4.2 Minimum resting time
5.3.2 Infinite horizon
As pessoas com transtorno TAB, incluídas nesse estudo, em diversos momentos fizeram referência ao preconceito relacionado ao transtorno mental.
O grupo de psicoeducação não diretivo manifestou o interesse de falar sobre esse assunto em mais de uma sessão, provavelmente por se tratar de algo que incomodava os pacientes e precisava ser discutido.
O preconceito pode ser instrumento social para justificar atitudes, posturas e regras que privilegiem certos grupos em detrimento de outros (DALGALARRONDO, 2008). Por muito tempo, o pré-julgamento de que o louco representava riscos e periculosidade social justificou a violência e segregação dessas pessoas (AMARANTE, 2001; BASAGLIA, 1985; DESVIAT, 1999; GOFFMAN, 1974). Entretanto, o estigma relacionado ao transtorno mental ainda está consolidado como um importante problema.
Os depoimentos evidenciaram que as pessoas com TAB traziam consigo associações simbólicas acerca do transtorno, as quais poderiam afetar profundamente a maneira como o compreendiam. Anteriormente aos grupos de psicoeducação, os pacientes possuíam uma imagem negativa da pessoa com transtorno mental, referindo-se às mesmas como “loucas”, irracionais, dignas de depreciação, perigosas, mal quistas pela sociedade e inadequadas.
Eu não entendo muito não de doença mental, pra mim é quando a pessoa começa a ficar doida, agride os outros. (P2D)
Quando as pessoas passam e a gente está sentada lá fora, nos bancos, esperando o médico, eles devem falar: “ah, a lá os louquinhos”. É muito ruim. Porque é separado do “Cuiabá”? (...) ninguém gosta da gente... Ninguém gosta de quem tem doença mental. (P6ND)
As pessoas com TAB, em algumas situações, podem apresentar comportamentos considerados desviantes do que é esperado pela sociedade, especialmente nos momentos de crise. Desse modo, o estigma é fortemente estabelecido e sustentado culturalmente e o paciente, por não se enquadrar no conceito de normalidade imposto pela sociedade, é rejeitado e excluído. (MORENO et al., 2005; RANDEMARK, 2009).
“A rejeição do outro. Aquela rejeição de que quando você fala que tem bipolar já fica todo mundo meio de lado.” (P6ND)
A discriminação foi percebida em diferentes espaços e acarretava sofrimento expressivo para os pacientes. Outros estudos também ressaltam a consternação da pessoa com TAB relacionada ao preconceito (MIASSO, 2006; PEDRILIO, 2010).
O estigma associado ao transtorno mostrou-se com implicações em diversas esferas da vida, dificultando sua socialização, seu progresso nos estudos, inserção no mercado de trabalho ou comprometendo relações.
“Faltavam dois meses pra terminar a faculdade, daí fui internada no A. E eles bloquearam o meu diploma! (...) Por causa de preconceito, eu fiquei solteira, eu não me casei! Eu sou evangélica; no meio, tem muito preconceito! Às vezes, me chamam de “P Louca”. Eu acho isso um absurdo!” (P1ND)
“As pessoas se afastam da gente. A gente fica isolada, né? Mas é isolamento mesmo, a pessoa parece que é excluída da sociedade, inclusive pra arrumar trabalho, pra tudo.” (P2D)
As limitações ocasionadas pelo transtorno afetivo bipolar podem ser mal interpretadas pelas pessoas que convivem com o paciente, especialmente quando não compreendem o TAB. Dessa forma, essas limitações podem ser acompanhadas por algum tipo de julgamento ou depreciação.
“A minha família já não aceita isso, fala que isso é frescura.” (P8D)
Os pacientes expressaram que, em alguns momentos, atitudes preconceituosas lhes destituíam de sua identidade, subjetividade, individualização e história pessoal. Nessas ocasiões sentiam-se reduzidos ao transtorno mental.
“A minha Irma já me chamou de ‘auxilio doença’.” (P6D)
“Às vezes eu tenho vergonha de ter essa doença. Tenho vergonha dos outros acharem que eu sou louca.” (P8D)
Observou-se que alguns escondiam o diagnóstico de TAB para se defender do estigma associado ao transtorno, da vergonha e da possibilidade de ser julgado ou rejeitado.
“Odeio quando eu vou num lugar renovar um cartão, daí o povo fala pra ir (...) fala pra ir pra fila do deficiente! Aí, eu tenho vontade de catar o pescoço de alguém lá (...) Hoje, se os outros perguntarem, eu não gosto de falar que eu tomo remédio não, mas os de casa já sabem.” (P6D)
“Ah, quando as pessoas perguntam porque que parou de trabalhar. Eu falo que é problema de cabeça. Pra não ficar dando explicação (...) Não pode pular essa parte? Não gosto de falar, mas acho que foi muito estresse na cabeça né.” (P7D)
Entretanto, em grupos de psicoeducação conduzidos adequadamente, esses pacientes podem falar livremente sobre o transtorno sem temer a rejeição ou o pré- julgamento dos outros pacientes e também do coordenador do grupo (MIASSO; CASSIANI; PEDRÃO, 2007), visto que o respeito às características dos pacientes,
sem rotulação, é um dos atributos desejáveis ao coordenador do grupo (ANDALÓ, 2001).
Após os grupos de psicoeducação, os depoimentos permitiram apreender a permanência do preconceito social dirigido aos pacientes. Entretanto, essas pessoas modificaram a própria compreensão sobre o transtorno mental e passaram a se questionar a respeito do quanto eram ou não diferentes das outras pessoas.
“As pessoas que conversam comigo, eu falo como se fosse normal. Às vezes não é, mas eu me sinto como se fosse normal.” (P1D)
A minha doença é como outra qualquer que precisa ser tratada (...) é como se eu tivesse pressão alta, por exemplo. Tem que sempre tratar e eu preciso também sempre me tratar. (P1ND)
Desse modo, apreende-se que os grupos de psicoeducação destinados a pacientes, embora não tenham impacto amplo no preconceito social sobre o transtorno, podem auxiliar a pessoa com TAB a compreender que o transtorno mental é como qualquer outra morbidade. Assim, equiparando o TAB a qualquer outra morbidade, os pacientes perceberam que o diagnóstico não é um elemento que deve ser associado a juízo de valor. Portanto, passaram a considerar que não devem ser qualificados como inferiores pela presença do transtorno.
4.6.3.2. Dificuldades enfrentadas no cotidiano decorrentes do transtorno e/ou