2.2 Forces and Torques 9
2.2.3 Inertia tensor
Como elemento para a avaliação da imagem ambiental do Grupo Cosan trazemos as opiniões dos entrevistados quanto a Gestão Ambiental do Grupo e sua divulgação.
Sobre as ações ambientais da Cosan no Município de Piracicaba o entrevistado 1 comenta:
“Na realidade a mesma coisa, o cara destrói o meio ambiente e planta 10 mil árvores e diz que está favorecendo, quero saber o que você destruiu pô, quer dizer mesma coisa eu te corto o braço e te dou uma prótese? Você cortou meu braço, não está fazendo um bem. E eu acho que a Cosan deveria fazer muito mais.”
Para o entrevistado 2 o grupo realiza muitas ações:
“Então eles têm que, este negócio de ambiental essas coisas eles tem que ter. Só que eu me preocupo mais é com meu trabalhador, eu acho que esta área ai já pertence mais pras pessoas mais especializadas, mas eles tem feito bastante coisa viu?”.
O entrevistado 10 ressalta as ações do Grupo junto aos fornecedores:
“O Grupo Cosan, atual Raízen, foi pioneiro na adesão ao Protocolo Agroambiental do Governo do Estado de São Paulo, e como exemplo, realiza doação de mudas nativas aos fornecedores de cana e parceiros agrícolas”.
Ainda para o entrevistado 10 o grupo traz consigo muitos benefícios ambientais, como a distribuição de energia:
“A Raízen produz energia elétrica para consumo próprio nas unidades industriais, bem como disponibiliza energia elétrica a terceiros (concessionárias) a partir de biomassa, ou seja, decorrente da queima do
bagaço da cana-de-açúcar nas caldeiras em algumas unidades”.
Quanto a comunicação e divulgação das ações ambientais do setor sucroenergético e da Cosan o entrevistado 3 opina:
“As grandes empresas, a Cosan, por exemplo, tem uma estrutura de comunicação, uma assessoria de comunicação consolidadíssima, já se empenhou neste sentido em mostrar o que está sendo feito e os pequenos ainda continuam meia boca, sofrendo, claro, as consequências do histórico. Hoje a Cosan já não é mais aquela empresa que falava vou fingir de morto. O que eu vejo é nestes últimos anos ai ficou provado que nada melhor do
que a propaganda né? Mas nada melhor do que a imagem, o fato em si”.
Quanto às críticas e denúncias recebidas pelo Grupo, o entrevistado 3 ressalta “ A Cosan está mais no holofote porque é a maior, agora vai ser procedente? Duvido que seja”.
Para o entrevistado 5 o Grupo é de grande importância no Município e gostaria que houvesse sua participação no Conselho de Desenvolvimento Rural de Piracicaba :“Pela importância, pela capilaridade que ela tem com este monte de usinas sendo responsável por uma área de cana imensa eu acho que é uma voz que
deve ser ouvida dentro do Conselho”.
Quanto a imagem e ações de divulgação do Grupo o entrevistado 5 acredita que em Piracicaba esta imagem é boa, mas que o grupo não divulga suas ações:
“A visão que todo mundo tem da Cosan no Conselho e pelo que eu percebo da sociedade é de uma empresa bem comportada com boa fama, sabe, em termos de não utilizar o seu poderio e ela perante um agricultor é uma imensidão e o agricultor é um nada, uma formiga e ela não utiliza este tipo de poder. Ajudou a prefeitura a construir a ponte do canal torto e não fez propaganda. Empresa com fama de ser técnica extremamente técnica,
séria, esta é a fama que a gente percebe, a gente sente no ambiente, são muito solícitos, sabe? E só manifestei que eu tinha estes 2 alqueires ,quem sabe eu podia arrendar pra cana, e rapidamente veio um técnico passou preços e valores de uma forma extremamente profissional, sabe, é assim como a Cosan é. Não se vê propaganda, não se vê esta vertente publicitária dela. Tem iniciativa sim, mas não tem muita propaganda.”
Já para o entrevistado 6 há a imagem positiva e há a imagem negativa:
“Tem aqueles que veem com bons olhos e têm aqueles que veem com maus olhos. A Cosan veio como um grupo é um capital fechado que gira muito dinheiro que não tem muita mão de obra envolvida. Então você gera bastante dinheiro, mas você não tem uma mão de obra, podemos dizer que aumenta bastante a desigualdade social”.
