Estado de Minas
Um acidente ambiental ocorreu em Macacos, Nova Lima, Região Metropolitana de Belo Horizonte, em 2001, devido ao rompimento da barragem da empresa ‘Mineração Rio Verde’. Partindo desse fato, os jornais noticiaram as causas do acidente e suas conseqüências, entre elas os desastres ecológicos proporcionados por esse rompimento. Ao se romper, vazamentos de lama e rejeitos de mineração atingiram córregos e matas e mataram cinco pessoas. Depois de seis anos, essa notícia volta para as páginas dos jornais com a condenação dos executivos da mineradora. Por se tratar de um acontecimento que envolve movimentos sociais dos atingidos por barragens e por ter atingido os recursos hídricos da região, essa notícia foi incluída na categoria “Questões energéticas, recursos hídricos e lutas ambientais de movimentos sociais”.
Sendo o rompimento da barragem um acontecimento que se caracterizou pela atualidade, ou seja, pela capacidade de o acontecimento ter desdobramentos capazes de serem acompanhados pela mídia e de serem transferidos imediatamente, na forma de informação, ao leitor, que será permanentemente atualizado sobre os desdobramentos; pela potencial dramaticidade pela situação em
que estavam as pessoas atingidas; pela quantidade de pessoas envolvidas no acontecimento; pela relevância e significação do acontecimento quanto à sua potencial evolução e conseqüência, os jornais se empenharam em publicar todas as novidades que surgiram no decorrer do tempo sobre a tragédia. Essas características podem ser verificáveis nas narrativas para reconstituir os valores que influíram na decisão de torná-las enquanto tal, a partir do acontecimento primeiro. O fato (rompimento da barragem e os prejuízos sociais, econômicos e ambientais) por si só já é importante, sendo evidente o poder de sua noticiabilidade.
“Desastre ambiental punido com prisão
De acordo com o último balanço divulgado pelo Sistema Estadual de Meio Ambiente (Sisema), em abril, Minas Gerais tem 616 barragens cadastradas, sendo que 193 apresentam alto risco ambiental em potencial. Há 255 com risco médio e 168, baixo. Do total de relatórios de auditoria de segurança de barragens apresentados à Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) por empresas que Têm reservatórios em suas áreas, 59 apontaram que eles não estão estáveis (27 com alto risco ambiental potencial, 20 com risco médio e 12 com risco baixo). São considerados alto potencial de risco rejeitos classificados pelas normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), como a vinhaça, proveniente de destilarias, e resíduos de processos industriais.” (Estado de Minas, 14/06/07, p.26).
Dentro dessa categoria, outros assuntos foram noticiados, como a transposição do Rio São Francisco e hidrelétricas onde estão presentes também os movimentos sociais:
“Entidades ocupam canteiros de obras
O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, afirmou ontem que as obras de transposição das águas do Rio São Francisco vão continuar, independentemente de movimentos contrários ao projeto. A declaração foi em resposta a ocupação promovida por cerca de 150 pessoas, que montaram acampamento no canteiro de obras, em Cabrobó, no sertão pernambucano.” (Estado de Minas, 27/06/07, p.13).
As fotografias deram credibilidade ao discurso da atuação dos órgãos do governo, como podem ser vistas nas matérias do Estado de Minas.
Figura 27. “Pela revitalização do São Francisco” Fonte: Estado de Minas, 06/05/07, p.30.
Hoje em Dia
O jornal Hoje em Dia também explorou as conseqüências do rompimento por barragens – a punição dos executivos envolvidos no desastre ambiental. O jornal pretendeu mostrar as conseqüências devastadoras que a Mineradora causaram aos moradores, à vegetação e à cidade:
“Executivos condenados a 8 anos por desastre ambiental
O desastre ambiental despejou um mar de lama sobre o Córrego Taquaras, varrendo parte da vegetação ciliar e obstruindo a principal estrada de acesso ao distrito de São Sebastião das Águas Claras (Macacos), em Nova Lima, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Cinco funcionários morreram no acidente. A mineradora também foi condenada a prestar serviços à comunidade durante oito anos e oito meses.” (Hoje em
Dia, 14/06/07, p.13).
