, não encontrou o apoio de sua amada que não o quis
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PERIÉ, Eduardo. A literatura brazileira do século XVI ao começo do XIX: esboço histórico. In: ________A litteratura brazileira nos tempo coloniais.... Buenos Aires: Educardo Perié, 1885. p.180- 259.
acompanhar. Na África, casou-se com outra, mas o amor de Marília foi o seu tormento, e certamente, a causa de sua loucura.
A seguir, focamos a riqueza e a importância das obras de Gonzaga. Ressalta- se que fazemos um estudo mais aprofundado da obra Cartas Chilenas, já que é o objeto de análise desta pesquisa.