Quanto a distância entre ação e divulgação o entrevistado 7 emite sua opinião:
“A Cosan fazer mais do que divulga eu tenho certeza que não, agora eu não posso dar uma resposta bem convicta, mas eu acho que a preocupação deles é muito dinheiro principalmente agora que é multinacional e não tem
compromisso nenhum com nacionalismo, com o país”.
A opinião pessoal do entrevistado 9 é que a Cosan “Tem uma autoimagem muito boa”. Bueno (2009, p. 190) define autoimagem de uma organização como a imagem construída por seus públicos internos.
Para o entrevistado 10 a imagem do Grupo no município de Piracicaba-SP é
boa e todas as ações divulgadas são realizadas: “Pelo que temos acompanhado em
nossa região de abrangência, as ações divulgadas pelo Grupo são realizadas”.
A fusão da Cosan com a Shell também levantou questões entre os entrevistados. O entrevistado 3 acredita que esta fusão melhora as práticas ambientais:
“Nossa é mundial isso ai a preocupação, o marketing ambiental, a Shell é holandesa, quer dizer, o negócio é mostrar para o mundo que está trabalhando no sentido. Então é esta história que o pessoal de ONG não enxerga.”
O entrevistado 9 também acredita na melhora: “dizem que esta fusão mudou o conceito e melhorou a área ambiental”.
O entrevistado 10 diz que o setor Sucroenergético é bastante discutido pelas
entidades de fornecedores de cana em Piracicaba: “As entidades mantêm em seu
corpo técnico, profissionais ligados diretamente com a área ambiental, portanto constantemente o tema é discutido, em especial sobre temas ligados ao setor”.
Assim como o setor em si, o grupo Cosan traz consigo as contradições e questionamento referente à distância entre suas ações realizadas e sua divulgação. Enquanto alguns entrevistados acreditam haver ações ambientais compatíveis com
sua divulgação, e até mais do que é divulgado, outros acreditam que não há muitas ações, ou que há, mas não é divulgado, e ainda aqueles que não chegaram a opinar diretamente sobre o assunto. Esta situação demonstra a complexidade dos questionamentos acerca da ação e divulgação empresarial.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nesta dissertação, não tivemos o intuito de favorecer ou desfavorecer o setor sucroenergético ou a empresa retratada, mas sim melhor conhecer a dinâmica entre as ações ambientais e a imagem divulgada e percebida. Bem como conhecer a relação e os conflitos existentes entre a empresa e demais setores e suas respostas às críticas.
Observamos que tanto a divulgação quanto a Gestão Ambiental no setor sucroenergético são incipientes. Os questionamentos a cerca da distância entre divulgação e ação ambiental mostraram-se peculiares, na medida em que o setor possui características que o diferencia de outros setores, como o incentivo a produção de um combustível que por si só carrega a incumbência de ser ambientalmente correto como o etanol. A divulgação, então, vai além de publicidade e propaganda a clientes e ganha dimensão internacional e governamental. O Estado assume uma posição ambígua, ou seja, ao mesmo tempo em que é agente fiscalizador e inibidor de más práticas é também parceiro do setor em celebrações de acordos ambientais e sociais e na divulgação nacional e internacional de um etanol “verde”.
Vimos que a Gestão da Imagem ambiental do grupo Cosan se dá através de estratégias de comunicação e divulgação próximas daquelas recomendadas pela UNICA e também de estratégias de divulgação próprias como campanhas publicitárias referentes ao etanol. Não podemos afirmar que suas ações de comunicação estão integradas com a Gestão Ambiental, pois não tivemos acesso à empresa e, portanto não mapeamos o caminho entre a informação ambiental produzida pela Gestão Ambiental e sua divulgação externa. Mas, podemos perceber que há denúncias de más ações ambientais e sociais indicando uma distância entre o que é realizado pelo Grupo e o que está sendo divulgado.
O Grupo possui diversas empresas e, portanto suas ações de publicidade e comunicação são fragmentadas entre estas. Isto pode ser um indicativo de que as ações de Comunicação não se integram as de Gestão Ambiental. Sendo, portanto necessários mais estudos com atenção a complexidade deste Grupo. Nesta dissertação voltamos o olhar para as ações do etanol.