A opinião dos movimentos sociais nessa matéria apareceu na voz da presidente da Associação Comercial de Macacos, Patrícia Miriam Pereira e do presidente da Associação de Moradores de Macacos, Juraci Peixoto Soares:
“‘Houve negligência e mortes. Nesse caso a lei deveria ser justa para todos, sem distinção’, disse, defendendo punição mais rigorosa também para recuperar todo o estrago provocado na natureza e na vida dos moradores. ‘Nosso arraial merece maior atenção. Só nos resta agora, além de justiça, torcer para que essa tragédia sirva de exemplo para que outras não aconteçam’, disse” (presidente da Associação dos Moradores de Macacos, Juraci Peixoto Soares). (Hoje em Dia, 14/06/07, p.13).
A questão da transposição do Rio São Francisco também fez parte dessa categoria. O jornal Hoje em Dia deu voz aos órgãos do governo ao relatar sobre as obras de integração do Rio São Francisco:
“Governo ‘conquistou nas urnas’ a transposição, afirma Geddel
‘Os movimentos sociais, a sociedade civil podem opinar, sugerir, criticar, e o Governo tem que ter sensibilidade para incorporar posições’.
‘Mas o ato de governar é indelegável, isso é de quem conquistou nas urnas o direito de implementar os projetos que foram aprovados pela população’, afirmou Geddel”. (ministro da Integração Nacional). (Hoje em
Dia, 13/06/07, p.4)
“Transposição sairá porque Lula quer, afirma ministro
Geddel anunciou que, com as obras do Rio São Francisco, Minas será beneficiada com R$ 450 milhões até 2010. Disse que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) garantiu, até 2010, recursos da ordem de R$1,3 bilhão para ser aplicado na revitalização do rio, ou seja, na maioria dos 505 municípios que fazem parte da bacia do São Francisco. Serão ações de esgotamento sanitário, tratamento de resíduos sólidos, recuperação de áreas degradadas, contenção de barrancas e controle de erosões, melhoria das condições de navegação e recuperação de nascentes e matas ciliares.”
‘Ele que foi eleito pelo povo e quer realizar a obra’. Segundo o ministro, as igrejas e os movimentos sociais têm legitimidade para reclamar, mas quem governa é Lula e a decisão é do Governo Federal. (Hoje em Dia, 12/06/07, p.4)
Em nenhum momento foi observada, no período pesquisado, uma matéria que entrevistasse ou desse voz a pessoas ligadas e atingidas por essa transposição. As narrativas do Hoje em Dia foram ocupadas por sujeitos que representam órgãos governamentais e o jornal reproduz o discurso de autoridades que possuem na narrativa o aparato técnico e burocrático para gerenciar as questões que envolvem as obras sobre o rio. O discurso do ministro priorizou a possibilidade de reivindicações contra o projeto, mas (palavra usada freqüentemente em seus discursos) a decisão do que deverá ser feito depende exclusivamente do Governo Federal. A menor participação de fontes científicas em matérias dessa categoria pode indicar pouca valorização do conhecimento técnico no trato destas questões ou pouca busca por estudos que tratam desses temas.
As narrativas destacaram e representaram o lugar oficial do discurso ambiental, como o Sistema Estadual de Meio Ambiente (Sisema), organizando-se a partir dos efeitos dos enunciados dos sujeitos cujas falas representam relações políticas, econômicas e ambientais do moderno discurso capitalista / liberal.
As fotos do Hoje em Dia apresentadas nessa categoria mostraram personalidades políticas ligadas à transposição do São Francisco (Figura 28) e fotos de arquivo sobre o rompimento por barragem.
Figura 28. “Transposição sairá porque Lula quer, afirma ministro” Fonte: Hoje em Dia, 12/06/07, p.4.
Pela questão da factualidade e abrangência regional e nacional, pode-se inferir que esses foram os valores considerados pelos jornais Estado de Minas e Hoje em Dia, para que os assuntos dessa categoria se tornassem noticiáveis.