Aqui cabe comentar que a empresa foi convidada a participar desta pesquisa. O Grupo concedeu uma entrevista e, apesar dos muitos contatos desta pesquisadora, alegou mudanças de cargos e não deu respostas e continuidade ao processo de autorização para utilização de informações. Isto pode sugerir pouca maturidade de seu sistema de Gestão Ambiental e dificuldade comunicacional de atendimento ao público externo e talvez também dificuldade em expor o que realmente vem sendo realizado.
Vimos ainda que, como divulgação da Gestão Ambiental, a empresa possui além de texto em Website, a publicação nos moldes GRI de relatórios de sustentabilidade, que por seguirem padrões internacionais, procuram trazer informações concretas incluindo dados numéricos referentes às ações ambientais realizadas. Notamos também, que esta publicação nos moldes GRI é recente, ainda no ano de 2010, a divulgação se dava exclusivamente através de textos em website e relatórios de administração sem informações detalhadas.
Deste modo, visualiza-se uma evolução da agenda de comunicação com respostas às críticas e uma tentativa de melhoria da imagem do Grupo assim como ocorreu no setor sucroenergético. Retomando Lyon e Maxwell (2011) que acreditam que a pressão dos públicos pode induzir algumas empresas a publicar menos sobre seu desempenho ambiental, notamos que isto não ocorreu com a Cosan, que mesmo com as pressões passou a publicar mais dados referentes à sua Gestão Ambiental e a responder episódios como o caso das Terras Indígenas em Caarapó- MS .
Carregando um passado de agressões ao ambiente e má condição de trabalho, o setor e o Grupo Cosan profissionalizam suas ações de divulgação e de Gestão Ambiental a fim de se livrar deste histórico. Em suas divulgações procura demonstrar uma Gestão Ambiental efetiva, porém como esta mudança é incipiente e como toda mudança não dá saltos, a adequação ambiental total ainda não foi alcançada, por isso muitos problemas ainda existem, são praticados e percebidos pela sociedade e apontam para uma discrepância entre sua divulgação e sua ação. Sabemos que a adequação ambiental total é uma condição ideal e, portanto não completamente alcançada, mas o setor ainda patina em degraus básicos da Gestão Ambiental como o cumprimento da legislação, dando a aparência de que há uma divulgação mais sofisticada do que uma Gestão Ambiental efetiva.
Deste modo, ainda sobre a distância entre a Gestão Ambiental realizada e a Imagem ambiental projetada, notamos que apesar de prêmios recebidos e divulgação concreta de suas ações ambientais, o Grupo Cosan, assim como o setor, ainda recebe desconfiança de seus stakeholders, principalmente do poder público e de organizações não governamentais, sofrendo denúncias constantes de agressões ao ambiente. Apesar desta dimensão pudemos observar que o Grupo Cosan também teve que enfrentar pressões locais no Município de Piracicaba onde está instalado desde 1936.
Neste Município, o Grupo foi pressionado a melhorar suas práticas, principalmente as práticas trabalhistas e divide opinião quanto aos benefícios e malefícios trazidos ao Município ao longo de sua história. Os entrevistados pela pesquisa possuem opiniões diversas quanto à divulgação e ações em Piracicaba nos trazendo a complexidade e a subjetividade da questão.
Embora a relação do Grupo com a sociedade tenha sido conflituosa e ainda seja, parte dos entrevistados relatou uma mudança de postura da empresa, principalmente em função de interesses econômicos e apontaram que, após a pressão da sociedade, houve melhoria das práticas ambientais e sociais do Grupo.
Isto leva a maior credibilidade, mas também a desconfiança se haveria ações proativas e livres das pressões, pois a Gestão Ambiental do Grupo demonstrou ser reativa, ou seja, suas ações não se anteciparam as ocorrências ambientais e sociais, mas foram realizadas após a cobrança dos stakeholders.
Por fim, ao explicitarmos estas questões, esperamos que esta pesquisa possa contribuir e auxiliar no conhecimento da dinâmica entre ação e divulgação empresarial, mostrando como uma empresa responde as críticas e demandas socioambientais no Brasil.
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